A beleza que nos cabe é a que caminha sobre ossos!
A frase está num texto de Luiz Felipe Pondé, citando Nietzsche, para a Folha de S. Paulo. Pondé fala sobre sua relação com Deus e a percepção de que coragem e gratidão lhe são mais relevantes do que a fé. Talvez porque a fé seja uma disposição tão mais perigosa e dúbia do que as outras, capaz de levar o sujeito ao máximo de altruísmo e de fanatismo – muitas vezes simultaneamente. A certa altura Pondé diz o seguinte:
Tenho um entendimento peculiar de Deus: para mim, Ele pede mais coragem e gratidão do que fé. Mesmo nas narrativas do chamado Velho Testamento, como diz o crítico Erich Auerbach (século 20) em seus “Mímesis”, não me parece que a fé seja uma questão essencial na relação entre o Deus de Israel e seus heróis, mas sim a capacidade de suportar o dia-a-dia, com seus ventos e sua poeira, de ser dobrado e amassado, e ainda assim, comer e beber com gosto, estar com a mulher amada, compartilhar as alegrias efêmeras.
Esta passagem me lembrou imediatamente o Messiah do Händel – muito pouco ouvido, muito desconsiderado. A ária que considero mais bela diz, citando Mateus 11: 28-29,
Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.
O que seria da Bíblia sem o novo testamento? Que bela imagem esta! Não nos alivia a existência e nos consola. Quanta diferença entre Mateus e Jó. Da aposta indiferente ao consolo tão humano. Meu Deus, caso eu tivesse um, me diria algo assim: viva tua vida o melhor possível - a beleza que te cabe caminha sobre os ossos – quando tudo isso aqui acabar a gente conversa. Ele estaria me esperando como um pai espera seu filho esforçado na beira da piscina depois de uma prova exaustiva. Ah! A função paterna transferida para a divindade. No fundo da minha alma resiste um bastião suburbano de religiosidade, tensionando a pretensão intelectual racionalista do acadêmico. Haverá sínteses possível? Como diria Rilke. “Quem falou em vitórias? Suportar é tudo”.



Olá Daniel,
“No fundo da minha alma resiste um bastião suburbano de religiosidade, tensionando a pretensão intelectual racionalista do acadêmico. Haverá sínteses possível? Como diria Rilke. “Quem falou em vitórias? Suportar é tudo”.
Bom…com essa o Almoxarifado começa a balançar e o Terreno Baldio, em fuga da racionalidade, vê com bons olhos tudo que remete ao viver intensamente. Abaixo o racionalismo e o intelectualismo acadêmcios.
lisandro
20 Maio, 2009 em 1:08 am
“Acreditem na morte de vocês, porque senão como vocês irão suportar a vidinha de vocês” – Lacan
aroncoiote
21 Maio, 2009 em 11:09 pm
leia isso – http://diariosdacataluna.wordpress.com/2009/05/21/a-palavra-nos-da-de-presente-a-morte-lacan-heidegger-epicuro/
aroncoiote
21 Maio, 2009 em 11:32 pm