Conta outra, Dirceu.
E o Zé Dirceu escreveu um artigo na FSP sobre a saída da Marina Silva. Ele meio que oficializou a versão de que a senadora foi cooptada pelo eixo PSDB-DEM através do seu braço verde, o PV. Enche a Marina de elogios, mas avalia a decisão como um equívoco.
O centro do texto é a diferenciação entre os projetos políticos do PT e do PSDB-DEM. Cito:
O PSDB fez uma opção, há quase 15 anos, por ser o partido das elites financeiras, quando a transição conservadora entrou em colapso após o impeachment de Collor.
A velha direita, desgastada pela longa ditadura militar, não era mais capaz de protagonizar a engenharia do Estado neoliberal. Esse foi o vácuo preenchido pelos tucanos, que se aliaram às velhas oligarquias do PFL-DEM para levar a cabo um programa de privatizações e desregulamentações que desmontou a economia do país e colocou em xeque a soberania nacional. Esse foi o papel exercido por FHC, cujo custo social o levou à derrocada em 2002.
O PT foi a vanguarda da mobilização contra esse programa. Quando o presidente Lula assumiu, mesmo em condições políticas precárias, pois minoritário no Congresso e às voltas com uma herança maldita, travou o programa tucano-liberal, interrompeu as privatizações e deu início à reconstrução do Estado como condutor de uma economia baseada na produção, no mercado interno e na distribuição de renda.
O texto foi talhado para criar uma identificação por oposição e, neste sentido, foi escrito para ser lido pela militância petista. O recado é o de que não há “crise” e, principalmente, os princípios deontológicos não estão se evaporando na chapa quente da realpolitik. Há uma clivagem fundamental entre estas duas forças políticas e se você não está de um lado, está de outro. Mas e o Sarney? Convenientemente não está incluído entre as forças da “velha direita”. Ele deve ter remoçado com o uso da linha PT Renew Rejuvenate. Tratamento intensivo.
O que o Dirceu quer esconder é o alcance da desagregação ética do PT. Eu não consigo pensar num exemplo mais didático do que o caso Mercadante, gentilmente forçado por Lula a retroceder quando não mais poderia, ao custo da sua imagem pública – o partido saberá recompensá-lo, espero. Esta desagregação é o preço do poder. Há um dilema moral entre os utilitaristas que vale bastante para o PT de agora: se você tem um projeto ou um ideal e nas pequenas ações cotidianas abre mão dele, em função de um racioncínio estratégico, você pode terminar, lá no final, quando suas ações forem somadas, num passivo ético meio vergonhoso. A soma de más ações não resulta numa boa ação. Os utilitaristas resolvem esta questão abandonando a idéia de um princípio moral universal e fundamentando a validade das máximas individuais em objetivos circunstanciais e, no limite, quantificáveis.
É o que está acontecendo com o PT. O projeto de poder está engolindo o partido porque, em nome deste projeto, abandona-se os princípios que determinaram a existência do próprio partido. Gabeira, Babá, Heloísa Helena, Marina, Flávio Arns dão testemunho deste dilema optando por manter sua fidelidade pessoal a estes princípios. Eles preferem o PT fora do poder. Não querem ser obrigados a dançar a ciranda da governabilidade com Sarney, Collor, Calheiros e Salgado.
O que emerge daí é um novo PT. Seu traço mais característico, até agora, é o centralismo decisório (o lulismo) e o pragmatismo político. Embora programaticamente ele se atenha a uma pauta trabalhista de esquerda, deontologicamente ele é um bicho totalmente diferente. É esta metamorfose que faz da fala do Zé Dirceu uma legítima historinha para boi dormir. A única coisa realmente certa é que o PT não pretende se mover em direção ao PSDB em nenhum momento futuro. Se isso acontecer quem sai é o Zé Dirceu. Quem sabe ele não vai para o PMDB?


Daniel,
Grande artigo e concordo com vc. Mas, a jogada da Marina não é a mesma do PT, de lançar o maximo de candidatos a esquerda do PSDB e depois reunir todo mundo no segundo turno?
Acho dificil pensar que isso não foi armado, que há dilemas éticos ou morais…Será mesmo?
abraço
fantini
joao fantini
5 Setembro, 2009 em 9:50 pm
Ótimo texto, brilhante, brilhante, amigo.
Assinaria embaixo de cada letra!
Elder Dias
14 Setembro, 2009 em 4:14 pm