Eu, O Popular e alguns ajustes
O jornal O Popular sai hoje com uma matéria sobre as eleições na Internet na qual fui uma das principais fontes. A gente nunca sabe como vai ficar, depois de filtrada pelo jornalista, uma entrevista longa concedida por telefone. A repórter Núbia Lobo – que trabalhou comigo no Diário da Manhã – fez um bom trabalho, mas se confundiu em algumas partes que eu gostaria de esclarecer.
Em primeiro lugar a linguagem. Uma conversa por telefone é sempre eivada de termos coloquiais, expressivos e até, quando é o caso, alguns palavrões. Mas a transcrição destes termos, no contexto do assunto, deixa entrever certa informalidade um tanto inadequada. Parece que o entrevistado não tratou do tema com muito cuidado nem refletiu bastante sobre a questão. Não é o meu caso. A Internet é um tema relevante para mim há algum tempo. Na verdade, não apenas a Internet, mas toda a relação entre o homem e a tecnologia. Nota mental: cuidado com a linguagem quando falar a um jornalista por telefone!
Em segundo lugar, o conteúdo. Este trecho foi o que mais me preocupou, porque reuniu muita coisa ao mesmo tempo.
O problema está justamente na característica de liberdade de expressão da rede, onde não é possível o controle no fluxo de informações. “Um gráfico de dispersão de informações sobre a gripe suína e a morte do cantor Michael Jackson mostra que muitos posts começaram em páginas eletrônicas pessoais e, quando pegaram nódulos de entrocamento com grandes portais (como o Goiasnet, por exemplo), eles se dispersaram em uma velocidade muito maior”, informa Daniel. Ele lembra que já existem muitos publicitários que lidam com marketing pela internet. “Isso está assustando quem desconhece o assunto”.
O mapeamento ao qual eu me referia era algo assim.
Ele mapeia as conexões entre os indivíduos numa rede social a partir de um ponto central (Ego), gerando um gráfico espacial das relações. Esse gráfico tem nódulos e entrocamentos – o Ego é claramente um entroncamento. Agora veja o gráfico de dispersão da SARS – poderia ser gripe suína, como eu sugeri – modelado com os mesmo princípios metodológicos.
Minha analogia era a de que a dispersão de informação numa rede social obedece a um padrão muito parecido com a dispersão de um vírus transmissível pelo ar, como a gripe suína. Como exemplo eu citei a morte do Michael Jackson – porque achei que seria mais fácil para o leitor sacar a comparação – cujo padrão de dispersão no Tweeter apresentaria um desenho similar a este da SARS. O objetivo era ilustrar a tese de que a informação, assim como a gripe, espalha-se por contágio sendo impossível prever que rumo ela via tomar, principalmente nas redes sociais. Por isso é bobagem querer policiar a Internet. Em momento algum eu disse que a notícia da morte do Michael Jackson começou em páginas de blogs para depois ganhar a mídia. Embora a maneira como uma informação vai de blog a blog não seja realmente tão diferente, eu achei que o modo como a Núbia fraseou o raciocínio ficou meio confuso.
Outra parte diz respeito aos grandes portais de mídia, como o Globo, Terra, Uol, etc. Eles são o que chamei de nódulos de entrocamento – e com fluxo denso -, ou seja, muita gente acessa o tempo todo. Quando uma informação migra dessas tracks vicinais para um nódulo deste tipo a dispersão dispara. Só o Uol, em agosto passado, obteve mais de 1,5 milhões de unique visitors. Ele seria o equivalente daqueles nódulos na imagem acima de onde saem uma penca de vetores com pontas verdes. Ou seja, se a informação chegar num destes portais sua dispersão cresce exponencialmente.
Outra coisa foi a idéia de que a legislação quer “agarrar” ou “atacar” os portais de notícias. A expressão é muito infeliz, embora eu a tenha usado, porque denota certo tom de desobediência civil. A lei quer normatizar e não “atacar” fulano ou sicrano. Leis não fulanizam, nem mesmo as piores. Eis o trecho:
”É um avanço no sentido de que os congressistas entenderam que as páginas eletrônicas pessoais não podem ser controladas, assim como as redes sociais. O que estão querendo agarrar são os grandes portais de informação na internet, embora o Parlamento ainda não saiba exatamente como fazê-lo. Mas, atacando os grandes conglomerados, que têm empresas reais e um braço na internet, o controle se torna possível já que a responsabilidade (por supostos abusos ou privilégios a determinado candidato) será do grupo proprietário daquele portal”, avalia Daniel Christino, mestre em Filosofia Política e professor da UFG.
A conversa se deu no contexto da efetivação da lei. A possibilidade de punição aos blogs individuais é muito pequena porque, caso a pessoa esteja empenhada no dolo, pode hospedar sua página num servidor da croácia ou mais longe. Na verdade não é difícil blogar anonimamente, como mostra este site. Essa estratégia simplesmente não está disponível para os portais de notícias porque eles são obrigados – por questõe técnicas, até – a manterem seus serividores no Brasil. Estes veículos já adotam, desde sempre, a mesma política de outros meios para a Internet, como é o caso do G1, da Globo, porque não podem e não querem privilegiar nenhum candidato, pelo menos não abertamente.
Para terminar estes dois trechos aqui:
Entretanto, Daniel não vê problemas em um portal ou jornal on-line assumir que apóia uma determinada candidatura. “Acho que não devia ter lei alguma para cobertura jornalística na internet. O veículo virtual poderia ser processado por publicar uma informação falsa, mas não por privilegiar algum candidato. O problema é que querem controlar a rede com uma noção estranha de igualdade de espaço. Não tem como medir isso na internet”, diz.
Para Daniel, é provável que os blogs e redes sociais – livres para dizerem o que quiserem – vão contaminar os grandes portais e jornais on-line. “Se um internauta fizer uma denúncia verídica contra um candidato no seu orkut ou twitter, isso pode tomar uma dimensão que obrigue até mesmo os veículos impressos a falarem sobre o assunto”.
Realmente, acho que os veículos de informação podem, como nos EUA, apoiar um ou outro candidato abertamente, assim como podem apoiar uma plataforma política ou ideológica ( o Wall Street Journal é de direita e o Guardian de esquerda). A coisa tem que ser honesta e o jornalismo deve manter a pluralidade. Mas quando digo que não deve haver lei nenhuma estou me referindo a uma lei que proíba a expressão e não que puna excessos. O problema com o projeto de lei do senador Azeredo, mesmo corrigido, é que ele não pretende apenas punir, mas determinar o que pode ser dito ou não. Esse é o problema. Quem melhor colocou a questão foi o Träsel.
Por fim a questão da contaminação. Bem, no contexto da conversa discutíamos o impacto das redes sociais e da Internet nas campanhas políticas. Eu disse que o impacto ainda seria pequeno, em parte por conta da amplitude da rede de blogs na Internet. Mas disse também que os políticos “morrem de medo” de perder o controle sobre a própria imagem e que este controle simplesmente não é possível na Internet. Assim, boa parte do caráter repressivo da lei espelhava essa angústia. Há casos bem documentados do uso de redes sociais em campanhas publicitárias que aumentaram a visibilidade de um produto antes restrito a um círculo pequeno de consumidores. Há mesmo um nome para isso Buzz Marketing ou o mais conhecido marketing viral. O caso mais recente é do filme District 9. Não vi estudos, mas a título de comparação, o falecido Audiogalaxy simplesmente ressucitou o gênero rock progressivo dos porões das gravadoras. E a campanha do Obama provou ser possível usar a Internet de modo inteligente numa eleição.
Como a lei irá operar é algo que nem mesmo a Justiça Eleitoral sabe direito. Será necessário ver o modo como os tribunais irão estabelecer uma jurisprudência para o assunto. Este ajuste fino acontecerá durante a eleição e pode, depois, complicar bastante a vida dos políticos.
É isso.




vai confiar em jornaleiro pra falar de coisa difícil…
aroncoiote
22 Setembro, 2009 em 1:36 am