Ainda sobre o “sacrifício do intelecto”
Se tivesse atentado para este trecho de A ciência como vocação antes, teria sido mais claro com um amigo e o teria feito ver seu erro. É exatamente como diz o trecho abaixo.
Só o discípulo faz legitimamente o “sacrifício do intelecto” em favor do profeta, como só o crente o faz em favor da Igreja. Nunca, porém, se viu nascer uma nova profecia (repito deliberadamente essa metáfora que terá talvez chocado alguns) em razão de certos intelectuais modernos experimentarem a necessidade de mobiliar a alma com objetos antigos e portadores, por assim dizer, de garantia de autenticidade, aos quais acrescentem a religião, que aliás não praticam, simplesmente pelo fato de recordarem que ela faz parte daquelas antiguidades. Dessa maneira, substituem a religião por um sucedâneo com que enfeitam a alma como se enfeita uma capela privada, ornamentando-a com ídolos trazidos de todas as partes do mundo. Ou criam sucedâneos de todas as possíveis formas de experiência, aos quais atribuem a dignidade de santidade mística, para traficá-los no mercado de livros. Ora, tudo isso não passa de uma forma de charlatanismo, de maneira de se iludir a si mesmo.
É isso que acontece quando se quer dar à experiência religiosa um verniz de intelectualidade: falsificação. Ou bem se assume que a labuta intelectual impõe condições para o pensamento, ou corre-se o risco de tornar-se um charlatão intelectual, um mistificador de si mesmo. Como diz o post anterior, quando se usa a cátedra universitária – ou quando se usa a catédra, mesmo não estando ela na universidade – em favor de uma “visão política”, como a da tal guerra cultural, o pensamento se perde de sua vocação. Eu vi isso acontecer com alguns amigos ao ponto da comunicação tornar-se impossível. E sem volta. Uma pena.