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Paul Ricoeur, memória e imaginação.

09/02/2011

Quando a gente se lembra de alguma coisa, se lembra do quê? Em geral, de alguém, de alguma coisa, de algum acontecimento ou mesmo de uma forte emoção. Mas este “quê” – ou, como diriam os escolásticos, quididade – possui qual significado? Não é de fato o objeto lembrado – este já não está presente, já não existe mais -, nem a emoção sentida. O objeto da memória já não existe ou não está presente, mas ao nos lembrarmos tornamos este objeto novamente presente. Este ser/não-ser do objeto lembrado, argumenta Paul Ricoeur, produziu uma sobreposição entre o fenômeno da memória e o da imaginação. Para ele, entretanto, estas operações do espírito são totalmente diferentes. A sacada do Ricoeur para justificar esta afirmação é inverter o modo pelo qual se estuda a memória, retirando a ênfase epistemológica dos processos subjetivos para colocá-la nos próprios objetos lembrados. Esta é a diferença essencial: a memória possui um objeto que extrapola os processos cognitivos do sujeito, a imaginação não. A memória não tem o caráter de imagem. Ela é outra coisa.

Quando eu me imagino correndo na neve – sem nunca ter estado nem visto neve! – eu uso imagens para compor o contexto desta ação imaginada. Quando eu me lembro de correr na neve, adiciono a este contexto um plus epistemológico que é exatamente o essencial da memória. É este caráter, aliás, que se encontra também nos fundamentos da psicanálise: não se pode imaginar uma catarse. O que torna todo o processo terapêutico é exatamente o fato de ter sido experimentado, vivido, pelo paciente.

Este é o pano de fundo do livro A memória, a história, o esquecimento.

Ah! Lembrando que Tempo e Narrativa ganhou nova edição.

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2 Comentários
  1. Daniel,

    Eu li exatamente esse trecho do livro do Ricoeur que vc resume. Estou lendo o livro dele porque fiquei com um pouco de raiva do livro do Kandel http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2937550 hehe

    Mas o livro do Ricoeur toma um rumo muito fenomenológico na parte que estou lendo (chato). Por que ele demora tanto pra explicar isso?

  2. sem querer ser partidário (mas já sendo), isso está inteiramente compreendido dentro do que significa o noema.

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