Manuel Bandeira no enterro de Michael Jackson
Momento num café
Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
Michael Jackson 1958 – 2009

Quando Thriller foi lançado eu tinha 9 anos. Quando o ouvi pela primeira vez, em 1985, tinha 12. Foi numa festa na casa do Robson, um amigo que morava no mesmo quarteirão, duas casas à esquerda da minha. Ele tocou o LP inteiro enquanto varríamos a pista de dança – um quintal de terra batida – arrumando o lugar para mais tarde. Gostei da narração do Vicent Price e da sua risada doentia. Mas foi The Lady in my life que me marcou.
Não porque fosse boa. Absolutamente. Acontece que naquela época as festas eram organizadas de modo a alternar dois momentos fundamentais: música dançante e música lenta. Era a pré-história do DJ. Você montava um set com duas ou três músicas dançantes e uma lenta, para que os casais pudessem se aproximar. Depois engatava mais umas três ou quatro agitadas e outra lenta. Gravava tudo numa fita K7 (Cromo, porque o som era melhor) e botava no três-em-um Polivox do seu pai; quando a fita acabava alguém corria lá e virava o lado – se você fosse rico, seu sistema de som provavelmente teria aquele toca-fica automático e barulhento que toca para os dois lados. Não era o caso do Robson. Toda vez que a fita acabava ele parava o que estava fazendo, corria lá e trocava o lado.
Certo! Havia uma garota…(sempre há uma garota, principalmente aos 12 anos. Pensando bem, aos 12, aos 20, a0s 30, etc. Na verdade, sempre há uma garota, ponto!) cujo nome não me lembro. Sei que era bonita e inalcançável como um acidente geográfico. Ela morava na rua de cima e eu gostava dela já há algum tempo. Enquanto eu tentava arrancar algum ritmo dos meus dois pés esquerdos na pista de dança, ficava rastreando a menina de quando em quando. Assim que rolava uma lenta eu a procurava com o olhar. De repente encontrei-a sozinha. Era minha chance.
Começou a tocar The Lady in my life – “just put your trust in my heart and meet me in paradise, girl” – eu me animei e fui lá. Cheguei perto dela e puxei conversa. “Errr…”. Ela não se entusiasmou muito. Tentei continuar. “Ha…heh…(sorriso amarelo)”. Nada. Precisava tomar coragem, mas só o que eu tinha para beber era Coca-cola. Então os deuses resolveram ter pena de mim e me deram alguma coragem para perguntar: “Quer dançar comigo?” Pô, Michael! Paradise o cacete; ela não quis. Me deu o maior gelo, como se eu fosse uma espécie de zumbi. E a múscia lá “Lay back in my tenderness, let´s make this a night we won´t forget”. Taí, não esqueci. Levar o fora não era o pior. Pior mesmo era a gozação da turma. A situação toda era como o final do primeiro Guerra nas Estrelas: você chega lá na estrela da morte e tem uma chance de acertar o tiro naquela escotilha minúscula…e erra!
Aí estava Michael Jackson, verdadeiro, enraizado na minha cotidianidade. Trilha sonora das minhas (des)venturas pré-adolescentes. Billie Jean com sua batida cool, seus vocais carregados de ginga, chiados e sussurros quase endireitava meus pés tortos na pista. E o video clip dirigido por Martin Scorcese John Landis é simplesmente genial, com seus zumbis cheios de ritmo, blues e soul.
Existe um ponto de tensão para além do qual a matéria de que é feito o ser humano não resiste e arrebenta. Não saberia dizer quando isso aconteceu com o Michael Jackson nem os motivos, mas em algum momento todo o hype em torno dele foi demais. Esta talvez seja a maior bizarrice de todas ou, como querem alguns mais cínicos, a maior performance de todas: pirar em público! Usar o corpo como suporte para cada entalhe enlouquecido. Amplificar seus traumas de infância num imenso parque de diversões privado; na encarnação do mito de Peter Pan; na repetição eterna, neurótica, farsesca da inocência infantil irrecuperável. Atravessado por linhas de força conectadas a diversos interesses, Michael Jackson era a heteronomia pura! Desde os 6 anos no showbiz ele não tinha raízes, era hidropônico, um talento cultivado para o lucro. Beaudrillard dizia que ele havia transcendido o corpóreo.
“Senhoras e senhores, com vocês Michael Jackson! O primeiro dos pós-humanos! “
Prefiro a imagem do negro talentoso de Thriller e Off the Wall e da minha infância. Não essa fantasmagoria pós-moderna. Espero que o cara, sensível e tímido como era, tenha enfim se libertado do peso do nosso olhar obsessivo.
Descance em paz.
A política goiana pega fogo
E eu acho é bom!!!
Em entrevista à CBN local o Dep. Federal Carlos Alberto Leréia (PSDB) referiu-se ao atual Governador do Estado, Alcides Rodrigues, como “traidor”, “desleal” e “sujeito sem caráter”. E não foi só. Perguntado sobre declarações do Secretário da Fazenda do Estado, Jorcelino Braga, a respeito da nota de risco do Estado no BNDS (tão baixa que estaria causando problemas para a liberação de empréstimos), culpando diretamente o Governo de Marconi Perillo – de quem Alcides foi vice -; Leréia acusou Braga de agiotagem e de trabalhar para o PMDB. E não ficou por aí. Segundo o mesmo Leréia a empresa da qual Jorcelino é dono usou laranjas para firmar contrato com a a prefeitura de Aparecida de Goiânia, cujo prefeito é o ex-governador Maguito Vilela do PMDB. “O ministério público deveria dar uma olhada”, disse. Acusou também privilégio no repasse de recursos do Estado para a prefeitura de Santa Helena, administrada pela esposa do governador, Raquel Rodrigues. Insinuou ainda que a Celg, mesmo estando quebrada, injetou recursos nas campanhas para deputado estadual de diversos aliados do governo, inclusive do atual presidente da própria Celg, Carlos Silva.
Enfim, deu pernada a três por quatro. Estava exaltado e deixou transparecer aquele tipo de irritação da qual o sujeito geralmente se arrepende depois.
Eu só estranhei a reação das comentaristas. Resolveram especular sobre a inevitabilidade do rompimento entre Marconi e Alcides, como se já não estivesse sacramentado, há algum tempo, a estratégia de descolamento do ex-governador em relação a seu antigo aliado político com o objetivo de se posicionar para o pleito do ano que vem. Ao que parece a falência da Celg – e as reportagens do Popular – acabaram precipitando, ou por outras, desvelando o que já ocorria nos bastidores.
Pois é, falar sobre rompimento agora é meio irrelevante. Leréia abriu a caixa de pandora. E me parece obrigação do Jornal seguir a trilha apontada por ele. É uma oportunidade rara de colocar às claras o velho modo goiano de fazer política (arcaico, fisiológico, mergulhado no pior tipo de patrimonialismo). Certamente a operação abafa já está em andamento. Que o jornal, e seus proprietários, não se acovardem.
Isso é o mais curioso. Dependendo de como as coisas se desenrolarem a principal vítima de toda essa história pode ser exatamente a credibilidade do jornalismo do Popular. É obrigação do jornal investigar o alcance das denúncias, em ambos os lados, sob pena de ter sido usado como instrumento de pressão de um grupo político sobre outro. Jornal nenhum pode se prestar a isso pelo motivo óbvio de que representa uma instituição da esfera pública democrática no Estado. Não se pode baixar a cabeça para este tipo de coisa. E não só o Popular. O Diário da Manhã e o Opção devem aos seus leitores uma cobertura a altura do fato, ou não poderão mais ser considerados veículos de informação sérios.
A beleza que nos cabe é a que caminha sobre ossos!
A frase está num texto de Luiz Felipe Pondé, citando Nietzsche, para a Folha de S. Paulo. Pondé fala sobre sua relação com Deus e a percepção de que coragem e gratidão lhe são mais relevantes do que a fé. Talvez porque a fé seja uma disposição tão mais perigosa e dúbia do que as outras, capaz de levar o sujeito ao máximo de altruísmo e de fanatismo – muitas vezes simultaneamente. A certa altura Pondé diz o seguinte:
Tenho um entendimento peculiar de Deus: para mim, Ele pede mais coragem e gratidão do que fé. Mesmo nas narrativas do chamado Velho Testamento, como diz o crítico Erich Auerbach (século 20) em seus “Mímesis”, não me parece que a fé seja uma questão essencial na relação entre o Deus de Israel e seus heróis, mas sim a capacidade de suportar o dia-a-dia, com seus ventos e sua poeira, de ser dobrado e amassado, e ainda assim, comer e beber com gosto, estar com a mulher amada, compartilhar as alegrias efêmeras.
Esta passagem me lembrou imediatamente o Messiah do Händel – muito pouco ouvido, muito desconsiderado. A ária que considero mais bela diz, citando Mateus 11: 28-29,
Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.
O que seria da Bíblia sem o novo testamento? Que bela imagem esta! Não nos alivia a existência e nos consola. Quanta diferença entre Mateus e Jó. Da aposta indiferente ao consolo tão humano. Meu Deus, caso eu tivesse um, me diria algo assim: viva tua vida o melhor possível - a beleza que te cabe caminha sobre os ossos – quando tudo isso aqui acabar a gente conversa. Ele estaria me esperando como um pai espera seu filho esforçado na beira da piscina depois de uma prova exaustiva. Ah! A função paterna transferida para a divindade. No fundo da minha alma resiste um bastião suburbano de religiosidade, tensionando a pretensão intelectual racionalista do acadêmico. Haverá sínteses possível? Como diria Rilke. “Quem falou em vitórias? Suportar é tudo”.
Em junho, o Rio de Janeiro
No final do semestre darei um pulo na maravilhosa cidade do Rio de Janeiro para o LASA 2009 e para um chopp especial com o Idelber, o Alex e quem mais aparecer neste dia, desde já mítico, como colocou o Alex. Como o artigo submetido precisa ser inédito não dá para disponibilizá-lo no blog. Depois de junho eu deixo o link. Se você estiver pelo Rio neste período (11 a 15 de junho) deixe um comentário com seu celular e a gente marca alguma coisa.
É bom trabalhar na UFG?
Já me perguntaram isso. É claro que é. Quando estou meio cansado, relaxo com a vista da janela da minha sala.

Neste dia estava chovendo. Na estação da seca a paisagem fica mais ou menos assim

É no caminho para o restaurante.
Sim. É ótimo trabalhar no Campus.
Potência solar
Eu geralmente uso o Twitter para este tipo de informação, mas a foto é tão legal que resolvi colocar aqui: nosso apocalipse pode vir na forma de tempestades solares. Sabe quando? 2012. Aqui a matéria da Wired.

Arquivos para os alunos
Moçada, disponibilizo dois arquivos para apreciação de vocês.
Um é o Plano de Curso da disciplina de novas mídias, o outro é a tradução de um famoso artigo do Nicholas Carr que usei na disciplina de Teorias da Comunicação II.
Enjoy.
Zeitgeist
“Espírito do tempo”. Comecei a disciplina Teoria da Narrativa e novas mídias – games, HQ e animação (caça-nerd, como eu gosto de chamá-la). Havia 59 alunos em sala. Muitos vieram por causa do nome da disciplina. Outros pelo professor (modesto? Quem? Eu? Imagina). E outros ainda porque precisam das horas para se graduar e a disciplina lhes pareceu divertida. Ao todo houve mais de 100 inscrições para uma disciplina de 40 vagas.
Porque tantos jovens interessados em games, HQ e animação?
Vou arriscar um palpite: os tempos mudaram.
Há algum tempo – quando eu fazia graduação, por exemplo – imperava o mote da Miséria da Filosofia do Marx; o lance era mudar o mundo e não apenas compreendê-lo. Mas agora a moçada parece a fim de entender o que anda acontecendo no mundo e as novas tecnologias estão na crista da onda. Isso não quer dizer, obviamente, que os alunos abandonaram a idéia de mudar o mundo. Mas o mundo dos alunos ficou menor e não inclui mais uma visão de conjunto da realidade social. Isso também quer dizer que houve uma aumento da percepção da complexidade dos fenômenos. A culpa não é do Marx, sempre um clássico. Foi a doutrinação ideológica que perdeu espaço, o discurso fácil que engajava os alunos nos projetos de poder de uma classe reduzida de iluminados pelo advendo do determinismo histórico. Isso mesmo, nem por Castoriadis alguns professores passaram.
Outro fator é a possibilidade de tematizar o próprio mundo nas reflexões em sala de aula. A geração que cresceu com o videogame e o computador como realidades próximas chegou à Universidade. Abaixo vai uma foto da minha última aula. Foi divertida.

Gadamer e o nazismo
É uma praga! Basta começar a estudar algum filósofo alemão da primeira metade do século XX e lá vem a questão do nazismo mudar o foco para o campo político. Com Heidegger, no mestrado, a questão era escancarada. Vitor Faria e o Loparic (da Unicamp) escreviam contra e a favor do “rei oculto da filosofia” e suas relações com o nazismo. No caso do Gadamer a coisa é bem mais sutil e, ao que tudo indica, não houve colaboração explícita, embora alguns comentadores acreditem que ele se compremeteu mais do que deveria em nome da própria segurança.
Embora Gadamer não tenha delatado ninguém nem causado, direta ou indiretamente, a extradição ou envio de colegas para algum campo de concentração nazista (ao contrário de Heidegger, que viu seu antigo mentor Husserl ser perseguido e enxotado de Freiburg sem usar seu poder como reitor para impedir), o nome do filósofo aparece num abaixo assinado de vários intelectuais e professores universitário em favor do regime.
Esse tipo de acusação paira sobre boa parte dos fenomenólogos europeus. Além de Heidegger e Gadamer, Merleau-Ponty apoiou abertamente o socialismo soviético a ponto de defendê-lo durante a guerra da Coréia. Entretanto, percebeu o viés imperialista da antiga URSS e abandonou a causa, o que levou ao seu famoso rompimento com Sartre, outro fenomenólogo com miopia política aguda.
O problema aqui é o pressuposto de que a atividade filosófica deveria estar imbricada no modo como vivemos nossa vida. Só que não está. Talvez o último filósofo a ter vivido completamente sua filosofia tenha sido Francisco (é, ele mesmo, o santo) e, antes dele, Sócrates. Na verdade, depois da queda do império romano, o que podemos chamar “filosofias da vida” acabaram. Cínicos, céticos, estóicos, todas as correntes filosóficas que defendiam um certo modo de viver ou, se quiserem, o enraizamento de teorias metafísicas e ontológicas na normatização das ações cotidianas, deixaram de existir ou foram substituídas pela religião cristã.
Os filósofos hoje são muito mais acadêmicos (no sentido platônico e aristotélico) do que moralistas. Sua reflexão é um trabalho intelectual e não uma deontologia. Mas a questão ainda é incômoda. Será que o modo como Gadamer entende a noção de preconceito e tradição e a dificuldade que a filosofia hermenêutica tem com o discurso ideológico e a crítica (no dizer de Habermas) fazem dela uma filosofia politicamente perigosa? Não acredito. Também não acredito que a “marca” política inviabilize teorias muito bem fundamentadas em outras áreas, como a ontologia e a linguagem. Prefiro a postura da Hannah Arendt no livro Homens em tempos sombrios. Há nas obras filosóficas muito mais do que seus autores escreveram e suas filiações políticas são apenas um dos vetores interpretativos possíveis. Acima de tudo não há mais sistemas filosóficos totais – como em Kant, Hegel e na filosofia cristã – nos quais um eixo de simetria posiciona todos os temas possíveis. Ainda bem.


