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"The essence of what is called spirit lies in the ability to move within the horizon of an open future and an unrepeatable past".

H.-G. Gadamer

Para os meus novos alunos de PP

Moçada, o link para o outro blog estava errado. Clica aí embaixo e vamos lá!

http://danielufgtc.wordpress.com/

O que move o movimento?

Este post foi escrito em 2007 e ecoa um debate na Rádio Universitária sobre Movimento Estudantil em 1998. Acho que vale a pena reeditá-lo agora, em função dos desdobramentos da greve. 

Vocês já matutaram sobre a expressão “movimento estudantil”? Pois é. A primeira coisa que me vem à cabeça é a seguinte pergunta: para onde? Já que se move, em qual direção vai? Nos últimos anos tem ido da esquerda para a esquerda, ou seja, não sai do lugar. Segunda coisa: se há movimento, então algo se move, logo, o que está se movendo? O estudante? Só se for para sair de casa e invadir reitorias ou, num passado não tão distante, jogar pedra em presidente. Enfim, será que ainda podemos atribuir a esta expressão algum sentido? Eu acho que sim.

Movimento é uma substantivação do verbo mover que, por sua vez, vem do latim Movere. Pode significar uma pletora de coisas. Mas na expressão “movimento estudantil”, movimento tem um significado metafórico e não literal; significa algo como “agir em conjunto”. Dentre os outros significados possíveis vinculados ao substantivo um saltou-me aos olhos: atividade. Movimento estudantil significa também atividade estudantil. Para mim o significado da expressão fica mais ou menos assim: agir (realizar um determinado tipo de atividade) em conjunto. Se nos perguntarmos pela natureza de tal atividade, veremos que se trata de uma atividade política.

Eu disse ainda perceber algum sentido na expressão, não foi? Pois é. Em 1998 fui convidade pelo DCE da Federal de Goiás para um debate exatamente sobre movimento estudantil (ME) na Rádio Universitária. Debatiam comigo o ex-vereador Martiniano Cavalcanti, o professor Jorge Safatle, o jornalista Pinheiro Salles e o presidente do DCE na época (nem lembro o nome dele). O tema era a relação entre ME e partidos políticos no contexto de uma despolitização dos estudantes. Eles estavam preocupados com o fato de que os estudantes já não se mobilizavam mais como na época da ditadura. Tive que ouvir muita merda, mas também pude falar um pouco. Minha tese, inspirada no conceito de compreensão de Hannah Arendt, procurava mostrar qual seria a “atividade’ própria para um estudante, de acordo com o que eu acredito ser sua condição mais original. Depois de uma pequena introdução, a palestra conclui da seguinte forma:

O processo pelo qual chegamos a compreender alguma coisa é, em si mesmo, interminável. E ele é interminável porque lida com uma espécie de realidade sempre cambiante, dinâmica, imprevisível. Em última análise, isso significa que um processo de compreensão verdadeiro nunca chega ao fim antes que seu objeto chegue também ao seu termo. Assim, o produto da compreensão e do pensamento não é aplicável em nenhuma esfera do dia-a-dia, isto é, não tem utilidade. Esse produto é o sentido.

Pensar a participação política do estudante, dentro ou fora do movimento estudantil, é exatamente conferir-lhe um sentido, que não pode ser ideológico sob pena de colocar o próprio processo de compreensão em perigo. O que eu quero dizer por ideológico? Na verdade falamos de um subproduto da ideologia: a doutrina. Ela nasce de uma deturpação da compreensão e coloca um fim arbitrário a um processo interminável. Ela faz isso porque está engajada em uma luta e necessita que as pessoas tomem lados e combatam.

Um sentido não doutrinário da prática estudantil não pode ser dado de fora, ou seja, por uma condição política externa ao próprio ser estudante. Só faz sentido falar em estudante dentro de um processo pedagógico do qual ele é objeto e sujeito, ao mesmo tempo em que seu professor. Dirigir os holofotes da razão para iluminar o aspecto pedagógico do ensino superior é, talvez, a forma mais livre de se propor uma prática estudantil afinada com a condição do estudante, um ser passageiro dentro de uma instituição secular, mas que passa por momentos decisivos dentro dessa mesma instituição.

O conceito do político ligado à idéia de ação e discurso é exatamente a matéria prima que possibilita uma tal reflexão, porque essa concepção garante um espaço radical de liberdade no qual o pensamento pode executar tranqüilamente sua tarefa. Perguntar, assim, pelo sentido da ação estudantil é pensar a condição do estudante dentro daquilo que o faz um estudante; o processo de formação intelectual que deve ser desenvolvido dentro da universidade com um único objetivo: torná-lo dono e construtor de seu espírito.

Isso significa que devemos expulsar as forças políticas há tanto tempo residentes dentro do movimento estudantil? De forma alguma. Devemos apenas colocá-las em seu devido lugar e pensá-las como leituras possíveis da realidade político-administrativa do país. Elas levam a posições que podemos ou não aceitar, mas jamais podem se arrogar o papel definidor da prática estudantil. Devemos assumí-las, se o quisermos, à posteriori. Nesse caso, eu realmente acredito que a maioria dos estudantes se afastou tanto do movimento estudantil por identificar esse movimento com tais práticas, e não ver nenhuma outra alternativa para essa forma de atuação.

Em suma, a posição política dos estudantes deve ser autônoma e determinada apenas pela inserção daqueles estudantes no processo pedagógico que implica toda uma vida. E tal posição é tão política quanto qualquer outra, pois no político o que importa, na verdade, é quem você é. É esta a pergunta fundamental que o estudante tem que se perguntar. Uma pergunta, desde Sócrates, profundamente política.

Houve alguma repercussão. Acusaram-me, entre outras coisas, de utilizar o “conhecimento da humanidade” em benefício próprio e não da melhora das condições materiais de vida da população. Por outras palavras, acusaram-me de ser um pensador burguês. Observando, agora, as repercussões do vandalismo uspiano (madame USP nem se escandaliza, pobre senhora!) percebo o alcance limitado da reflexão na vida dos estudantes. Aconteceu precisamente o contrário do que eu queria. Ao invés da lógica da compreensão própria da sala de aula determinar a ação dos estudantes fora dela; foi a lógica da batalha política, externa ao saber e à compreensão, que assaltou o espaço livre de interação intelectual da sala de aula. Triste.

Greve na UFG

Quarta-feira passada, dia 06 de junho, uma assembléia dos professores filiados a Adufg-Sindicato foi marcada para discutir e votar o indicativo de greve – como vocês sabem há uma greve das universidades federais acontecendo no Brasil todo. A assembléia terminou em confusão, aliás nem começou para falar a verdade. Os argumentos a favor e contra a não foram debatidos, mas sobrou acusações de ambos os lados. A Adufg soltou uma nota sobre o incidente e um “plebiscito eletrônico” foi marcado para o dia 13. Nele os professores filiados poderão votar a favor ou contra a greve. Ano passado a Adufg desfiliou-se da ANDES e filiou-se ao PROIFES. Segundo nota da Adufg, as negociações com o governo federal serão retomadas na quarta-feira terça-feira, dia 12, com boas possibilidades de que a equiparação funcional com os pesquisadores do MCT seja adotada pelo MEC e, daí, negociada com o Ministério do Planejamento. A ANDES não faz parte dessa mesa de negociação e por isso aprovou a greve geral ainda em maio. O PROIFES se considera ainda em negociação com o MEC e, por isso, a princípio, é contra a greve. Por outro lado as universidade têm autonomia para decidir, por si mesmas, se aderem ou não. O Jornal Opção desta semana vem com uma matéria na qual a versão da Adufg é fortemente contestada.

Bom, para quê serve uma greve? Para pressionar o governo ou o patrão a negociar. A suspensão dos serviços prestados pelos professores à sociedade deveria forçar o governo federal a tornar sua posição na mesa de negociação mais flexível, em favor dos professores. No caso a universidade para e…..a vida continua mais ou menos como sempre foi fora dela. Eis o trágico em qualquer greve no ensino superior: a universidade não faz falta para o dia a dia das pessoas; a não ser que o HC pare ou os alunos percam o ano ou o vestibular seja suspenso, coisas que a Justiça não vai permitir. Basta acionar.

Você pode até ficar com a impressão de que eu não gosto de greve, que acho coisa de desocupado. Não é bem assim. Eu só acho que não funciona; pelo menos não no caso dos professores. Uma greve de motoristas de ônibus tem mais efeito do que a dos professores doutores, pela própria natureza do instrumento. Além disso, a greve avacalha com o calendário (avaliações, notas e defesas de TCC), destrói a progressão natural das disciplinas e prejudica o aprendizado dos alunos. É um negócio ruim do ponto de vista do cotidiano acadêmico.

Eu sei que muita gente encontra seu lugar no mundo dentro do contexto belicoso da greve. Enfrentar um ente como o governo – embora, paradoxalmente, dependa-se dele para sobreviver – em nome da valores que ninguém colocaria sob suspeita (melhor remuneração, educação gratuita e de qualidade para todos) sempre dá uma guaribada na nossa mitologia pessoal, não é mesmo? Essa ideia de enfrentamento justo nos acolhe. Mas devemos pensar friamente o que queremos com essa greve.

Os alunos, por exemplo, já aderiram – pelo menos a crer em alguns e-mails que andei recebendo – preocupados que estão em garantir que, no futuro, tenham concorrentes mais bem preparados do que eles para enfrentá-los no mercado de trabalho. Reuniram-se, todos os 400, e aprovaram o indicativo de greve para os professores. Assim, acho que não terei alunos me esperando esta semana na sala de aula. É uma pena.

Enfim, até que meu sindicato se posicione sobre a greve estarei em sala de aula. Nenhum professor, pelo simples fato de ser professor, pode decidir por mim se eu devo ou não trabalhar e me impedir de fazê-lo. E, se greve houver, torço para que seja breve.

Comunicação e Filosofia

A manutenção de um blog é um negócio meio chato e disciplinado, exige atenção e carinho. Como nunca fui muito bom jardineiro, logicamente tenho sido um péssimo blogueiro. Mas troquei uns e-mails com o Erick Felinto pela lista da Compós e, lendo seu blog e também o do Graham Harman – cujo livro Guerrilla Metaphysics eu achei muito interessante – resolvi reativar o Pasmo (pela milésima vez, eu sei).

Harman, assim como Jens Soentgen e Fredrik Svenaeus, tem sólida formação fenomenológica sem, contudo, se deixar engessar por ela (coisa rara nos departamentos de filosofia). Sua reflexão é filosoficamente sólida e, ao mesmo tempo, criativa e imensamente relevante para a comunicação.

Aliás, este era o ponto de debate na lista da Compós: a formação interdisciplinar de alguns pesquisadores os têm deixado em dificuldade na hora de prestar concurso para os departamentos de comunicação no Brasil. Coisa no mínimo espantosa, já que não existe área mais interdisciplinar (ou multidisciplinar) do que a comunicação. Pode-se perfeitamente argumentar que um pesquisador formado em filosofia ou sociologia é suficientemente capaz de elaborar e ministrar um curso de teoria da comunicação sem ter jamais sentado num banco de graduação em cinema, publicidade, relações públicas ou jornalismo. Na pós-graduação a situação é menos grave. No mestrado da UFG, por exemplo, já tivemos alunos da pedagogia, educação física e até da química.

No meu caso, venho da filosofia; especialmente da linha fenomenológica tendo estudado Heidegger no mestrado e a relação entre Heidegger e Gadamer no doutorado. Por conta disso estou sempre procurando pontes e encontrando ravinas; raras vezes acontece o contrário. Na verdade, o fenômeno – como nós procuramos entendê-lo na área da comunicação – é absolutamente secundário para a filosofia (algumas exceções, entretanto, existem: além dos citados acima, lembro-me deste cara aqui e sua interpretação cognitiva da semântica e da interação). E aqui está a questão: como nós, da área, entendemos “comunicação”? O Erick disse algo muito feliz naqueles e-mails: o termo “ciência social aplicada” é muito ruim. E é mesmo. A expressão implica um pertencimento epistemológico fundamental ao campo das ciência sociais – junto com direito, administração e outras áreas. Mais ainda, ela implica adesão a uma certa epistemologia de derivação cartesiana, a uma separação metodológica radical entre coisa extensa e coisa pensante, entre sujeito e objeto. Tal separação joga o pensamento produzido no “campo” numa corrida pela descrição/explicação/controle do objeto. Força o estabelecimento de metodologias alinhadas com essa perspectiva, principalmente da sociologia do século XIX, que compõem o grosso do que podemos chamar de “teorias clássicas” da comunicação.

Este modelo já não é mais aceito na maioria dos programas de pós-graduação atuais. Junto com ele, entretanto, também se perdeu o eixo epistemológico de simetria do campo. E consolida-se a impressão de que tal eixo não deve mesmo existir e, como afirma o próprio Felinto num texto enviado à Compós, talvez a comunicação seja um objeto superestimado. Seria interessante, argumenta ele, pensar numa teoria da mídia. Talvez.

Já eu acredito que se houver alguma chance de classificação epistemológica para a comunicação, ela deveria ser rotulada como “humanidades”. Posso estar apegado demais ao termo? Claro. Mas a leitura de Heidegger e Gadamer deixou-me a impressão que a comunicação – situada por eles dentro do caráter instrumental da linguagem – tem um enraizamento existencial (em oposição ao existenciário, cf. Heidegger) mais profundo do que pode parecer à primeira vista. Neste sentido discordo um pouco do uso que o Felinto faz do termo “humanismo” no seu artigo. E realmente não sei dizer até que ponto deslocar a reflexão para os objetos midiáticos – ou, por outro lado, para o processo de mediação – poderia redimensionar o problema do sentido (Sinn), tão central, ao meu ver, para o campo.

Mas esta é uma discussão a qual chego tardiamente e precisando me atualizar em leituras e debates. O que eu queria com este post, na verdade, era mostrar como a reflexão sobre a comunicação pode acontecer desde uma perspectiva filosófica sem, contudo, deixar de ser uma reflexão comunicacional. Não é necessário passar pelos bancos de uma graduação em comunicação para fazer esta discussão, basta ter, em sentido bem fenomenológico, o pasmo essencial.

Parti porque precisei, voltei porque…

Estou de volta.

Foi uma experiência e tanto dirigir o MIS|GO durante este ano em meio a tantos projetos e dificuldades, mas acredito que meu trabalho está terminado. Não teria mais condições de contribuir, na atual situação tanto minha quanto do Estado de Goiás, além do que já fiz.

Volto para a UFG e, especiamente, para o Mestrado em Comunicação. Minha pesquisa, em seu horizonte mais amplo, é sobre comunicação e espacialidade. Mais especificamente trabalharei em dois eixos: narrativas transmidiáticas e sociabilidade. Vou fazer o upload do resumo do meu projeto pra vocês darem uma olhada.

Os embates entre as ciências do espírito e da natureza ainda farão parte da temática, principalmente como digressões a partir do tema central da pesquisa. Filosofia, literatura, cinema, videogame e razão, discurso e sociabilidade estão em pauta.

É isso.

Narrativas contemporneas web.pdf

Desejar

Desejar é a coisa mais simples e humana que há. Por que, então, para nós são inconfessáveis precisamente nossos desejos, por que nos é tão difícil trazê-los à palavra? Tão difícil que acabamos mantendo-os escondidos, e construímos para eles, em algum lugar em nós, uma cripta, onde permanecem embalsamados, à espera.

Não podemos trazer à linguagem nossos desejos porque os imaginamos. Na realidade, a cripta contém apenas imagens, como é o caso de um livro de figuras para crianças que ainda não sabem ler, o caso das images d´Epinal de um povo analfabeto. O corpo dos desejos é uma imagem. E o que é inconfessável no desejo é a imagem que dele fizemos.

Comunicar a alguém os próprios desejos sem as imagens é brutal. Comunicar-lhe as próprias imagens sem os desejos é fastidioso (assim como narrar os sonhos e as viagens). Mas fácil, em ambos os casos. Comunicar os desejos imaginados e as imagens desejadas é a tarefa mais difícil. Por isso a postergamos. Até o momento em que começamos a compreender que ficará para sempre não cumprida. E que o desejo inconfessado somos nós mesmos, para sempre prisioneiros na cripta.

O messias vem para os nossos desejos. Ele os separa das imagens para realizá-los. Ou, então, para mostrá-los já realizados. O que imaginamos, já o obtivemos. Sobram – irrealizáveis – as imagens do que foi realizado. Com os desejos realizados, ele constrói o inferno; com as imagens irrealizáveis, o limbo. E com o desejo imaginado, com a pura palavra, a bem-aventurança do paraíso.

Giorgio Agamben

Paul Ricoeur, memória e imaginação.

Quando a gente se lembra de alguma coisa, se lembra do quê? Em geral, de alguém, de alguma coisa, de algum acontecimento ou mesmo de uma forte emoção. Mas este “quê” – ou, como diriam os escolásticos, quididade – possui qual significado? Não é de fato o objeto lembrado – este já não está presente, já não existe mais -, nem a emoção sentida. O objeto da memória já não existe ou não está presente, mas ao nos lembrarmos tornamos este objeto novamente presente. Este ser/não-ser do objeto lembrado, argumenta Paul Ricoeur, produziu uma sobreposição entre o fenômeno da memória e o da imaginação. Para ele, entretanto, estas operações do espírito são totalmente diferentes. A sacada do Ricoeur para justificar esta afirmação é inverter o modo pelo qual se estuda a memória, retirando a ênfase epistemológica dos processos subjetivos para colocá-la nos próprios objetos lembrados. Esta é a diferença essencial: a memória possui um objeto que extrapola os processos cognitivos do sujeito, a imaginação não. A memória não tem o caráter de imagem. Ela é outra coisa.

Quando eu me imagino correndo na neve – sem nunca ter estado nem visto neve! – eu uso imagens para compor o contexto desta ação imaginada. Quando eu me lembro de correr na neve, adiciono a este contexto um plus epistemológico que é exatamente o essencial da memória. É este caráter, aliás, que se encontra também nos fundamentos da psicanálise: não se pode imaginar uma catarse. O que torna todo o processo terapêutico é exatamente o fato de ter sido experimentado, vivido, pelo paciente.

Este é o pano de fundo do livro A memória, a história, o esquecimento.

Ah! Lembrando que Tempo e Narrativa ganhou nova edição.

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