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Flanando na Fama

16/07/2004

Resolvi sair da vida sedentária (para comemorar pedi uma pizza). Voltei a andar pela Fama. Bem, andar não, flanar. Desde que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso usou esta expressão característica do modernismo, nunca mais vi ninguém usando. Pois é, flanar não é simplesmente andar por aí olhando o tempo, mas um exercício mental. O expressão significa um postura mental de atenção ao que a cidade (a metrópole) nos abre. Aberto aos estímulos variados: filosóficos, sociais, políticos e, no meu caso específico, estéticos. Nada aguça mais meu senso estético do que caminhar pela Fama.

Deixa então eu situar o pessoal. FAMA (contrariando a regra de abreviações, vou capitular quando me referir à instituição) é a abreviação de Fundação de Assistência ao Menor Aprendiz, pertencente à maçonaria e que fica aqui perto de casa. Como há 30 anos era talvez a única coisa relevante no bairro, tornou-se referência para a população. O curioso é que o cemitério Jardim das Palmeiras, contíguo à FAMA, também é da maçonaria, mas foi construído muito depois da fundação. Não raro, os “menores aprendizes” aprendiam carpintaria fazendo caixões para o cemitério. Entre os dois (cemitério e FAMA) há uma loja maçônica. Há ainda o Colégio Gonçalves Ledo, que hoje abriga uma faculdade – não lembro qual. Mas o que importa é que todo este “complexo maçônico” ficou conhecido apenas por FAMA e deu nome ao bairro. Mas não é só. A bem da verdade, a Fama não existe como bairro. Não há, na Secretaria de Planejamento do Município – e eu já procurei – um bairro com este nome. Logo, Fama nomeia uma região, ou melhor, é assim que os moradores chamam o local onde moram. Que seja! A Fama é contígua ao Setor dos Funcionários – cujo nome vem dos primeiros moradores da região: funcionários de baixo escalão do Governo do Estado e da Prefeitura -, ao Criméia (nome da fazenda loteada para dar origem ao bairro), e à Vila Isaura. É esta a região.

Pois é. O que há de belo na Fama? Difícil dizer. Antes de mais nada, as pessoas, o modo como levam a vida. Não sei se é porque eu sempre morei por aqui e me acostumei com a coisa, mas a vida meio que extrapola as residências e transborda nas ruas. Quem mora no Setor Oeste, Marista, e outros bairros, não vê o que vejo quando ando na rua. As pessoas colocam cadeiras e bancos na calçada e põem-se a conversar na hora da “fresca”. Alguém traz um violão. Toca algumas músicas – nada de samba, é breganejo mesmo. Moleques correm pelas ruas atrás das pipas toradas, se engalfinhando uns aos outros, afinal, quem pegar é dono.

A Fama é rasgada ao meio pela Avenida Bernardo Sayão (talvez a maior concentração de confecções que já se viu, praticamente toda a extensão da avenida está tomada por confecções. Até os irmãos Camapana estiveram na avenida fotografando as fachadas a convite de um artista plástico do bairro, Marcelo Solá). Do lado de cima fica parte mais rica, do lado de baixo a mais pobre. Eu moro na parte baixa. Quando era pequeno havia uma favela que começava no quarteirão abaixo do meu e se estendia até o fim do asfalto. Hoje está tudo urbanizado e tomado por igrejas evangélicas. Minha relação estética é com a Fama de baixo. Há algo que sempre me impressiona. Quando flano no finzinho da tarde e vai escurecendo devagar, as luzes dos postes vão se acendendo e as casas mais simples, pintadas com selador colorido, acendem as luzes da sala ou da cozinha. São casas modestas, na maioria das vezes com iluminação incandescente. Enquanto o crepúsculo vai azulando e “esfriando” o lado de fora das casa, as luzes amareladas exibem um interior quente, caloroso. E o cheiro de alho frito na banha envolve tudo. É demais.

Acho que isto traí completamente o aburguesamento do meu “gosto”. Não há nada de sofisticado neste jogo de luzes. Na verdade, é bem trivial. Mas nunca deixa de me emocionar. Assim como ainda acho bonito as pipas coloridas sob o céu azul. Lembro-me dos quadros de Portinari e das abomináveis músicas sertanejas, que por algum milagre da minha percepção encontram um lugar no quadro geral. E então anoitece e eu volto para casa. Dou um beijo na minha esposa, peço-lhe que prepare o jantar e vou brincar com meu filho. É quando sinto um susto de felicidade. Ser pequeno, simples e desaparecer devagar, como a cor daquelas casas, como a memória dos objetos que compõem este quadro suburbano. É isso.

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From → Cotidiano

2 Comentários
  1. signates permalink

    Caro Daniel:
    Que delícia, o seu texto. E ainda mais, porque fala de um lugar que também me arrebata. Morei, você sabe, no que você chama a parte alta da Fama, nada menos que 23 anos de minha vida (hoje isso é praticamente a metade dela; mas a primeira metade, que, conforme os psicanalistas, é a mais relevante, o que torna a Fama uma parte de minha personalidade).
    Ve-lo falar das simplezas complexas daquele lugar me evoca recordações imorredouras… Sou de antes de você, Daniel. Sou do tempo que a Bernardo Sayão era a Rodovia n. 1, que ligava Goiânia a Campinas. Fui do tempo em que a Marechal Rondon não havia ainda sido asfaltada. Sou do tempo em que se tomava banho no Capim Puba e se caçava gavião real e se pegava ingá nas árvores que cresciam onde hoje repousam muitos dos nossos mortos.
    Sou do tempo das ruas de cascalho (fui goleiro de futebol de rua em várias delas) e dos furtos de mangas, cajus e canas nos quintais vizinhos. Sou, enfim, Daniel, do tempo em que a Fama não tinha outros nomes, era Fama mesmo. E é tão bom, graças a você, relembrar os tempos em que fui famoso…
    Abraço grande para você, meu amigo, que, depois desse texto, passei a sentir muito mais perto.

    Luiz Signates

  2. Anonymous permalink

    Conheci a Fama quando tinha 10 anos de idade, ex-interno da FAMA (Assist a Menores Aprendizes), que teve como seu primeiro nome, (FAMA – Assistencia a Menores Abandonados). Costumava ficar olhando a rua através do portão imenso do internato. Isso na verdade já faz um bom tempo, mais de vinte anos. A beleza do bairro se constratava com o sentimento de saudade que se abatia no coração daquelas crianças, foi uma época em que criança não era como hoje, criados a “pão de ló”. Uma época sofrida, mas vale dizer que o bairro realmente tinha algo de encantador, suas arvores, sua noite silenciosa. É já faz tempo.
    Ivob

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