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Ex cordis

08/02/2005

Quanto vale alguém que nos alivia a angústia?

É um caminho nebuloso este de querer ser filósofo. A rigor, as demandas sociais vão em sentido contrário à necessidade de filósofos. Exige-se mais executivos, mais cientistas, mais médicos. Os filósofos são para o tempo livre. Enfim, não há mercado. Logo, quando comecei a frequentar as aulas de filosofia na Universidade, não sabia ao certo o que fazer com isso. Havia tomado uma daquelas decisões em que um sujeito empenha seu futuro do modo menos racional possível: atendendo a uma necessidade emocional imediata. O primeiro professor que me impressionou foi um senhor de pouco mais de 50 anos, com uma perna mecânica. Seu nome era Jordino Marques. Perdera a perna por conta de um erro médico. Fora atropelado enquanto atravessava uma rua em Freiburg e, no hospital, engessaram-lhe a perna ferida antes da cicatrização completa. Desenvolveu gangrena. Fazia pós-doutorado à época. Propos que aprendessemos grego. Nos ensinou que um texto não é mais do que um bolo, desde que saibamos ler a receita. Não tinha paciência e era, sob vários aspectos, ranzinza. Mas era também genial. Ficamos amigos rapidamente. Confiava em seu juízo quanto a meus dotes filosóficos. Mostrava meus textos para que ele corrigisse, não apenas erros de estilo ou gramática, mas também erros hermenêuticos, citações equivocadas, idéias não desenvolvidas. Não se enganem com o Mundo de Sofia, filosofia é um saber difícil, complexo e impiedoso. Jordino me aliviava o medo de não ser talhado para a filosofia.

Era padre. Não sei o que há com este tipo particular de atividade, mas se há padres banais por aí (como há também executivos e cientistas banais) aqueles extraordinários são, via de regra, mais interessantes que seus companheiros em outras áreas. De vez em quando apanhávamos o Professor Jordino envolto numa doçura singular. Gestos, olhares, sorriso, voz. Uma disposição que não receio classificar como angelical. Um amigo me disse uma vez que iria abandonar a comunidade de jovens que frequentávamos, porque não via Deus nas pessoas, nem mesmo nos padres. Mas se falta a alguém alguma razão para crer no cristianismo, recomendaria o Jordino. Não toda hora, nem em qualquer circunstância. Havia uma espécia de dilema Jordino. Essa doçura de que falo estava aberta apenas para aqueles que atravessavam a barreira da sua amizade. Na maioria das vezes, para a maioria das pessoas, Jordino era banal; para alguns até, reconheço, maligno. Capaz de coisas absurdas como afirmar, na formatura dos alunos que o convidaram como padrinho, que estes mesmos alunos não deveriam estar se formando, pois não havia neles um pingo de filosofia verdadeira.

No fim das contas Jordino se tornou meu orientador de mestrado, meu amigo e, ora vejam!, meu padre. Batizou meu filho e me deu, como presente de casamento, uma bíblia que guardo com carinho. Mas sempre afirmou admirar minha “liberdade” para pensar. Admirava o fato de eu não me deixar prender por crença alguma que não fosse minha coerência filosófica. Por baixo da superfície, Jordino era obrigado a equilibrar-se entre a fé e a razão, a ponto de afirmar que sua religião era, na verdade, “amor racional a Deus”.

Pois bem!! Não se escreve um texto destes impunimente, certo? Vocês já devem estar advinhando que alguma merda aconteceu. E aconteceu mesmo. Jordino morreu nesta noite de sábado de carnaval, durante um retiro espiritual. Espero que Deus o mantenha perto de si. Com certeza Jordino Lhe será tão valioso quanto foi para mim.

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From → Filosofia

One Comment
  1. Marques permalink

    Prezado Daniel,
    Sou sobrinho do Prof. Jordino e desde da sua morte tenho procurado coisas dele na internet. Eis, que acho esse belissimo texto que vc escreveu. Gostaria de saber se posso copiá-lo para mostrar ao meu pai e minhas tias (irmãs do Jordino). Gostaria de saber seu email para podermos nos falar. Eu também tinha muita admiração pelo Prof. Jordino(nós, da familia, chamava-o carinhosamente de Tio DIDI).
    Desde já, obrigado!

    Mário Marques

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