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Sobre os inícios em filosofia

09/09/2005

Este texto foi escrito para uma disciplina do curso de graduação em filosofia e deveria apresentar minhas primeiras inquietações com esta nobre senhora. Saiu mais pathético do que o esperado. Algumas coisas aí eu não endossaria mais; o espírito, entretanto, permanece. Não se assustem, o texto é grande mas vale a pena…

Das várias maneiras que me ocorreram sobre uma introdução à Filosofia, nenhuma pareceu-me mais adequada do que esta: narrar como aconteceu-me a Filosofia. As vantagens desse método são muitas. Em primeiro lugar, evito que se canse tentando decifrar uma linguagem, até certo ponto técnica, com a qual você não está acostumado (e nem pode) . Em segundo lugar, uma narrativa dessa ordem não desqualifica o aspecto filosófico que deve conter; ao contrário, pode até intensificar o prazer da descoberta de um destino. Em terceiro lugar, dessa maneira posso apresentar uma dimensão que geralmente é negligenciada nos manuais; a dimensão da Filosofia como experiência pessoal de um determinado modo de ser. O resto se mantém.

Não sei bem se eu encontrei a Filosofia ou se foi ela que me encontrou ou se, na verdade, nunca estivemos realmente separados a ponto de um reencontro fazer-se necessário. Sei que da parte da minha família jamais poderia ter tomado contato com ela. Meu pai era empregado do Banco do Brasil e minha mãe dona de casa convicta. Não havia muitos livros em casa e, certamente, nenhum de relevância intelectual. Eram todos ou romances água-com-açúcar, ou livros técnicos de contabilidade. E eu odeio contabilidade.

Mas há sempre a possibilidade do contrabando. Uma amiga e, de uma maneira um pouco estranha, futura namorada, telefonou-me um dia alardeando ter encontrado um livro que explicava meu nome. De-ta-lha-da-men-te, ela fez questão de acrescentar. Sabia que Ulisses tinha a ver com algum herói grego mas isso não me entusiasmava muito. Na verdade, só aceitei ler realmente o livro porque isso poderia ajudar-me a conquistá-la. Ela chegou logo em seguida e conversamos muito àquela tarde (é claro que nada na conversa se referia ao livro).

Considero o fato de que a Odisséia de Homero ter-me sido apresentada por uma mulher algo extremamente significativo. Depois se afigurou claro para mim que minha relação com a Filosofia seria permeada por Eros. Era uma paixão que dava os primeiro passos exatamente como o pensamento, milhares de anos atrás, começou sua caminhada, isto é, do mito para o lógos. O livro absorveu meu tempo de tal maneira que quando dei por mim, algumas semanas depois de haver acabado a leitura, minha doce conquista já era a doce conquista de outro cara. Nesse dia desejei que Calipso jamais tivesse deixado Ulisses partir. Seguindo suas aventuras eu me perdi da minha. Mas tudo bem, isso acontece.

Meu primeiro instinto após terminada a leitura foi o de recorrer ao acervo parental para mais narrativas de aventuras heróicas. A decepção foi grande, eu já estava com 18 anos e tinha acabado de perceber que minha vida literária ainda era um projeto em concepção. Aqui entra a amizade. Por sorte um amigo meu do colégio, filho de advogados, possuía uma biblioteca cujo o acesso livre ele me garantiu, desde que tivesse muito cuidado com os livros que tomasse emprestado. “Sem dúvida”, foi minha resposta imediata.

O primeiro título que me chamou a atenção foi Prometeu Acorrentado. Fiquei bastante curioso para saber, afinal, o que um homem acorrentado poderia prometer que merecesse a confecção de uma peça teatral. Esse foi outro aspecto que me chamou a atenção. Nunca havia lido uma peça teatral. Levei o livro e uma semana depois trouxe de volta. Aquilo havia me intrigado profundamente. Li e reli algumas vezes mas o significado profundo – que eu intuía estar lá – parecia negado, escondido numa arca, trancada com um cadeado para o qual eu não possuía a chave. Por sorte o pai do meu amigo, que fumava tranqüilamente seu cachimbo no escritório ao lado, ouviu nossa discussão e notou minha expressão consternada. Disse-me: “Muita gente já interpretou essa tragédia de diversas formas, muita tinta já correu por conta dessa sensação de ignorância. Se você quer compreender melhor o que significam todas àquelas metáforas leia este livro…” Ele colocou em minhas mãos a Poética de Aristóteles, olhou-me com um certo orgulho pedagógico e deu uma longa baforada no cachimbo. Estava satisfeito. Eu estava excitado.
Foi Aristóteles quem me introduziu na Filosofia propriamente dita. Chamou-me atenção não o que ele dizia a respeito da tragédia e do coro grego, mas a maneira como ele dizia, isto é, seu pensamento se apresentou para mim como sendo uma verdadeira epopéia, uma verdadeira aventura. O olhar perscrutador que tudo abraçava e decompunha, essa habilidade, essa competência para a teoria, enfim, sua Filosofia, porque, segundo Heidegger, esse é o conceito de Filosofia dado por Aristóteles: epistéme theoretiqué.

O mais fundamental é constatar, a partir do exemplo, que a Filosofia se caracteriza, em primeiro lugar, pelo movimento do pensamento e não pela relevância do assunto. O foco é sobre como se diz e não sobre aquilo que se diz. A compreensão nos vem do convívio. O Filósofo convive com seus problemas. Para usar uma metáfora conhecida, sua casa está sempre povoada e no dia-a-dia se apresenta um discurso, um dizer, um lógos, que é sua forma de lidar com essa convivência. O Filósofo é mais espírito do que letra.

Mas há na idade dos 18 anos uma resistência profunda à atividade filosófica. Acredito que simplesmente essa não seja a idade certa. É praticamente impossível entregar-se a considerações metafísicas quando seus hormônios berram por alívio. Então, a Filosofia ficou em suspenso até os meus 21 anos. Mas nesse meio tempo sempre havia o reconhecimento mutuo entre o filósofo e seu destino. Em muitas oportunidades cruzei com a possibilidade de exercer seriamente a atividade filosófica, mas essa decisão possuía conseqüências por demais decisivas e eu intuía que uma decisão final sobre esse tema necessitaria de mais tempo, mais amadurecimento. Além disso, aquilo que impressiona num filósofo pode muito facilmente também oprimir. Algumas vezes a força de um pensamento é opressiva. Basta pensar em Hegel…

Quando, levando-se em consideração a textura da sociedade atual, decide-se verdadeiramente pela atividade filosófica, algumas resoluções são finais. Não vou enganá-lo. Deve-se, antes de mais nada, possuir um certo desapego por ambições materiais. Filosofia não dá dinheiro. Sua remuneração é de outra ordem. De fato, também não se morre, necessariamente, de fome. Mas pode dar adeus ao carro do ano, à piscina no quintal, às viagens a Cancum e imediações, etc. Também deve-se abrir mão da fácil aceitação social, isto é, o filósofo nem sempre é querido pelos seus irmãos de sociedade. Em alguns casos, nem mesmo por seus companheiros de labuta intelectual, como os escritores, por exemplo.

Essas decisões só me foram possíveis aos 21, 22 anos. Foi quando realmente entrei para valer no mundo dos filósofos. Entrei para o curso de Filosofia da Universidade. Então, toma-se contato com o mundo burocrático da academia. Mas a Filosofia, não se engane, não pertence à Academia, embora o discurso acadêmico se arrole o poder de decisão sobre a validade dos dizeres filosóficos. Em verdade a atividade filosófica pertence à alma humana, pode-se mesmo dizer – correndo o risco de ser meio exagerado – que o difícil não é ser filósofo mas ser homem.

Uma outra dimensão do trabalho filosófico pode novamente ser ilustrada pelo mito (parece que a relação entre ambos é dialética). Quando Zeus, por algum motivo obscuro, precisava conversar com algum mortal ele não o fazia diretamente. Zeus possuía um mensageiro: Hermes. Hermes é o deus psicopombo, isto é, ele tem trânsito livre nos três planos místicos principais, o Olimpo, a phísis, e o Hades. Isto lhe dava a importante função de mensageiro dos deuses. Daí o termo hermético cunhado pela alquimia medieval para designar seus documentos cifrados sobre os princípios de sua arte; hermético era aquilo que somente poucos poderiam compreender. Em relação ao mito grego isto denota o fato de que os escolhidos por Zeus para receber sua palavra sempre eram poucos. Porém, aquilo que nos interessa sobre Hermes é a raiz da palavra Hermenêutica, que significa, à luz do mito, aquele que carrega o sentido.

Mais que o sentido, a leitura. Realizar a hermenêutica de um texto filosófico é penetrar-lhe o sentido através da leitura. O ler é para o filósofo a labuta do dia-a-dia. É na leitura dos textos filosóficos que vai se buscar o sentido da racionalidade do autor, ou seja, seu lógos. Para tanto é necessário ao filósofo desenvolver um método de leitura que lhe possibilite compreender a formação dos conceitos, sua concatenação e o sentido que eles, ao se associarem uns aos outros através do puro ato de razão do autor, formam. E se quisermos injetar um pouco de religiosidade à coisa, podemos dizer que é preciso pedir o auxílio de Hermes antes de empreender qualquer leitura.

Enfim é isso. Porém falta ainda explicar-te como aquela garota que me apresentou o livro tornou-se minha amante. Por um tempo minha mágoa impedia qualquer aproximação, afinal ela havia me trocado por outro. Mas aos poucos fomos novamente ficando amigos, mas eu não alimentava qualquer ambição de relacionamento. Uma tarde conversamos e foi doloroso. Saí da casa dela com nossa conversa ecoando dentro da minha cabeça, chocando-se livremente a outras preocupações num caos de sentimentos que me inquietava a alma. Nesse dia, o fim de tarde foi esfriado por uma pequena tempestade de primavera.

Quando cheguei em casa meus ossos doíam todos, uma dor antiga. Como eu me sentia velho naquele domingo! Caminhei a esmo depois da chuva decidindo-me sobre deixar a barba crescer e outras coisas de menor importância. Mas acima de tudo eu estava meditando sobre nosso diálogo.

E então, quando passava por um sobrado de janelas abertas, alcançou-me uma feliz melodia barroca, vivificada no som delicado de uma clarineta. Aquilo fez-me estacar, dispôs-me à atenção e à escuta. Como que envolvido numa ciranda de alegria e melancolia meu espírito elevou-se por sobre os telhados e senti por cima das casas o doce cheiro de terra molhada que toda chuva carrega em si como um perfume. Eu não havia encontrado nem paz, nem tranqüilidade. Ainda me martirizava aquela dor milenar. E bem no meio da minha surpreendente elevação eu descobri… mas houve uma pausa.
A clarineta titubeou e depois ficou em silêncio. Eu gritei: Beethoven, Beethoven. Silêncio. Uma silhueta feminina olhou-me através da sacada, olhou o céu e depois voltou para dentro do quarto. Levemente um violino cantou os primeiros acordes da Pastoral. Eu me sentei no meio-fio e dispus-me novamente à escuta. E Beethoven foi meu consolo aquela tarde. Não. Mais que isso, ele foi também meu conselho. Ali, perto do fim de tudo, encontrei a compreensão numa reconciliação insuspeitada, ali eu abracei o Ser como quem abraça um destino, como quem finalmente acolhe em si uma parte de si que lhe havia escapado para a independência.
__ Não sei mais.
__ Como? Respondi, sem me dar pelo fato de que a garota havia parado de tocar e agora conversava comigo.
__ Desculpe-me, isso é tudo o que eu sei. Ela disse.
__ Não se preocupe, já estou salvo. E acredito ter dado o maior sorriso de que era capaz.
Ela sorriu também, entrou e fechou a janela. Fiquei ainda uma meia hora parado no mesmo lugar, e depois fui para casa . Minha mãe havia preparado o jantar. Comi como um homem feliz.

É possível que eu devesse terminar minha carta oferecendo-lhe um conceito positivo de Filosofia. Talvez valesse mais a idéia contida no fato acima, isto é, a Filosofia da qual nós aqui falamos esse tempo todo não seja na realidade um substantivo. Não possua ela mesma substância. Talvez devêssemos dizer, junto com Heidegger, que a Filosofia é uma certa disposição para o Espanto que gera um dizer que corresponde ao apelo do Ser. Um pouco como aquela sensação acima dispôs meu espirito de uma forma completamente inesperada. Assim, a Filosofia não seria um curso universitário, nem mesmo o discurso em si dos filósofos, mas uma qualidade da alma humana que é mais acentuada em uns do que em outros. O ser filósofo, portanto, é vocação. Será que escutaste?

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2 Comentários
  1. yuri v. santos permalink

    Mister Daniel, vc escreveu: “o filósofo nem sempre é querido pelos seus irmãos de sociedade. Em alguns casos, nem mesmo por seus companheiros de labuta intelectual, como os escritores, por exemplo”. Bem, não sei a que escritores vc se refere, afinal, não sei quantos escritores vc conhece. Mas é difícil não me encontrar nessa proposição, haja vista nossas mil e uma discussões em tom de guerra e meu dharma literário. Aliás, nosso primeiro contato, na universidade, foi um debate no qual em pouco, ou mesmo em nada, concordamos. Começamos assim. Mas vc há de saber – espero que o saiba – que, dentre todos os meus amigos, reconheço em vc um dos poucos “espadachins da mente” a exigir, no diálogo, todos os meus recursos. Se fica um aparente ressentimento após tais duelos, saiba que é apenas aparente, porque, ao menos para mim, tais experiências são sempre um aprimoramento. Após a cicatrização dos arranhões, sinto-me mais hábil no ofício. Por essas e outras – outras que vc conhece muito bem – tenho em vc um amigo querido. Quanto a isso, nunca se engane. Se costumamos nos bater com tanta fúria, é porque sinto minha “visão de mundo” como que sufocada em sua, digamos, filosofia. Ao contrário do espaço amplo que encontro no pensamento de vc sabe quem…
    Abração e sucesso no doutorado, que vc merece.
    Yuri

  2. Herbcoh permalink

    está muito fixe…
    Já agora da uma passada no meu…

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