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Arquitetura da destruição

02/10/2005

A cidade de Colônia encontra-se destruída pelos bombardeios aliados. Paredes enegrecidas pelas bombas incendiárias equilibram-se como que por milagre, dando a entender que um vento misecordioso poderia tombá-las a qualquer momento. Entretanto, persistem. A fumaça sobe em densos rolos ao fundo, atravessando os esqueletos de edifícios como espectros abandonando cadáveres. Tudo é cinza e preto, não apenas nos escombros, mas no próprio olhar do fotógrafo.Em primeiro plano a catedral de Colônia permanece de pé. Ela não parece ter sofrido com os ataques aéreos, seja por graça ou acaso. Não há pessoas nas ruas. Uma longa faixa de areia, ou asfalto seco, já que a água usada para apagar os incêndios já ia secando, rasga o centro da foto, confundindo-se com a estrada que passa próxima à gigantesca estrutura gótica. Um automóvel está estacionado diante de uma loja. No letreiro lemos “Thos, Cook & Son”; mais acima “Dom – Hotel”. As placas já não dizem nada, mutiladas, interrompidas antes de expressarem seu significado.Os minunciosos detalhes das torres da igreja, contrastados com a destruição que lhes serve de cenário, oferecem-nos um dilema inquietante: até onde podemos nos aproximar de uma tal arquitetura da destruição?

Imediatamente nos transportamos para o tempo em que a catedral estava sendo construída. Quantos artesãos não fitaram essa mesma paisagem, logo após moldar o último detalhe de uma dessas assombrosas torres e, esfregando o suor do rosto, não sentiu-se parte do próprio tempo, ao espiar uma gota ser absorvida pela argamassa fresca? Não teriam eles pensado na imortalidade que isso conferiria ao seu minúsculo esforço? No entanto, toda essa certeza da eternidade agora não era mais do que o lapso de tempo, infinitamente menor, entre um bombardeio e outro. A catedral de Colônia não parecia ser a única ameaçada pelas bombas. Congelada no instantâneo de uma foto, ela converte-se em símbolo, numa operação poética da imaginação própria de quem não vivenciou nenhum desses momentos, de quem não teve a obrigação de empreender o esforço de reconstruir o que era singular. Na paisagem fantasmagórica, a luz difusa não nos deixa perceber se amanhece ou anoitece em Colônia. Mas o fato de não haver ninguém nas ruas nos leva a crer que Karl Hugo Schmölz está só. Alçado magicamente por sobre a catedral, qual anjo terrível, observa a cena em silêncio sepulcral. Para chegar onde está seguiu os passos do pai e se apaixonou pela fotografia. Fotógrafo de arquitetura, sua imparcialidade refoça ainda mais a perspectiva angelical sugerida pelo ângulo da foto. Não parece interessado nos destinos dos mortais, apenas quer captar a simetria sombria dos escombros, como se fosse necessário – talvez até um imperativo moral – ao fotógrafo de construções retratar a anticonstrução. No lugar do esboço, a ruína.

Fotografou o que restou, já que uma nota de rodapé informa que a fotografia foi tirada em 1946. A Alemanha já havia se rendido aos aliados, os pactos opressivos já estavam novamente a caminho, e parecia não haver viva alma que pudesse com o peso da reconstrução. Mas por um ato de persistência do espírito humano – ou do hermenêuta imaginativo – o que é ruína e escombro torna-se novamente esboço, como se a roda do tempo girasse outra vez, devolvendo ao artesão o sonho arcaico de imortalidade. Assim, a foto de Schmölz não é mais um registro fúnebre da derrota alemã, embora essa interpretação persista como uma enxaqueca, mas o campo onde deverá ser construída uma nova vida. Posted by Picasa

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From → Arte, Narrativa

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