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Sobre o gênio em ciência e na arte

02/09/2008

Flanando pelos Lablogatórios dei de cara com o texto “A Ciência, a arte e os repentistas” do Geófagos. A tese do Ítalo M. R. Guedes é a de que não existe incompatibilidade entre ciência e arte, no sentido de que podemos falar de beleza em ambos. Já ouvi esta tese noutras ocasiões e minha tendência, num primeiro momento, é discordar. Explico.

Obviamente uma pessoa pode, ao mesmo tempo, apreciar um belo poema de Rilke e uma demonstração elegante e rigorosa de um teorema matemático. Pode considerá-los igualmente belos. Se você tem um blog no WordPress perceberá, no painel global da sua conta, embaixo e à direita no pé da página, a inscrição: “code is poetry” (a moçada exagera). Mas o que liga uma coisa e outra, a princípio, é a noção de habilidade técnica, ou seja, a capacidade de dominar plenamente um conjunto de regras e produzir algo com isso. Admira-se o gênio do poeta ou do matemático.

Contudo, o gênio artístico é diferente do gênio científico. Kant percebeu isso muito bem. Em sua Crítica da Faculdade do Juízo ele define o gênio artístico como aquele capaz de criar uma obra cuja própria existência altera permanentemente o modo como todos nós perceberemos, a partir de então, a própria arte. Há algo de ontologicamente inédito numa obra de arte genial. A sua própria existência acrescenta algo totalmente novo à história da arte que não estava lá antes. Este “algo novo” não é outra coisas senão a subjetividade do artista, consubstanciada na própria obra de arte. Depois de Cervantes, só podemos escrever um romance nos referindo a Cervantes. Depois de Beethoven, só podemos compor sinfonias dialogando com Beethoven. A faculdade humana acessada para este tipo de realização é a imaginação.

O cientista, por outro lado, é um montador de quebra-cabeças (segundo Kuhn), ou seja, o gênio especificamente associado ao fazer científico é criativo no sentido de engenhoso. Ele trabalha com algo já dado ontologicamente: a natureza. O cientista não cria uma nova natureza ao desenvolver novas teorias para explicar os fenômenos. As teorias precisam aderir aos fenômenos. Em termos kantianos é o entendimento – e não a imaginação – que opera nos juízos científicos. Neste caso não existe novidade ontológica. O objeto já está dado, resta-nos decifrá-lo.

Os exemplos citados pelo Ítalo reforçam meu argumento. Arthur C. Clark, Kurt Vonnegut, e porque não acrescentar, Isaac Asimov e Stanislaw Lem ficaram conhecidos pelo seu uso imaginativo da ciência e não necessariamente por descobertas científicas tout court. “2001”, “Solaris” e “Foundation” são especulações extremamente inteligentes sobre temas científicos, com um conhecimento muitas vezes tão profundo quanto o de um pesquisador de carreira (Asimov era doutor em bioquímica), mas suas obras são fruto de uma imaginação extraordinária, muitas vezes visonária e não de uma procura diligente e obstinada pela explicação de um fenômeno ou objeto que resiste aos nossos devaneios hipotéticos. A ciência, aqui, é matéria-prima da imaginação.

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From → Arte, Ciência, Filosofia

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