Skip to content

A ciência e sua sombra

11/09/2008

Dentre todos os objetos disponíveis ao escrutínio da razão nenhum é mais interessante do que o próprio homem. Há muito o intelecto humano se diverte com esse movimento de virar-se sobre si mesmo. Somos, neste aspecto, bastante únicos na natureza. Segundo Rilke, ao contrário de nós, os animais conseguem “vislumbrar o aberto”. Não estão obrigados a olhar sempre sobre o próprio ombro. Não têm história ou mundo. Não são capazes de perceber sua sombra como um índice de si mesmos.

Dentre os possíveis discursos que escolhemos para falar de nós mesmos dois se destacam. O primeiro encontra-se no domínio do mito e das religiões e podemos defini-lo, grosso modo, como moralidade. O Bem e o Mal. Via de regra tal discurso aponta para uma dimensão transcendental da qual é possível colocar a natureza humana sob perspectiva. Seu pressuposto é o de que precisamos ir além do homem para poder pensá-lo. O contrário seria equivalente a tentar “saltar a própria sombra”.

O segundo pertence ao âmbito da ciência, e afirma ser possível compreender o homem a partir da própria condição humana, isto é, como ele se dá enquanto fenômeno material e finito, sem o auxílio de uma perspectiva transcendental de tipo religioso. Segundo esta vertente supor que esteja aberto ao homem uma perspectiva não humana é simplesmente absurdo. Ao homem só é possível o que está dentro dos limites de sua humanidade. Ambos são, como dizia Cassirer, “construções simbólicas”, derivadas da capacidade de enunciação da nossa linguagem e, neste aspecto, limitados por ela.

A ferramenta teórico-epistemológica que o discurso cientí fico desenvolveu para pensar o problema do homem e sua sombra foi a dúvida. Obviamente não meramente a dúvida hiberbólica e argumentativa de Descartes, embora esta esteja, de fato, no centro da questão, mas a dúvida metodológica, integrada às próprias condições do exercício da atividade científica. Isto se dá porque ciência é método e não a confiança cega no método. Este é um erro que se comete amiúde, pensar a ciência como se fosse uma crença na verdade ou na capacidade do homem de encontrar uma verdade universal racionalmente justificável. Este valor ideológico do Iluminismo não sobreviveu ao próprio desenvolvimento científico, em última análise. A razão tornou-se muito mais humilde em sua busca pela verdade e abraçou, em seu método, a incompletude e o raciocínio aproximativo. Quem melhor exemplificou este frescor intelectual e esta dinâmica epistemológica foi Richard Feynman. Numa conferência em 1966 ele elabora esta posição metodológica numa fórmula genial: “Science is the belief in the ignorance of the experts”.

Obviamente cada ramo científico determina suas condições de verdade, mas elas não são mais universais e absolutas e têm validade provisória. O que, entretanto, dispara o processo de superação ou substituição destas condições de verdade é a dúvida, ou melhor, as consequências rigorosas do fato de que se pode duvidar, desde que metodologicamente embasado, das próprias condições de verdade de um determinado campo ou subcampo científico. O importante é perceber que a historicidade da ciência não significa uma relativização de seus princípios fundamentais, mas um aprofundamento. Longe de ser uma prática engessada e imóvel, a atividade científica é sempre aberta e fluida . Discutir esta condição em relação a si mesma e seu objeto é o que mantém a ciência perpetuamente diante de si mesma. Dito de outro modo, em cada experimento, em cada projeto de pesquisa, está não apenas uma questão problema relacionada a um tópico específico, mas toda a ciência. É como ela joga luz sobre a própria sombra.

Anúncios

From → Ciência, Filosofia

6 Comentários
  1. Estou preparando um post em resposta ao seu comentário sobre o vício em videogames! 🙂

  2. preciso de uma questão-problema

  3. Rodrigo Cássio permalink

    Olá, Daniel!

    Não sei se os cientistas – ao menos a maioria deles – atuam com a percepção de que a historicidade da ciência leva a uma autocrítica constante, que acaba sendo a sua condição de vitalidade nos tempos atuais. como você deixa claro no texto.

    Fico, nesse sentido, com Adorno/Horkheimer, quando questionam a dificuldade que a sociedade técnico-científica, pragmática e instrumental, tem para reconhecer a sua prática como pertencente a um todo, a um processo maior que não costuma ser colocado em perspectiva. E isso a despeito de termos, ainda agora, uma ciência de traços positivistas – o que me parece, também, uma boa questão.

    Em suma: pensar sobre a ciência e praticá-la são coisas de ordem diferentes para os próprios cientistas (a comunicação não está isenta disso, eu diria). Tu não achas?

    Vou acrescentar um link para o seu blog no meu, ok?
    Um bom fim de semana!
    Rodrigo Cássio.

  4. Daniel Christino permalink

    Felipe: estou aguardando.

    Aron: passe na minha sala para conversarmos.

    Rodrigo: vou produzir um post sobre a interpretação de Frankfurt (e como ela está datada) sobre a ciência. Mas já adianto que algo como a teoria dos jogos não poderia existir numa ciência ou racionalidade newtoniana. Não foi o método que mudou, foi a metafísica.

  5. Rodrigo Cássio permalink

    Daniel: Se pensarmos, por exemplo, na falseabilidade do Khun, e que Adorno/Horkheimer buscam a analogia da ciência com o mito a partir da repetibilidade, já é possivel constatar uma alteração epistemológica que torna a análise dos frankfurtianos datada.

    Mas há também a função da ciência no sistema ideológico, e, nesse aspecto, me parece que a teoria crítica é atual, ou, pelo menos, apta a uma atualização que a habilite a acompanhar as atualizações do próprio capitalismo. Não creio no descarte de conceitos como o de indústria cultural, nem no envelhecimento de teses como a do desaparecimento do trágico da cultura ocidental – o que pode justificar, em parte, o nosso assombro de reprovação diante dos homens-bomba do islã!

    A ciência também é tratada nessa chave, que culmina na noção de esclarecimento. E essa tese me parece forte, ainda agora.

    Enfim, vou aguardar seu texto!

  6. Rodrigo Cássio permalink

    Daniel, uma errata: eu quis me referir ao Popper, e não ao Kuhn.
    Até breve!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: