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MacCain versus Obama

27/09/2008

Debates são eventos contraditórios por definição. Abrem espaço para indagações diretas entre os contestantes, mas engessam as respostas restringindo temporalmente a exposição dos argumentos. Em nada se parecem com seu ancestral medieval, a desputatio. Havia dois tipos de disputatios: a comum (ou ordinária) na qual a questão discutida era anunciada de antemão; e a quodlibetal, na qual os alunos faziam perguntas ao professor – sem que este tivesse conhecimento prévio das questões – e ele deveria respondê-las de pronto, fundamentando seus pontos de vista. Este era, aliás, o método em torno do qual a pedagogia escolástica girava. Ao contrário, os debates hoje são muito mais relevantes pelo estrago que podem causar à imagem pública dos candidatos. Nenhum tema é melhor explicado ou aprofundado. Os elementos cosméticos imperam sobre as questões substantivas.

O primeiro embate direto entre MacCain e Obama deve, portanto, ser lido pelo viés da construção da imagem pública, da luta pela determinação do ethos de cada um, do modo como a figura do candidato ficará impressa na memória do eleitor.

O conceito de ethos pode ser definido como uma categoria da análise do discurso político. Na retórica clássica o ethos se referia ao modo como a figura do orador aparecia ao auditório durante o pronunciamento do discurso. Aristóteles é a referência.

persuade-se pelo caráter (ethos) quando o discurso tem uma natureza que confere ao orador a condição de digno de fé; pois as pessoas honestas nos inspiram uma grande e pronta confiança sobre as questões em geral, e inteira confiança sobre as questões que não comportam de nenhum modo certeza, deixando lugar à dúvida. Mas é preciso que essa confiança seja efeito do discurso, não uma previsão sobre o caráter do orador. (1365a)

Um pouco mais adiante, na Retórica, Aristóteles enumera as três qualidades fundamentais que um orador deve ser capaz de, pelo discurso, atribuir a si mesmo ou subtrair ao seu oponente.

Quanto ao oradores, eles inspiram confiança por três razões; as que efetivamente, à parte as demonstrações, determinam nossa crença: a prudência (phronesis), a virtude (aretè) e a benevolência (eunoia). (1378a)

A qualidade de um debatedor ou orador está em ser capaz de associar o assunto discutido a cada um destes traços de caráter, de modo a aparecer, perante o auditório, portando sempre o ethos apropriado. Falar sobre inimigos ameaçadores com muita flêuma pode parecer imprudente, assim como condenar sumariamente inimigos fracos pode parecer falta de benevolência. Como Aristóteles gostava de dizer, o difícil é encontrar o eqüilíbrio certo em relação aos meios e fins.

A política midiatizada da atualidade ampliou os tipos de ethos disponíveis para os oradores. Mostrar-se enérgico é tão importante quanto mostrar-se benevolente. Parecer indignado é tão poderoso quanto parecer prudente. Os topoi se multiplicaram. O que não mudou foi a lei da adequação.

Quando Obama iniciou o debate associando a candidatura de MacCain ao caos econômico americano, responsabilizando não apenas o candidato, mas a toda a fundamentação econômica do governo nos últimos anos, ele deixou transparecer energia e firmeza, algo contra o qual a retórica lenta de MacCain não tinha como revidar. É o que se espera de um gestor num momento de crise. O discurso de Obama deixava transparecer um ethos mais apropriado ao tema do que o silêncio deliberado de MacCain sobre o governo que ele representa. Foi o único momento consistentemente bom de Obama. Depois foram altos e baixos.

MacCain se recuperou porque suas posições sobre política internacional e segurança nacional deixaram transparecer sua prudência – ou, numa tradução mais correta do termo phronesis, sabedoria prática. Esse é um topos clássico em assuntos externos, mesmo entre os gregos. Tucídides já expunha, nos arrazoados entre as cidades-estados anteriores à guerra do Peloponeso, a importância da experiência para o tema. Opiniões apressadas e não fundamentadas poderiam arriscar toda a cidade. Assim, a experiência como combatente de guerra e político deu a MacCain uma bem explorada chave retórica para o ethos da prudência e da virtude. O ponto alto foi a questão sobre o Irã. “Deixa eu entender uma coisa, sentamos com Ahmadinejad, ele diz vou destruir Israel, e nós dizemos Não, não vai? É ridículo”. Esta é a fala de um homem experiente para um rapaz impulsivo.

Exatamente porque a construção do ethos é um elemento discursivo, sua eficácia encontra-se na percepção do auditório. Assim como a ironia, o ethos funciona quando compreendido. Como o auditório em questão é todo o universo votante sintonizado através da TV, rádio ou Net; seu impacto será medido em alguns dias, quando puder ser incluído no resultado das pesquisas. Na verdade não importa o que dirão os partidários de cada candidatura. Acontecerá, no máximo, um debate moral; uma guerrinha discursiva para se determinar quem foi o melhor, do tipo que o Tio Rei adora fazer. Se eu tivesse que opinar, diria que MacCain foi melhor, porque conseguiu mobilizar o assunto em favor do seu caráter discursivo. Mas sempre é bom ter claro que não há vencedores e perdedores imediatos num debate, muito menos no primeiro deles.

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From → Filosofia, Política

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