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Goiânia e seu longo caminho para o brejo

26/10/2008

Desculpem o atraso deste post sobre o aniversário de Goiânia. Esqueço datas com uma facilidade incrível, principalmente datas que nada representam, como aniversários de cidades e países. E teria deixado este passar em vão, não fosse a furiosa entrevista do prefeito Iris Rezende, cuspindo seus marimbondos – e perdigotos – contra o relatório da ONU que aponta Goiânia como uma das capitais com maior concentração de renda da América Latina. “Finalmente somos grandes”, pensei.

Gini Goiânia

Vejam ao lado (fonte: O Popular). Goiânia apresenta um Gini de 0,65 ou 65%. Isso significa que o grosso da renda na cidade concentra-se um número reduzido de pessoas. Quem sãos estas pessoas e onde esse dinheiro é aplicado ninguém sabe ao certo. A pesquisa não é tão específica e nem importa muito. As consequências, por outro lado, são cristalinas.

O liberalismo tolera bastante bem a formação de elites econômicas e políticas. Assim, ninguém nunca imaginou que Goiânia estivesse fora desta realidade. Há elites aqui como em qualquer outro lugar; é um movimento comum ao capitalismo. O que fica compromentido, em Goiânia, com a divulgação do ranking é o papel do Estado, notadamente da prefeitura. Daí o tom indignado do prefeito Iris Rezende.

Iris disse ser uma injustiça afirmar que os sucessivos governos da capital aprofundaram o abismo econômico já existente entre pobres e ricos. Pode ter razão. Entretanto, a gestão dos recursos públicos não está conseguindo universalizar serviços básicos para a população, como educação, por exemplo. O falho sistema de ensino repercute na profissionalização da mão-de-obra. Quanto menos qualificação, menor o salário. Uma cidade que não investe em seus moradores vê seu índice de desigualdade social disparar, não importa se a culpa é do sistema ou da prefeitura. Já a responsabilidade é do governo.

O índice pode, também, significar que a atividade econômica da capital está concentrada em poucas atividades, como agronegócio e serviços. Ora, a empregabilidade da mão-de-obra não especializada está diretamente vinculada às atividades produtivas que existem no local. A prograssiva modernização da atividade agropecuária (melhoramento genético, tratamento de sementes, etc.) diminui a demanda por este tipo de mão-de-obra. Daí temos mais gente desempregada, o que aprofunda o fosso. Isso sem falar na migração. Goiânia é o destino de muitas pessoas do norte e nordeste. E chegam à cidade também sem qualificação.

Mesmo não sendo novidade – citei algum novo? -, os problemas da cidade encavalam-se com o passar do tempo. Montado na falta de qualificação vem a pouca distribuição dos serviços públicos de qualidade, o crescimento urbano desordenado e a incapacidade dos governos estaudal e municipal de enfrentar tais problemas, abraçados que estão a um tipo de política arcaica e um modelo de administração puramente cosmético. Exemplo disso foi a renovação da conceção para o transporte coletivo.

Iris tem todo o direito de espumar pelo canto da boca de raiva da ONU, mas também tem o dever de enfrentar estes problemas de frente. Goiânia continua firme em seu longo caminho para o brejo.

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From → Cotidiano, Política

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