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O mundo assombrado por demônios

20/11/2008

Hoje, em São Paulo, uma mulher de 43 anos esfaqueou seu filho de 17 em meio a uma crise psicótica que o G1 chamou “ritual satânico“.  O jovem levou cerca de 15 facadas. Segundo a matéria, seu sacrifício serviria a um propósito maior. Seis policiais foram necessários para segurar a mulher.

Notícias como esta sempre me lembram das tragédias cotidianas. Como certa vez numa viagem ao nordeste, quando olhei de relance, pela janela do ônibus, um homem que parecia cair com a mão direita apertando o peito. Não me movi. Até hoje não sei se foi impressão minha ou se o cara estava realmente tendo um ataque cardíaco.

Outra coisa de que me lembro foi quando fiz um passeio de ambulância até o Wassili Chuc – o hospital psiquiátrico público de Goiânia – por conta de uma aluna que surtou em plena sala de aula. Não vou, obviamente, dizer nem o nome dela nem da Faculdade na trabalhava.

Eu estava dando minha aula de metodologia científica tranqüilo, quando ouvi um barulho que mais parecia uma pancada na sala ao lado. Como era costumeiro, achei que o vento havia batido a porta, mas o barulho repetiu-se e, agora, de forma ritmada. Bam! Bam! Bam! Bam! Interrompi a aula e fui até lá. As luzes estavam apagadas, a porta fechada. Abri-a e vi uma silhueta feminina virando as cadeiras, uma por uma – e eram umas 40. Acendi a luz e meu olhar cruzou com o da garota. Ela chorava copiosamente. Tentei argumentar, mas ela não parou enquanto não conseguiu virar todas as cadeiras e a mesa do professor de pernas para o ar. Depois aquietou-se. Aproximei-me devagar, tentando entender o que estava acontecendo. Ela me olhou e fugiu.

Comuniquei o caso à direção da Faculdade e deixei os professores de sobreaviso. Caso essa mesma menina apresentasse algum comportamento estranho, o professor deveria entrar em contato com a coordenação. Dito e feito.

No outro dia fui chamado com urgência ao laboratório de redação. Lá estava a garota, cabisbaixa, diante do monitor. Ela se recusava a sair. E queria falar, imediatamente, como Jesus Cristo ou com o Lula, o que atendesse primeiro. Segundo ela apenas eles poderiam resolver seu problema. Pedi a uma professora que fosse ao departamento pessoal descobrir se havia algum psicólogo com prática clínica trabalhando lá ou dando aulas naquele horário. Encontrei uma ótima profissional. Ela entrou na sala e conversou com a garota por meia hora. Ao sair, disparou o veredito:

– Ela está no meio de um surto psicótico e alucinatório. Ela entre e sai do estado de delírio. É inútil conversar com ela agora. Sugiro que entrem em contato com o SAMU retirarem ela de lá.

– E se a gente esperar, o que pode acontecer? Perguntei.

– Qualquer coisa. Ela pode ficar quieta ou então destruir tudo, não dá para saber.

Ficou decidido que a Faculdade chamaria o serviço de emergência. E foi o que o departamento pessoal fez. Os professores, entretanto, se reuniram para conversar.

– Olha, o pessoal do SAMU é meio violento com esses surtos psicóticos. Eles vão dar um “sossega leão” nela e depois ela vai ser esquecida no hospital, babando e dormindo por uma semana. Disse uma professora.

– Será que não dá para conversar com ela e convencê-la a sair de lá? Perguntou outro.

Nesse meio tempo uma estagiária da secretaria chegou com o perfil da moça. Meia idade, morava sozinha, não tinha familiares em Goiânia e ninguém sabia de namorado ou coisa do tipo.

– Professor, eu preciso te dizer que a moça, nas aulas, deixou escapar que era prostituta e fazia programas para pagar a faculdade, emendou outra professora.

“Fodeu”, pensei, “a garota vai ser esquecida dentro do hospital psiquiátrico mesmo”.

Perguntei se os professores ou algum colega de sala sabia de qual professor ela gostava mais. Disseram o nome da professora. Perguntei também qual era a melhor amiga dela na sala. Chamaram a menina. Pedi que a amiga falasse com ela primeiro, tentando convencê-la a sair pacificamente. A garota gritou com a amiga e exigiu que fosse embora. Então pedi à professora que falasse com ela. Conversaram por uns vinte minutos e a professora voltou chateada.

– Ela não vai sair.

Perguntei então de qual professor ela tinha mais medo. Era de mim. Entrei na sala e falei, com voz firme e segura:

– L. o que você quer?

Ela retrucou.

– Quero falar com Lula ou Jesus, só eles podem me ajudar.

Sai e fechei a porta. Esperei dez minutos e voltei.

– L. falei com o Lula e ele disse que não tem como chegar até aqui. Ele só pode vir até Alexânia, nós temos que ir até ele.

Ela me olhou espantada. Eu me aproximei e sentei ao seu lado. Disse a ela:

– L. o Lula é muito ocupado e não tem muito tempo livre. Ele pode vir até o meio do caminho, a outra metade somos nós que devemos percorrer.

Ela permaneceu muda. Quando falou, procurou desmerecer a importância do Lula e, por contraste, ressaltar o poder de Jesus. Disse-lhe que trazer Jesus aqui era impossível e desnecessário, já que ele se encontrava dentro de cada um de nós. Mas se ela queria falar com o Lula, teria de sair daquela sala.

Neste momento os enfermeiros do SAMU, com seringas em riste, entraram pela porta da sala. Um homem e uma mulher.

– Vamos querida, vamos sair daí que você está doente. Disse a mulher.

Com um gesto, pedi-lhes que esperassem. Inclinei-me para próximo de L. e falei, tranqüilamente, ao seu ouvido.

– Você pode sair daqui comigo, andando, agora; ou com eles, e eles não serão carinhosos com você. Decida-se! Ela endireitou-se, como um bêbado curado do porre pela adrenalina. Olhou os enfermeiros por um tempo, e se levantou.

Respirei aliviado. Entretanto, ao ver a ambulância ela sentou-se na escada que descia até o estacionamento e travou novamente.

– Eu sei o que vocês estão achando, com essa ambulância aí. Tão achando que eu tô doente. Que eu tô com AIDS. Mas olha, eu sou limpinha viu?

Tava difícil. Os enfermeiros, pressionados por outros casos tão ou mais urgentes do que este, agitavam-se de vontade para enfiar-lhe uma agulha no braço e acabar logo com aquilo. Mas L. estava assustada, entrando e saindo de um estado de delírio; intuia a dificuldade da situação, mas não conseguia entender a extensão do problema. Ou talvez já percebesse a enrascada na qual havia se enfiado e queria ganhar tempo. Conversamos por mais alguns minutos e ela me pediu para acompanhá-la na ambulância. Eu concordei e fomos para o Wassili Chuc. Lá ela foi medicada e mandada de volta para casa.

Uma semana de pois houve uma reunião na Faculdade entre a direção, L. e sua família. A família morava perto da cidade de Goiás, num assentamento dos sem-terra. Falamos sobre o problema e dissemos que não haveria impedimento se L. quisesse continuar assistindo às aulas, desde que recebesse tratamento adequado. A família concordou. Mas L. nunca mais voltou a estudar. Não sei o que aconteceu com ela depois disso. Espero que tenha exorcizado seus demônios.

Um mês depois uma professora me confidenciou o que acreditava ter sido a raiz do problema. Segundo ela, numa disciplina laboratorial, deram a L. uma pauta sobre Igrejas Evangélicas. A professora acreditava que o pastor, ao falar com ela, tentou convertê-la com o típico mambo-jambo admoestativo/apocalíptico, baseado no medo. As discrepâncias entre o discurso religioso fanático dos neopenteconstais e a vida que ela levava – e que lhe pagava as contas -, aliada à solidão e a uma certa instabilidade mental pré-existente provocaram o surto.

Fica difícil, diante do exposto, acreditar que o mundo é realmente mais bonito ou alegre quando se acredita em demônios.

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One Comment
  1. sem querer ser muito grosso, mas não consigo deixar de ser, que texto infeliz esse do Alexandre Soares… é no máximo engraçado.

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