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Na velocidade de um elétron

19/01/2009

A Paula Signorini do Rastro de Carbono andou reclamando, com razão, da falta de um verdadeiro jornalismo científico no Brasil. Não existe. Temos alguma coisa incipiente na área com revistas como a Scientific American Brasil e no mais a única saída que eu vejo são os blogs mesmo. Na minha opinião alguns fatores atrapalham bastante a disseminação da ciência no País.

1. A educação do brasileiro médio – não apenas o nível de escolaridade, mas o modelo educacional como um todo. Em primeiro lugar a educação no nível médio (antigo 2º grau) é excessivamente atrelada ao currículo oficial e ao vestibular. Isso reduz o ato de conhecer a um exercício mnemônico e mecânico, restrito ao mínimo necessário para cumprir metas medíocres (como passar de ano e passar no vestibular). Mas esse modelo cognitivo avança sobre o ensino acadêmico também, como exemplifica este texto do Feynman sobre sua experiência como professor no Brasil. Eu posso lhes dizer que esta mentalidade ainda existe, e é forte, na graduação.

2. A ideologização do conhecimento – tanto à esquerda quanto à direita, tanto em “favor” da ciência quanto contra ela. Nos cursos de pedagogia, por exemplo, o pensamento científico é compreendido pelo viés um tanto problemático da tradição frankfurtiana (Adorno e Marcuse). Se fossem bem lidos haveria esperança, mas nem isso. Por outro lado, professores não se furtam de lançar a carta da “racionalidade científica” contra o pensamento religiosos; aos aluno fica parecendo que a ciência ameaça os valores mais tradicionais com os quais eles cresceram, como as rezas da avózinha querida. Não tendo condições de entrar num debate com seus professores, aquietam-se e esperam fervorosamente pela formatura. Á direita o “obscurantismo” cientificista vira ameaça à democracia e à humanidade e, não raro, a ciência acaba associada ao nazismo e ao socialismo. Um horror! Ninguém fala da sociedade aberta de Popper, ou a liberdade criativa de Feyerabend.

3. A idéia de que a ciência é algo distante e hermético – pode parecer um oxímoro, mas as pessoas se dão por satisfeitas quando sentem-se “encantadas” pelos avanços tecnológicos ao invés de tentar compreendê-los. Esse é o modo mais comum do brasileiro médio se relacionar com a tecnologia: como se ela fosse mágica. A irracionalidade aqui é planejada, já que provavelmente contribui para o aumento do consumo. Quando confrontados com a necessidade de entender os princípios de funcionamento daquela linda TV de plasma eles se recusam e nem mesmo o manual leem. Tudo tem que ser “plug and play”. Para esta parcela da população, ciência é algo fora das suas capacidades, coisa de gênio, e bulir com ela é perigoso; assim como é perigoso bulir com um despacho de macumba na encruzilhada ao lado da sua casa. Ave Credo!

Como contribuição vou pedir licença à editora RECORD e publicar um trecho do livro Universo Elétrico do historiador da ciência David Bodanis. O trecho é, a meu ver, informativo, emocionante e muito bem escrito, o tipo de qualidade que gostaríamos de ver na divulgação científica brasileira. Clique no link abaixo para ler.

Às 23h os aviões estavam longe sobre o escuro mar do Norte e não eram
vistos. Nos fones de rádio da tripulação, transmissões da Inglaterra moviam
elétrons em minúsculas vibrações que então eram amplificadas em sons
audíveis. Dentro dos radares de bordo, mais elétrons percorriam fios de
cobre, lançando para baixo ondas de radar. Há relativamente poucos elétrons
livres na água, e, assim, enquanto os osciloscópios mostravam apenas o
negro, os navegadores sabiam que ainda estavam sobre as frias águas do mar
do Norte.

Mas então, cerca de uma hora depois, as ondas invisíveis que
desciam dos radares de bordo começaram a atingir coisas diferentes.
Estruturas de metal, como galpões ou trilhos, têm muitos elétrons livres; as
folhas das árvores e os edifícios têm menos, mas também transmitem alguns
sinais. Os osciloscópios a três quilômetros de altitude começavam a revelar
um contraste nítido com o negro do mar. Os aviões na dianteira da formação
perceberam que estavam cruzando a costa e começaram a fazer alguns ajustes
para se manterem no curso exato. Mais de setecentos bombardeiros os seguiam
de perto.

As equipes de bombardeio começaram a lançar dos aviões os
pacotes de chaff, que se espalharam no ar em milhares de confetes de metal.
As ondas invisíveis que os Würzburg e outras estações de radar enviavam para
o alto atingiam os elétrons livres dentro do alumínio flutuante. Estes
começaram a oscilar sob o fluxo ininterrupto das ondas vindas de baixo e se
transformaram em pequenos transmissores. Para olhos humanos o céu continuava
negro, mas para todos os equipamentos de radar em terra ele se tornou
brilhante com as emissões de todos os confetes de alumínio. Milhões de
sinais idênticos choveram sobre a terra.

Os Würzburgs e outros radares foram afogados em sinais. Nenhum
controlador em terra conseguia identificar os aviões em meio a toda aquela
potência elétrica. Os holofotes controlados por eles de repente começaram a
girar desorientados; as baterias antiaéreas pararam de operar e começaram a
atirar aleatoriamente. Os pilotos de caça gritavam freneticamente pelo rádio
pedindo orientações. Nessas circunstâncias, alguns dos controladores em
terra gritavam para os pilotos: “Voltar! Os bombardeiros estão se
multiplicando!” Outros gritavam no rádio ordenando aos pilotos que voassem
em zigue-zague a fim de que pudessem distingui-los das transmissões do
alumínio que enchiam o céu.

Nada funcionou: os aviões da RAF não tinham oposição. Lançaram
primeiramente os altos explosivos, para romper as adutoras de água (um
relatório posterior informou que elas foram rompidas em mais de dois mil
lugares) e para demolir as casas. Os tijolos se estraçalharam em todas as
direções. Então as portas principais foram abertas, soltando as bombas
incendiárias químicas.

Grande parte de Hamburgo era construída da madeira, e a madeira
aparece quando as unidades fotovoltaicas a que chamamos folhas tomam os
átomos separados de carbono e os unem em cadeias longas. São necessários
meses ou anos para que a luz que jorra do Sol consiga ligar os átomos de
carbono dessa forma.

Quando as bombas da RAF romperam as cadeias de carbono dentro da
madeira, cada átomo de carbono ficou livre. Por si só, isso resultaria em
uma enorme quantidade de entulho e poeira, muita gente ferida nos
desmoronamentos, mas os danos ficariam limitados a isso. Entretanto, no foi
o que aconteceu, porque os explosivos que a RAF havia estocado liberaram
imensas quantidades de calor.

O calor percorreu as ruas de Hamburgo, transformando tudo o que
estava em seu caminho. Penetrou nas partículas de poeira em suspensão no ar
até elas explodirem, e essas explosões aqueceram o carbono nas estruturas de
madeira de tal forma que elas reagiram com o oxigênio e também se
incendiaram. A energia que o Sol tinha acumulado nas florestas reaparecia
agora, numa explosão horripilante.

Normalmente não se vêem as ondas de radar, mas na fúria dos
edifícios em chamas, as ondas elétricas que saíam eram mais curtas e mais
intensas. Quando atingiam a retina humana, esta enviava sinais ao cérebro.

Nos incêndios de Hamburgo, as ondas invisíveis de Faraday se
transformaram em luz.

Os incêndios começaram e as chamas se uniram, e então toda
cidade ardeu. As pessoas tentavam fugir, mas como? Uma garota de 15 anos se
lembrava: “Minha mãe me embrulhou em lençóis molhados, me beijou e disse:
‘Corra!’ Eu hesitei à porta […] mas então corri para a rua […] nunca
mais a vi.”

Outra menina mais velha, de 19 anos, juntou-se a um grupo que
tentava cruzar o amplo bulevar da Eiffestrasse, mas de repente percebeu que
tinha que parar. O calor do fogo estava derretendo a rua.

“Havia pessoas na rua […] vivas, mas presas no asfalto. Devem
ter corrido para a rua sem pensar. Os pés ficaram presos, e elas tentaram
usar as mãos para se soltar, e ficaram gritando, presas por mãos e joelhos.”

No céu, o comandante do esquadrão – de 27 anos; mais velho que
todos os outros pilotos – olhou para baixo, para o inferno que antes havia
sido uma cidade viva, e comentou pelo rádio: “Pobres diabos.” Acionou os
controles de direção, e o grande avião começou a virar. Fios de cobre
isolados dentro da cabine guiavam elétrons para indicar no mostrador do seu
painel a inclinação das asas. As ondas de Faraday entravam pelos vidros do
pára-brisa, algumas invisíveis transmitidas por milhões de confetes de
alumínio no ar; outras visíveis, dolorosamente visíveis, transmitidas pelas
chamas. Um último olhar e seu Lancaster se afastou. O ataque de uma noite
havia terminado – mas os bombardeios continuariam por mais dois anos.

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3 Comentários
  1. Daniel,

    “T vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais?” é um slogan que aparece agora na minha cabeça. O jornalismo científico não existe porque as pessoas não se interessam por Ciência (não querem saber como funciona a TV de plasma, só querem saber em passar nas provas e a ciência é desconectada do cotidiano) ou as pessoas não se interessam por Ciência porque o jornalismo científico não existe?
    E o mais importante dessa discussão: temos nós, blogueiros de ciências, força para quebrar esse ciclo vicioso?

    Abraços!

  2. Daniel,
    quando falam em Ciência (principalmente os cientificismos) eu tenho vontade não de “puxar o revolver, mas de colocar os cientistas para apreciar as obras de arte, fazer sexo com prazer, ver as grandes obras das ciências humanas e velejar (mesmo q. em pensamento) pelo Caribe. No seu ítem 3, tem um problema grave: não são as pessoas, é mesmo a ciência que contribui para a não compreensão. Como afirma o “filósofo” João Angelo Fantini, ele não conhece nenhum cientista ateu. Nem eu…
    Não leve a ciência com tanta seriedade…
    Lisandro

  3. Daniel,
    O Gilberto Dupas disse que seu livro preferido é “Contra o método”, de Paul Feyerabend (1924-1994). Ele diz: “É um precioso libelo de Feyerabend contra a onipotência da ciência. Produzir ciência é construir metáforas provisórias sobre fenômenos ou comportamentos para os quais nunca teremos conhecimento pleno. Para ele a ciência deve ser protegida das ideologias, e as sociedades democráticas, da ciência, que precisa ser ensinada como uma concepção entre muitas, não o único caminho para a verdade. “A lua está me seguindo” ou “a pedra caiu verticalmente” são meras aparências? Ciência e técnica nunca serão neutras, estarão sempre a serviço de interesses e visões de mundo”. (Gilberto Dupas).

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