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O discurso de Barack Obama

22/01/2009

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Olhe a foto acima. São cerca de 1.5 a 2 milhões de pessoas na posse do Obama. Todos conscientes da importância histórica do evento. Todos esperando para ouvir o novo homem mais importante da América. Ao falar, Obama foi mais prudente do que ousado, mais frio do que incandescente. Queriam aplaudir, celebrar. Obama preferiu refletir. Foi, para dizer o mínimo, anticlimático. O que não significa dizer menos apropriado. Enquanto todos imaginavam – parafraseando Elliot – que o governo Obama começasse com um estouro; ele começou com um sussurro. Não podia ter começado melhor.

Há uma armadilha retórica esperando Obama. Consiste em inflacionar as expectitavas para colher frustrações. É um truque tão velho quanto a política. Assim, o clima de exaltação em meio à grave crise econômica funcionaria como palha para um fogo passageiro. Depois seriam cinzas sem nenhum calor. E novamente a direita anaeróbica – tanto lá como cá – poderia desfliar seu rosário vulgar de sarcasmo e insulto. Este triste espetáculo da estupidez articulada e prepotente.

Agoram reclamam que o discurso foi banal, simples. Mas Obama está tão longe de ser burro como está de ter nascido no Quênia. Trata-se de tentar colar ao governo a pecha de fútil. Aquela história da “montanha que pariu o rato”. Mas o discurso foi bom.

Nossa economia está gravemente enfraquecida, uma conseqüência da ambição e irresponsabilidade da parte de alguns, mas também da nossa falha coletiva em fazer duras escolhas e preparar a nação para uma nova era. Casas foram perdidas, empregos cortados, negócios fechados.

Nossos serviços de saúde são muito caros, nossas escolas decepcionam muitos, e cada dia nos traz mais evidências de que as formas como usamos a energia fortalecem nossos adversários e ameaçam nosso planeta.

Depois de agradeçer e elogiar Bush, Obama já vai logo avisando: não vai ser fácil! Eu juro que esperava algo parecido com a exaltação de Lula, entoando loas aos próprios esforços e à vitória sobre os poderosos que o queriam para sempre na carroceria de um caminhão. Mas Obama foi mais sofisticado. Nada de catarse, pessoal! A crise é séria e precisamos nos comportar de acordo.

Aí vem um dos golpes de mestre da retórica do Obama – e da sua equipe, lógico. A maior parte do discurso foi pronunciada no 3ª pessoa do plural. Em português não dá para ver, mas em inglês fica claro.

At these moments, America has carried on not simply because of the skill or vision of those in high office, but because We the People have remained faithful to the ideals of our forbearers, and true to our founding documents.

“We, the people”. Nós, o povo. Ao dizer isso Obama divide a responsabilidade sobre a reestruturação da economia e da rede de proteção social americana com toda a sociedade e, ao citar uma frase da constituição, implica toda a nação no mesmo esforço. O povo é o grande agente democrático. Mas não seria isso algo meio populista? Em geral o populismo se caracteriza por dizer o que o povo quer ouvir para manipulá-lo, direcionando seu pathos para sustentar interesses privados. Obama fez  o contrário. Populista seria ceder ao discurso racialista laudatório. E mesmo quando ele adota um tom mais pessoal, em momento algum ele se desloca da própria nação que ele representa. Em certo sentido, Obama recupera no discurso a idéia de que o presidente de uma república representa mais do que encarna o poder executivo. É a noção moderna de representação e não aquela idéia um tanto monárquica de que a figura do soberano se confunde com o poder por ele exercido. Se Obama está lá, é porque a América, com todas as suas virtudes e vícios lhe permitiu ascender ou, por outras palavras, em seus méritos encontram-se os méritos das instituições nas quais ele se apoiou e que lhe deram suporte.

Obama também procurou diferenciar seu governo do anterior e, para tanto, evocou a importância da ciência, do meio ambiente e de uma América mais amigável no cenário internacional. Além disso, criticou, de modo até sutil, os pecados políticos dos conservadores.

For everywhere we look, there is work to be done. The state of the economy calls for action, bold and swift, and we will act – not only to create new jobs, but to lay a new foundation for growth. We will build the roads and bridges, the electric grids and digital lines that feed our commerce and bind us together. We will restore science to its rightful place, and wield technology’s wonders to raise health care’s quality and lower its cost. We will harness the sun and the winds and the soil to fuel our cars and run our factories. And we will transform our schools and colleges and universities to meet the demands of a new age. All this we can do. And all this we will do.

Novamente, “we” aqui não quer dizer “nós do meu governo”, quer dizer “nós, como nação”. Está delineado um projeto de governo em quase tudo diferente de Bush. Mas a diferença é principalmente esta: enquanto Bush discursava sobre a ameaça (jeopardy) do mundo, sobre a guerra contra o terror, sobre o direito divino de se defender; Obama fala sobre a união, sobre a conexão com o mundo e sobre os valores a partir dos quais tal união pode ser construída.

And so to all other peoples and governments who are watching today, from the grandest capitals to the small village where my father was born: know that America is a friend of each nation and every man, woman, and child who seeks a future of peace and dignity, and that we are ready to lead once more.

É esta noção de liderança que torna as palavras de Obama mais amigáveis do que as de Bush. Se Bush tivesse pronunciado este discurso (coisa que ele não faria jamais, sendo quem é) estas mesmas palavras seriam interpretadas de outra maneira. Não porque Bush seja intrinsecamente pior do que Obama, mas por conta dos valores que ele, Bush, representa. Quando Obama diz liderar, significa, pelo menos retoricamente, algo diferente e esta é toda a diferença entre eles.

E aqui está a referência ao multiculturalismo que também Bush nunca faria.

For we know that our patchwork heritage is a strength, not a weakness. We are a nation of Christians and Muslims, Jews and Hindus – and non-believers. We are shaped by every language and culture, drawn from every end of this Earth; and because we have tasted the bitter swill of civil war and segregation, and emerged from that dark chapter stronger and more united, we cannot help but believe that the old hatreds shall someday pass; that the lines of tribe shall soon dissolve; that as the world grows smaller, our common humanity shall reveal itself; and that America must play its role in ushering in a new era of peace.

A palavra-chave aqui é “patchwork”, “colagem”. E isso é uma vantagem e não uma disvantagem. De modo sutil Obama disse o que todos queriam ouvir mas sem ufanismos. Não sou eu, um presidente negro, nem nós os negros, os vitoriosos aqui. Somos “nós”, o povo americano, fruto ele mesmo da miscigenação racial e cultural. Deste modo Obama desenergiza – ou como diria Freud, descatexiza – sua própria figura da histórica tensão racial que vibra na cultura americana com instensidade quase ensudercedora. Tal energia não interessa a um governo no meio de uma crise econômica mundial.

Enfim, o discurso de Obama prometeu bastante e revelou bastante sobre o País que ele pretende construir. Fazê-lo seró outro desafio e é possível que ele não consiga, afinal, como ele mesmo deixou claro, trata-se apenas de uma pessoa comum. “Vitória? Quem falou em vitórias? Suportar é tudo!”

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