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Qual o sentido da Universidade?

22/01/2009

A babaquice reinante em certo círculo da imprensa sobre a Universidade tem uma única raíz: a ideologização do mundo acadêmico. Era privilégio da esquerda e seu vitimismo populista, mas a direita já conseguiu, como de praxe, igualar sua inimiga mortal. Um sujeito que olha o todo da experiência acadêmica como um campo de batalha cultural entre esquerda e direita é imbecil, para dizer o mínimo. A academia é muito maior do que isso e, realmente, sinto pena de quem passou por ela como quem passa por um zoológico, observando os professores em suas jaulas e fazendo o senso mesquinho das perversões políticas e das neuroses. Como dizia Cortázar,

Você é como uma testemunha, como aquelas pessoas que vão ao museu e olham os quadros. Quero dizer que os quadros estão aí e você no museu, perto e longe ao mesmo tempo. Rocamadour é um quadro. Etienne é um quadro, este quarto é um quadro. Você pensa que está neste quarto, mas não está. Você está olhando o quarto, não está no quarto.

Pois é. Eu chamo isso de assepsia moral, um isolamento voluntário da própria vivência universitária. Contra isso eu gosto sempre de lembrar este texto. É longo, mas também muito esclarecedor.

Por meio de que nossa existência como um todo é agora determinada de modo decisivo? Por meio do fato de que podermos reinvidicar nosso direito de cidadão de ter acesso à universidade. E com o exercício deste direito conferimos ao nosso ser-aí um liame. Com esse liame orientamos nosso ser-aí para uma determinada direção, algo se decidiu em nosso ser-aí. Isso pode acontecer tanto quando temos uma visão clara de nossa existência como também quando nos falta tal visão – podemos ter caído no círculo existencial da universidade por convenção, ou até mesmo por algum embaraço.

Mas se não estamos simplesmente vagando por aí, em parte para aprender toda a sorte de coisas úteis, em parte para nos divertirmos de uma maneira nova, então é preciso que algo tenha se decidido em nós. Toda e qualquer decisão relativa à existência é uma irrupção no futuro do ser-aí.

O que se decidiu? Nossa vocação profissional. Por vocação profissional não entendemos, contudo, a posição social exterior e mesmo a sua alocação numa classe social determinada e quiçá elevada. Por vocação profissional compreendemos a tarefa interna que o ser-aí reserva para si no todo e no essencial de sua existência. O efeito histórico e fático da vocação profissional carece sempre de uma posição social exterior. No entanto, essa posição continua tendo, em primeira e última escalas, um sentido secundário.

Em que medida, porém, demos uma vocação profissional particular ao nosso ser-aí, ao exigirmos nosso direito de acesso à universidade? Com o exercício desse direito – até o ponto em que em geral o compreendemos – estabelecemos em nosso ser-aí o compromisso de assumir algo como uma liderança no todo de nosso ser-um-com-o-outro histórico. Com uma tal liderança não estamos nos referindo à assunção exterior de um, por assim dizer, posto de chefia no âmbito da vida pública – o que está em jogo não é que precisemos desempenhar aqui e acolá o papel de superiores ou diretores. Ao contrário, a liderança é o comprometimento com uma existência que, em certa medida, compreende de maneira mais originária, global e definitiva as possibilidades do ser-aí humano, devendo, a partir dessa compreensão, funcionar como modelo. Para ser um tal modelo, não é de forma alguma necessário que a pessoa pertença ao círculo dos proeminentes. Nem se pode dizer que essa liderança já comporte facilmente uma superioridade moral diante dos outros. Ao contrário, a responsabilidade que justamente tal liderança incontrolável e absolutamente não manifesta traz consigo acaba por se mostrar como uma ocasião constante e muito propícia ao fracasso moral do indivíduo.

E por que justamente o fato de pertencer realmente à universidade comporta então um direito do indivíduo requerer uma tal liderença? Isso decorre do fato de a universidade, ao cultivar a pesquisa científica e ao transmitir uma formação científica, conferir ao ser-aí a possibilidade de alcançar uma nova posição na totalidade do mundo. Nessa posição, todas as relações do ser-aí com o ente podem experimentar uma mudança e ele pode conquistar assim uma nova familiaridade com todas as coisas (ainda que isso não precise necessariamente acontecer), porque o ser-aí é tomado por uma transparência e um esclarecimento próprios.

O fato de determos mais conhecimento do que outros e de sabermos algumas coisas melhor, na medida em que nos achamos na posse de autorizações e certificados, é completamente insignificante. No entanto, o fato de o ser-aí como um todo ser dominado por um primado interno que em si nenhum de nós conquistou, o fato de, portanto, em um fundamento mais originário, a ciência desenvolver em nós a possibilidade de uma liderança discreta e por isso tanto mais eficaz no todo da comunidade humana determina o instante do nosso ser-aí atual.

Ciência e liderança, formando uma unidade, são por conseguinte os poderes aos quais o nosso ser-aí está agora sujeito – se é que ele possui realmente alguma clareza quanto a isso. E tal sujeição não deve ser entendida no sentido de um episódio fugaz, mas como um estágio único que determina essencialmente o caráter peculiar de nosso ser-aí. Se quisermos deixar a filosofia se tornar livre aqui e agora em nosso ser-aí e se a tarefa da introdução é colocar o filosofar em curso, então também conquistaremos a partir dessa situação uma certa compreensão do que significa filosofia. E essa compreensão prévia de que necessitamos inicialmente precisa ser retirada do esclarecimento da filosofia em sua relação com a ciência e a liderança.

O texto do Heidegger ilustra muito bem a natureza da experiência acadêmica desde o ponto de vista de quem interessa, ou seja, das pessoas que estão engajadas na construção de si mesmas a partir de uma relação essencial com o conhecimento, especialmente o conhecimento científico. Parece óbvio que não é a ciência que proporciona essa compreensão, mas a filosofia (e talvez a arte). É claro que há outras tipos de experiências essenciais com o mesmo grau de dignidade, afinal o jogo das contas de vidro pode ser igualmente jogado nos mosteiros e nos conservatórios. O que irrita é a negação estúpida e sistemática da possiblidade de uma experiência verdadeira com a ciência, através da atividade acadêmica, em nome de uma visão de mundo absolutamente ultrapassada e estéril. A perversidade está no fechamento dos jovens espíritos que, doutrinados à direita ou à esquerda, passam por um curso universitário sem compreender o sentido da própria experiência acadêmica. E tornam-se líderes ao avesso, estridentes e desumanos. E tudo isso sob o pretexto de combater o Mal em nome da Verdade. Idiotas!


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