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A retórica da reação

23/01/2009

O autor é um velho conhecido. Aliás, segundo o Daniel Lins – com quem bebi umas boas cervejas em Goiás Velha, e que poderá ser visto no Café Filosófico da TV Cultura dia 30/01 – Albert Hirschman era bastante lido na academia no final da década de 70 e na França. Há um perfil dele aqui.

Gosto deste livro porque ele trata com excelência um tema que me é muito caro; a retórica, a arte de argumentar. O objetivo de Hirschman é destilar, a partir da análise histórica, os elementos que melhor caracterizam as análises conservadoras em relação a três fatos históricos principais: a Revolução Francesa, o sufrágio universal e o wellfare state.

A tese de Hirschman, depois de analisar argumentos de Burke, Tocqueville, Mosca, Pareto, Le Bon, Scheler, Hayek, Stigler e outros, é a de que os argumentos conservadores podem ser dividos em três categorias: perversity, futility e jeopardy.

O argumento da perversidade consiste em afirmar que a mudança em pauta provocará o efeito contrário do que pretendia. Assim, a Revolução Francesa, nas palavras de Burke e Tocqueville, ao contrário de libertar os homens e torná-los iguais, dará origem ao Terror, cuja ação representa exatamente o oposto do que a mudança prometera. Seria melhor, neste sentido, não ter mudado nada. Nas palavras de Hirschman,

The structure of the argument is admirably simple, whereas the claim being made is rather extreme. It is not just asserted that a moviment or a policy will fall short of its goal or will occasion unexpected costs or negative side effects: rather, so goes the argument, the attempt to push society in a certain direction will result in its moving all right, but in the opposite direction.

Já viram esse argumento antes? Ele foi elaborado por volta de 1790 e ainda hoje ocupa por aí as bocas daqueles que se opõem, por exemplo, à ampliação da rede de proteção social do governo; afinal o efeito será exatamente o de aumentar o número de pobres e não de diminuí-lo. Reeditar o argumento vá lá, mas vendê-lo como uma análise política ou econômica perspicaz é curtir com a cara do leitor.

O argumento da futilidade vai noutra direção. Não se alarma com as possíveis consequências de uma mudança ou do progresso, apenas afirma que tais mudanças não mudam nada, em geral porque erram miseravelmente o alvo ao não perceber o funcionamento correto das instituições ou da dinâmica social.

The argument to be explored now says, quite dissimilarly, that the attempt at change is abortive, that in one way or another any alleged change is, was, or will be largely surface, facade, cosmetic, hence illusory, as the “deep” structures of society remain wholly untouched. I shall call it the futility thesis.

Novamente os exemplos nos blogs de política e nos jornais abundam, certo? Pobre Obama, a mudança anunciada com o “advento” do primeiro presidente negro dos Estados Unidos é só cosmética, no máximo. O mundo continuará funcionando como sempre funcionou e sua lógica e dinâmica profunda irão revelar, rapidamente, o quão fútil é esse sentimento.

Por fim, o argumento talvez mais sofisticado apontado por Hirschman é o da ameaça ou jeopardy. Ele ataca diretamente as consequência de uma mudança qualquer e avalia quais seriam os custos de prosseguir com ela. Em geral os custos acabam sendo maiores do que as vantagens a serem adquiridas. O argumento, afirma Hirschman, tem a vantagem – sobre os outros – de fazer com que seu defensor pareça, a princípio, favorável à mudança e torna sua posição mais ponderada e “moderna”.

For there is a third, more commonsensical and moderate way of arguing against a change which, because of the prevailing state of public opinion, one does not care to attack head-on (this, I have claimed, is a hallmark of “reactionary” rhetoric): it asserts that the proposed change, though perhaps desirable in it self, involves unacceptable costs or consequences of one sort or another.

Assim, uma das possíveis consequências de uma mudança é elevada à categoria de certeza absoluta, constituindo razão suficiente para que a mudança não seja efetuada. Um bom exemplo é o das alterações no sistema educacional. Embora todo mundo admita que uma mudança seja necessária, adotar o sistema x ou y pode provocar maior evasão e, consequentemente, aumentar o analfabetismo no longo prazo.

Talvez uma das grandes sacadas de Hirschman seja inverter a lógica no último capítulo do livro, analisando de forma semelhante os argumentos progressistas criados para anular o efeito da retórica conservadora. Um exemplo é o argumento de que a “história está do nosso lado”, ou seja, de que as mesmas leis profundas da qual o argumento da futilidade lança mão provam – no caso dos marxistas, cientificamente – que a mudança é inevitável e lutar contra ela é que é fútil. A fragilidade lógica é a mesma em ambos.

Com isso quero dizer que Hirschman não é um ressentido, ou seja, não procura apenas “destruir” um lado da polêmica ideológica, mas qualificar o debate. Isso deveria ser um aviso aos mais ingênuos leitores da blogosfera. O debate que é feito no rastro da grande mídia é superficial e babaca. Nada se tem a ganhar com o clima de intransigência proveniente destes ridículos guerreiros ideológicos. Ao fim e ao cabo, o conhecimento que realmente muda nosso olhar sobre o mundo não vem e nem nunca virá do pathos do desprezo e do ressentimento.

Flaubert once employed a marvelous phrase to blast the opposing schools of philosophers that assert everything to be either pure matter or pure spirit: such affirmations, he said, are “two identical impertinences” (deux impertinences égales). This term is also apt in characterizing the twin statements just formulated.

Yet my purpose is not to cast “a plague on both your houses”. Rather, it is to move public discourse beyond extreme, intransigent postures of either kind, with the hope that in the process our debates will become more umweltfreundlich.

There remains then a long and difficult road to be traveled from the traditional internecine, intransigent discourse to a more “democracy-friendly” kind of dialogue. For those wishing to undertake this expedition there should be value in knowing about a few danger signals, such as arguments that are in effect contraptions specifically designed to make dialogue and deliberation impossible.

Sabendo quais são estas armadilhas retóricas os leitores podem partir para horizontes mais amplos de discussão e deixar esses rufiões sozinhos, berrando para a lua!

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