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The Freytag Pyramid

23/01/2009

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Olhe as imagens acima. Praticamente todos os filmes, romances e HQs do mundo seguem esta sequência – ou uma bem parecida.

Na exposição o autor deve montar a sua cena. Ele pode fazer isso de várias maneiras. Cortázar, citado no post abaixo, expõe da seguinte forma a cena dramática do seu romance O jogo da Amarelinha:

À sua maneira, este livro é muitos livros, mas é, sobretudo, dois livros. O leitor fica convidado a escolher uma das seguintes possibilidades…

Meu argumento aqui é o de que Cortázar construiu um romance sobre a própria experiência literária. E fez isso a partir da metáfora do jogo. A exposição começa, neste caso, antes da história. Obviamente é possível brincar um pouco com a rigidez da pirâmide.

No incidente inicial começa a ação. É aquilo que Vladimir Propp chamava “um abalo no equilíbrio original”. Uma história merece ser contada porque algo sai do seu eixo. Vou ilustrar com Cormac McCarthy – Na estrada – e Hellblazer – Hábitos Perigosos.

Quando ele acordava na floresta no escuro e no frio da noite, estendia o braço para tocar a criança adormecida ao seu lado. Noites escuras para além da escuridão e cada um dos dias mais cinzento do que o anterior. Como o início de um glaucoma frio que apagava progressivamente o mundo.

Neste caso tudo parece se dar ao mesmo tempo, em parte porque não há divisão em capítulos. Somos jogados imediatamente no drama. Já sabemos que há um homem e um menino e com mais alguns parágrafos ficará claro que são pai e filho. Contudo, “escuro”, “frio da noite”, “glaucoma” que “apagava progressivamente o mundo” já nos diz algo – dirá muito mais depois. Aqui a montagem da cena implicará o incidente inicial. Através dela saberemos o que foi responsável pelo desequilíbrio. Não é necessário que o romance seja escrito numa temporalidade linear, o leitor – cumprindo seu papel no jogo – irá “montar” o quebra-cabeças se isso for necessário. O caso de Hellblazer é mais didático.

Primavera. O mundo todo acorda e segue em frente. O mundo todo segue vivendo. Todo mundo, menos eu. Estou morrendo. Nunca achei que seria assim. Não para mim, pelo menos. Não para John Constantine.

Em quadrinhos a montagem da cena se dá graficamente, sendo desnecessário ao texto ser muito descritivo quanto a certos aspectos. Mas o ponto de desequilíbrio é bem evidente: John Constantine está morrendo e morrer muda tudo. Daí para frente todas as ações dos personagens estarão, de alguma forma, marcadas por este fato inicial.

Logo em seguida temos a escalada da ação. É meio amplo, eu sei, mas significa exatamente isso: as coisas começam a acontecer. Mas a partir daqui as opções narrativas disponíveis ao autor se restringem, porque ele deve, necessariamente, obedecer à lógica da pirâmide – que nada mais é do que o conceito clássico de mimeses – e desenvolver sua história levando sempre em consideração tanto a cena quanto o incidente inicial. Greimas usa a noção de episódio para organizar a sucessão de acontecimentos que se desdobra a partir daquele primeiro incidente. Pense em Dom Quixote, há o episódio do juramento das armas, do Elmo de Mambrino, da Dulcíssima Dulcinea e assim por diante.

E vem o clímax. Em geral é no clímax que o drama alcança seu ponto mais tenso ou mais relevante. Não é necessariamente o epílogo, no qual todos os personagens encontram seu sentido na história e as tramas paralelas são decididas. O clímax de O lobo da Estepe é o teatro mágico, mas o livro ainda vai um bocado até acabar. O mesmo se dá com a tempestade de neve na qual Hans Castorp se perde em A Montanha Mágica, mas o livro continuará por uns bons capítulos.

O declínio da ação corresponde aos acontecimentos derivados do clímax. Pode ser longo ou curto. No caso de Na Estrada o clímax está muito próximo do epílogo e quase não há episódios entre um e outro.

Na resolução a tensão principal é equacionadas. Deixando para o epílogo as amarrações necessárias.

A pirâmide é uma ferramenta hermenêutica muito legal, mas não dá conta – como todo constructo analítico – da diversidade e da criatividade humana. Sempre haverá obras que desafiam estes critérios – assim como quaisquer outros. Escrever uma história significa encadear ações que correspondam a esta sequência. Do mesmo modo, ler uma história é decifrar este encadeamento. Lembre-se apenas que o horizonte hermenêutico sempre é a temporalidade.

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From → Arte, Literatura

One Comment
  1. Olá Daniel,
    Já pensou fazer uma análise de filmes de arte com essa pirâmide? Será parecido com a análise baseada na semiótica (aliás, a defunta semiótica): no final sobra uma espécie de equação matemática.
    Que tal o velho ensaio?

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