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Você acredita em essências?

07/02/2009

Este post é uma tentativa de responder a pergunta do Karl do Ecce Medicus lá no condomínio de blogs do Lablogatórios.

Bem Karl, a resposta é SIM. Mas é necessário esclarecer em qual contexto semântico ela se insere.

Quando resolvi nomear o blog, lá em 2006, inspirei-me num poema de Alberto Caeiro no qual apareciam os seguintes versos.

E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial

O pasmo do Caeiro era parecido com o espanto aristotélico, mas com o sinal invertido. Em Aristóteles o espanto é o início do saber, uma condição da qual buscamos sair, um indício de que temos consciência da própria ignorância. Já em Fernando Pessoa o pasmo é a linha de chegada, é onde a consciência aporta depois de finalmente adquirir o saber. Em Aristóteles o sujeito se espanta consigo próprio; em Pessoa, com o mundo.

Há uma corrente filosófica que faz deste espanto – e deste pasmo – sua razão de ser. É a fenomenologia. Foi criada por Edmund Husserl, um filósofo alemão com formação em matemática. A primeira vez que o termo aparece em sua obra é nas Investigações Lógicas – no Brasil a sexta investigação está traduzida na coleção Pensadores; em Portugal há outras  partes traduzidas, mas nunca a obra inteira.

Embora o termo “fenomenologia” tenha uma vasta tradição no pensamento filosófico alemão – há a Fenomenologia do Espírito, de Hegel e o termo, de origem medieval, já era utilizado amiúde por Kant – Husserl queria dar-lhe outro significado. Seu tema principal era a epistemologia. Antes de escrever as Investigações, Husserl era adepto da fundamentação psicológica – à moda de Stuart Mill e Hume – das operações lógico-matemáticas. Em seu primeiro trabalho, A Filosofia de Aritmética, tentando responder à pergunta pela natureza das quantidades matemáticas, ele defende a tese de que as operações aritméticas são, na verdade, atos mentais do sujeito não tendo os números nenhuma possibilidade de se constituírem em conhecimento autônomo verdadeiro. A adição nada mais era do que um hábito de uma mente bem adestrada.

Husserl foi muito criticado – principalmente por Frege, cujo intelecto admirava – e pôs-se a revisar seus argumentos. Por volta de 1901 ele publica as Investigações , na qual argumenta pesadamente contra o “psicologismo”, um pecado que ele admite ter cometido em seu livro anterior.

Assim, o grande tema das Investigações é epistemológico. Se não podemos atribuir a verdade das proposições matemáticas às operações da mente, então porque aceitamos que uma expressão matemática seja verdadeira? A fim de responder Husserl revê a cena epistemológica primordial em Descartes.

Se sujeito e objeto são os dois pólos epistemológicos clássicos, como se dá, através da linguagem, a relação entre eles, de modo que o fundamento dos juízos de verdade não estejam apenas – como Descartes sugeria – no cogito (porque se estão, então o psicologismo está certo)? A resposta de Husserl é o conceito de intencionalidade. É um conceito difícil. Grosso modo, ele quer dizer que a relação entre sujeito e objeto não é de anterioridade e posterioridade (primeiro cogito e depois res extensa) mas simultânea. Nas palavras de Husserl: “toda consciência é consciência de… alguma coisa. E todo objeto é objeto para…uma consciência”. Intencionalidade é o ato cognitivo que funda esta relação.

Tal processo, por sua vez, dá-se no continente da linguagem. Assim, perguntar pela verdade de um enunciado matemático equivale a perguntar pelo sentido (Sinn) do enunciado para a consciência que o enuncia. Este sentido, claro, não é evidente e encontra-se coberto pela funcionalidade (pragmática) da língua e do próprio objeto. A fim de desenterrá-lo Husserl desenvolve um método: a redução fenomenológica.

Um exemplo. Pegue seu relógio de pulso. Olhe para ele (vamos supor que seja analógico). Veja os ponteiros e imagine todo o mecanismo que o anima. Agora faça-se a seguinte pergunta: “qual é o sentido deste objeto, qual é o sentido do relógio”? Na bucha você deve responder: “marcar as horas”. Faça o seguinte agora. Mentalmente – não estrague seu relógico – vá retirando do objeto tudo aquilo que você acredita não ser “essencial” para que ele seja um relógio. Retire a pulseira. Continua um relógio? Retire agora o vidro. Continua um relógio? Sejamos ousados, vamos retirar os números. E então, ainda estamos diante de um relógio? Agora retire o ponteiro dos segundos. Depois o dos minutos. Ainda é um relógio? Sim, só que menos preciso. Agora retire o ponteiro das horas. E então, ainda é um relógio ou apenas a lembrança de que ele foi um relógico permanece? A partir daí sabemos que o sentido do objeto – e, portanto, da palavra relógio – tem a ver com seus ponteiros.

O que fizemos até aqui foi um exercício mental cujo objetivo não foi outro senão colocar o objeto – e seu conceito – entre parêntesis, em suspensão. Desconectamos ele de todas as ligações com o resto dos conceitos aos quais está comumente atrelado (horas, pulso, preço, etc.). Segundo Husserl tal operação equivale a ver o relógio “como se fosse a primeira vez”, com olhos renovados. “É preciso ter o pasmo essencial”.

Pois bem, reduzimos o sentido do relógio ao mínimo para ainda reconhecê-lo como um relógio. Agora, precisamos reconectá-lo.

A essência do relógio tem a ver com o movimento dos ponteiros. O conceito-chave aqui é o de movimento. Mas esse movimento dos ponteiros está associado a outra coisa, a uma ordem matemática. O que medimos ao submetermos os movimentos dos ponteiros a uma ordem matemática? Bingo! O tempo. Exatamente. O sentido do objeto e do conceito de relógico é o tempo (na verdade, o tempo aristotélico-newtoniano, porque o einsteiniano deixa nossos relógios loucos, pois não pode ser medido pela analogia com o movimento).

Para o Husserl das Investigações este método nos fornece a possibilidade de encontrar o que ele chama de “relogidade” do relógio, ou seja, sua essência na linguagem. Quem melhor definiu a importância de Husserl para a filosofia foi um outro filósofo chamado Emmanuel Levinas. Parafraseando: “Husserl encontrou não apenas um método, mas um modelo intelectual, ou seja, uma resposta à pergunta sobre como conduzir o intelecto”. A fenomenologia não é, portanto, uma teoria descritiva da mente, mas um modo de inquirir sobre como este mundo faz sentido, como um todo, na nossa linguagem.

Enfim, respondendo à pergunta do Karl, eu acredito nas “essências” como conceitos lógicos-abstratos – semelhantes aos universais aristotélicos. São ferramentas intelectuais para compreendermos como os fenômenos que nos rodeiam acabam tendo ou não tendo um sentido para nós. Nada de metafísica, aqui. Embora o próprio Husserl, na sua velhice, caminhe em direção a uma formulação a priori da subjetividade, Heidegger mais tarde vai colocar a fenomenologia de novo nos trilhos. Mas esta é outra história.

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8 Comentários
  1. Olá Daniel!

    Muito legal o seu texto abordando a Fenomenologia. Sou aluno do Mestrado em Filosofia na UFG e estou fazendo um trabalho sobre o assunto para uma disciplina que cursei com a profa. Martina onde lemos as “Idéias”.

    Voltando ao assunto a respeito da existência das essências. Eu também tenho grande simpatia pelas teorias que consideram a sua existência como verdadeiro, penso que facilita um tanto uma categorização ontológica do mundo. Todavia, esse é um tipo de abordagem que já foi bastante criticada na tradição de filosofia analítica, vide o convencionalismo de filósofos como Quine.

    Todavia, vem havendo um resgate da idéia de essência na tradição lógico-analítica, e nessa direção quero sugerir-lhe um livro sobre o assunto. Trata-se de “O essencialismo Naturalizado”, dissertação de mestrado de Desidério Murcho. Podes encontrar uma apresentação desse livro nesse link: http://criticanarede.com/fil_essencialismo.html

  2. Caríssimo, Daniel. Sensacional seu texto (óbvio que não é só um post e fico orgulhoso de ter provocado isso!)

    Mas, apesar de sua didática, tenho algumas dúvidas, se me permite.

    Como vc usa as essências como “ferramentas intelectuais para compreendermos como os fenômenos que nos rodeiam acabam tendo ou não tendo um sentido para nós”? Me parece mais ou menos claro que só nos resta comparar os fenômenos a elas. Teria outro jeito?

    Um relógio pressupõe um relojoeiro. Quando procuramos a ‘essência’ do relógio estamos vinculados aos passos do relojoeiro e sua intenção em desenvolver um marcador de horas, seja por qual método for. Eu pergunto: como não confundir essa intenção com a ‘essência’ do objeto?

    Daniel, vc parece tentar interpretar fenômenos e procurar sentido um tanto acima (ou para fugir) da pluralidade das aparências, não é? O sentido a que vc se refere seria o que nos faria ver nesse fenômeno algo real?

    Grande abraço e parabéns!

  3. Daniel Christino permalink

    Renato, obrigado pela dica, vou ler o trabalho do Desidério.

  4. Daniel Christino permalink

    Caro Karl, vout tentar te responder brevemente, mas saiba que tais questões levam, inevitavelmente, a uma reflexão mais profunda.

    1. Esta é a mais difícil, porque vai no coração da posição epistemológica do Husserl. Posso responder com uma analogia. O número é uma idéia, ou seja, um ente abstrato existente apenas na consciência dos sujeitos. Mas quando observamos um fenômeno como a pressão arterial utilizamos um número (ou melhor ainda, uma medida) para compreendermos o que esse fenômeno – ao qual damos o nome de pressão arterial – pode significar para nós. Veja, o que buscamos é tornar evidente uma relação talvez já pressuposta numa teoria. Só deste modo sabemos o que procurar nos fenômenos! Tal relação, em si mesma, não é um objeto, uma coisa que está aí pura e simplesmente. Ela existe primeiro como “ferramenta intelectual”. A essência, enquanto conceito, é análoga ao número. Mas eu vou elaborar melhor!

    2. O fato de que o relojoeiro pretendeu construir o relógio em nada contamina a essência do objeto que segue sendo a mesma: o tempo. Se cada relojoeiro ao construir seu relógio criasse ou usasse uma noção diferente de tempo, os relógios perderiam sua razão de ser. É exatamente porque a intenção do artesão de alguma forma comunica com o modo como nós compreendemos o objeto criado por ele que este objeto é possível. O conceito de tempo é o que possibilita ao artesão pensar o relógio.

    3. O real é um conjunto de atos da consciência aos quais deve corresponder um objeto. Ao ver um teclado, você não vê primeiro um conjunto de átomos dispostos numa determinada ordem aos quais depois você associará uma idéia de modo que, ao final, o sentido completo do “teclado” lhe apareça. O objeto aparece a nós como uma totalidade. Isso é o real. Ele é percebido fisicamente pelo corpo e seu sentido intuído pela mente. O modo da nossa intuição nos é dado pela linguagem (ou, se você preferir – como diz o Pinker – pelo instinto da linguagem). Assim, procurar o sentido dos objetos nada mais é do que compreender o modo como a intuição atribui significado à percepção. Neste sentido o conhecimento deverá estar tanto na pluralidade das aparência – neste sentido é fenômeno tudo o que aparece – quanto na intencionalidade da consciência. Lembrando que aparência aqui não significa apenas superficialidade, mas “tudo o que é apreendido pela consciência”, que entre em sua luz e aparece para nós. Seja a chuva, o crepúsculo ou a lei da gravidade. É nesse sentido que permaneço um racionalista, mas crítico.

  5. Daniel, entendo sua posição. Entretanto, depois da virada linguistica da filosofia, entendo também que essa posição é intimamente relacionada àquela que o próprio Heidegger chamou de metafísica e oposta à que Rorty chama de ironista.

    Acho mesmo que essas rotulações de posicionamento filosófico não são produtivas de boas idéias e relações, mas pelo menos servem para entendermos os campos semânticos de que falamos. Um bom exemplo é uma conversa entre médicos. A primeira coisa que um pergunta para o outro é “qual a sua especialidade?” Já sei com quem me consultar sobre fenomenologia. Aliás, preciso de sérios esclarecimentos sobre Merleau-Ponty.

    Obrigado pelos esclarecimentos

    Karl

  6. Daniel Christino permalink

    Obrigado a você, Karl, que foi um interlocutor atento e educado. Trincheiras ideológicas ou filosóficas não nos farão bem algum e a Internet anda precisando de debates com disposições mais amenas.

    Eu conheço menos a posição do Rorty do que a do Heidegger, meu objeto de mestrado. Em Ser e Tempo ele se afasta do Husserl tardio – mais ligado à metafísica kantiana e transcendental – enfatizando o caráter existêncial do Dasein. A analítica existencial é uma tentativa de descortinar a ontologia do homem sem um apelo à metafísica, porque a metafísica estaria emaranhada na confusa teia da diferença ontológica (a confusão entre ser e ente iniciada por Aristóteles e aprofundada pela Escolástica). Mas sou também o primeiro a admitir que o projeto de refundação da filosofia pela ontologia do Dasein não vingou. Evidentemente o apelo à finitude como sentido da existência do dasein – o que significa, na verdade, que o homem seria antes de qualquer coisa abertura à possibilidade – não eliminou a necessidade de se supor a transcendentalidade (ou mesmo imanência) do Ser.

    Por outro lado, a corrente oposta – o positivismo lógico – gerada igualmente pela virada linguística – também deu com os burros n´água. Afinal, a lógica se especializou até o ponto em que não mais conseguiu explicar ou compreender o mundo da vida (vide Tarsk ou mesmo Kripke). Além disso a idéia de que sentenças só fazem sentido se atreladas a estados de coisas verificáveis na realidade foi devidamente desmontada pelo Popper em sua histórica polêmica com o Círculo de Viena.

    Acima de tudo eu acho que a fenomenologia resvalou num modo de abordar os problemas filosóficos muito mais significativo do que assumir uma espécie “defeito linguístico genético” na história da filosofia. Descobrir o que é seminal e o que não é nesta corrente é um dos meus objetivos intelectuais de longo prazo.

    Um abraço e vamos continuar conversando.

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