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Bakthin e a arquitetura da criação

21/02/2009

O que faz um autor quando cria uma personagem? Podemos identificá-lo com as opções de seu herói? A figura do autor ainda é um princípio hermenêutico válido?

O autor não encontra de imediato para a personagem uma visão não aleatória, sua resposta não se torna imediatamente produtiva e de princípio, e do tratamento axiológico único desenvolve-se o todo da personagem: esta exibirá muitos trejeitos, máscaras aleatórias, gestos falsos e atos inesperados em função das respostas volitivo-emocionais e dos caprichos da alma do autor; através do caos de tais respostas, ela terá de inteirar-se amplamente da sua verdadeira diretriz axiológica, até que sua feição finalmente se constitua em um todo estável e necessário. Quantos véus necessitamos tirar da face do ser mais próximo – que nela foram postos pelas nossas reações casuais e por nossas posições fortuitas na vida -, que nos parecia familiar, para que possamos ver-lhe a feição verdadeira e integral. A luta do artista por uma imagem definida da personagem é, em grau considerável, uma luta dele consigo mesmo.

Não podemos estudar imediatamente esse processo como lei psicológica: só operamos com ele à medida que está sedimentado na obra de arte, isto é, com sua história centrada nas idéias, no sentido, e sua lei centrada nas idéias, no sentido. Sejam quais forem suas causas temporais e seu fluxo psicológico, sobre esse tema podemos apenas conjeturar, porque não diz respeito à estética.

O autor nos conta essa história centrada em idéias apenas na obra de arte, não na confissão de autor – se esta existe -, não em suas declarações acerca do processo de criação; tudo isso deve ser visto com extrema cautela pelas seguintes considerações: a resposta total, que cria o todo do objeto, realiza-se de forma ativa, mas não é vivida como algo determinado, sua determinidade reside justamente no produto que ela cria, isto é, no objeto enformado; o autor reflete a posição volitivo-emocional da personagem e não sua própria posição em face da personagem; esta posição ele realiza, é objetivada, mas não se torna objeto de exame e de vivenciamento reflexivo; o autor cria, mas vê sua criação apenas no objeto que ele enforma, isto é, vê dessa criação apenas o produto em formação e não o processo interno psicologicamente determinado. São igualmente assim todos os vivenciamentos criadores ativos: estes vivenciam o seu objeto e a si mesmos no objeto e não no processo de seu vivenciamento; vivencia-se o trabalho criador, mas o vivenciamento não escuta nem vê a si mesmo, escuta e vê tão somente o produto que está sendo criado ou o objeto a que ele visa. Por isso o artista nada tem a dizer sobre o processo de sua criação, todo situado no produto criado, restando a ele apenas indicar a sua obra; e de fato, só aí iremos procurá-lo. (Tem-se a nítida consciência dos momentos técnicos da criação, da mestria, só que mais uma vez no objeto). Já quando o artista começa a falar de sua criação além da obra citada e, para lhe acrescentar algo, constuma substituir sua atitude efetivamente criadora, não vivida por ele na alma mas realizada na obra (que não foi experimentada por ele mas experimentou a personagem), por sua atitude nova e mais receptiva em face da obra já criada. Quando estava criando, o autor vivenciou apenas a sua personagem e lhe introduziu na imagem toda a sua atitude essencialmente criadora em face dele; já quando em sua confissão de autor, como Gogol e Gontcharov, começa a falar de suas personagens, externa sua verdadeira posição em face delas, já criadas e definidas, enuncia a impressão que agora elas produzem sobre ele como imagens artísticas e a posição que ele sustenta em relação a elas enquanto pessoas vivas e definidas do ponto de vista social, moral, etc.; elas já se tornaram independentes dele, e ele mesmo, seu criador ativo, também se tornou independente de si mesmo – é a pessoa, o crítico, o psicólogo ou o moralista. Se levarmos em conta todos os fatores aleatórios que condicionam as declarações do autor-pessoa sobre as suas personagens – a crítica, sua verdadeira visão de mundo que pode sofrer fortes mudanças, seus desejos e pretensões (Gogol), as razões de ordem prática, etc. -, veremos com aboluta evidência o quanto é incerto o material que deve emanar destas declarações do autor sobre o processo de criação da personagem. Esse material tem um imenso valor biográfico e pode adquirir também valor estético, mas só depois de iluminado pelo sentido artístico da obra. O autor-criador nos ajuda a também compreender o autro-pessoa, e já depois suas declarações sobre sua obra ganharão significado elucidativo e complementar. As personagens criadas se desligam do processo que as criou e começam a levar uma vida autônoma no mundo, e de igual maneira o mesmo se dá com seu real criador-autor. É neste sentido que se deve ressaltar o caráter criativamente produtivo do autor e sua resposta total à personagem; o autor não é o agente da vivência espiritual, e sua reação não é um sentimento passivo nem uma percepção receptiva; ele é a única energia ativa e formadora, dada não na consciência psicologicamente agregativa mas em um produto cultural de significado estável, e sua reação ativa é dada na estrutura – que ela mesma condiciona – da visão ativa da personagem como um todo, na estrutura de sua imagem, no ritmo de seu aparecimento, na estrutura da entonação e na escolha dos elementos semânticos.

Há no texto acima uma penca de insights genais sobre o ato criador. Mas há também um elemento metodológico bastante pronunciado: num estudo literário a evidência para os juízos está na concretude da obra. O uso sutil que Bakthin faz da dialética – a vivência do processo criativo oculto ao autor-criador em oposição complementar à consciência técnica da criação da obra – relativiza a prioridade do autor sobre a interpretação da própria obra, corroborando ao mesmo tempo o discurso crítico; mesmo quanto este confronta diretamente as opiniões do autor. Seria interessante comparar a tese com o livro Gramáticas da criação do George Steiner. Não tenho como fazer isso agora, mas fica a sugestão.

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2 Comentários
  1. Post novos, post novos. Um pouco sobre o seu cotidiano, seus estudos, sua realidade.

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  1. Bakhtin e a criação « abilio pacheco

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