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Gadamer e o nazismo

21/04/2009

É uma praga! Basta começar a estudar algum filósofo alemão da primeira metade do século XX e lá vem a questão do nazismo mudar o foco para o campo político. Com Heidegger, no mestrado, a questão era escancarada. Vitor Faria e o Loparic (da Unicamp) escreviam contra e a favor do “rei oculto da filosofia” e suas relações com o nazismo. No caso do Gadamer a coisa é bem mais sutil e, ao que tudo indica, não houve colaboração explícita, embora alguns comentadores acreditem que ele se compremeteu mais do que deveria em nome da própria segurança.

Embora Gadamer não tenha delatado ninguém nem causado, direta ou indiretamente, a extradição ou envio de colegas para algum campo de concentração nazista (ao contrário de Heidegger, que viu seu antigo mentor Husserl ser perseguido e enxotado de Freiburg sem usar seu poder como reitor para impedir), o nome do filósofo aparece num abaixo assinado de vários intelectuais e professores universitário em favor do regime.

Esse tipo de acusação paira sobre boa parte dos fenomenólogos europeus. Além de Heidegger e Gadamer, Merleau-Ponty apoiou abertamente o socialismo soviético a ponto de defendê-lo durante a guerra da Coréia. Entretanto, percebeu o viés imperialista da antiga URSS e abandonou a causa, o que levou ao seu famoso rompimento com Sartre, outro fenomenólogo com miopia política aguda.

O problema aqui é o pressuposto de que a atividade filosófica deveria estar imbricada no modo como vivemos nossa vida. Só que não está. Talvez o último filósofo a ter vivido completamente sua filosofia tenha sido Francisco (é, ele mesmo, o santo) e, antes dele, Sócrates. Na verdade, depois da queda do império romano, o que podemos chamar “filosofias da vida” acabaram. Cínicos, céticos, estóicos, todas as correntes filosóficas que defendiam um certo modo de viver ou, se quiserem, o enraizamento de teorias metafísicas e ontológicas na normatização das ações cotidianas, deixaram de existir ou foram substituídas pela religião cristã.

Os filósofos hoje são muito mais acadêmicos (no sentido platônico e aristotélico) do que moralistas. Sua reflexão é um trabalho intelectual e não uma deontologia. Mas a questão ainda é incômoda. Será que o modo como Gadamer entende a noção de preconceito e tradição e a dificuldade que a filosofia hermenêutica tem com o discurso ideológico e a crítica (no dizer de Habermas) fazem dela uma filosofia politicamente perigosa? Não acredito. Também não acredito que a “marca” política inviabilize teorias muito bem fundamentadas em outras áreas, como a ontologia e a linguagem. Prefiro a postura da Hannah Arendt no livro Homens em tempos sombrios. Há nas obras filosóficas muito mais do que seus autores escreveram e suas filiações políticas são apenas um dos vetores interpretativos possíveis. Acima de tudo não há mais sistemas filosóficos totais – como em Kant, Hegel e na filosofia cristã – nos quais um eixo de simetria posiciona todos os temas possíveis. Ainda bem.

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From → Cultura, Filosofia

7 Comentários
  1. Olá Daniel,
    que bom! você mudou o estilo no blog. mas falta fazer uma introdução para o público em geral: quem é o Gadamer? Qual o período dele?
    Lisandro

  2. Caro Daniel. Ia escrever um grande comentário, mas vou dizer que discordo:

    1) Foucault, Henri Miller (não é filósofo, mas quase), Gilles Deleuze, na minha opinião viveram suas filosofias.

    2) Sua interpretação do preconceito gadameriano como fonte de estranheza não parece ser a dos comentadores.

    3) Você não acha que a crítica habermasiana a Gadamer é quase a mesma que ele tece a Rorty? A de um relativismo insípido e perigoso.

    Obrigado

  3. Daniel Christino permalink

    Oi Karl, tentando responder:

    1. Eu tenho que te perguntar em que sentido Foucault e Deleuze “viveram” suas filosofias. Foucault, por exemplo, passou por algumas fases – a epistemológica, a política, etc – e nem todas possuiam abertura para serem vividas. Sobre Deleuze eu sei pouco, preciso verificar. Em relação a Henry Miller eu concordo plenamente; para ele a literatura era uma extensão da vida e sua matéria prima.

    2. Estava pensando num grupo específico de comentadores com tendência a classificar Gadamer como um conservador político por conta do elogio que ele faz da tradição – uma das teses que justifica a releitura dos preconceitos e a crítica gadameriana ao iluminismo. É o ponto de vista de Derrida, por exemplo, que não acredita numa relação sempre positiva com a tradição, ou seja, num diálogo; algumas vezes só pode haver ruptura. Paul Ricoeur chamou esta posição de “hermenêutica da suspeita” em oposição à “hermenêutica da fé”, que pressupõe sempre a possibilidade de que os autores estão tentando dizer o que estão dizendo, sem malícia.

    3. O próprio Gadamer respondeu ao Habermas no segundo volume de Verdade e Método. Vou citar um trecho:

    A reflexão efetuada pela hermenêutica filosófica seria crítica no sentido de que descobriria o objetivismo ingênuo onde se encontra enredada a autocompreensão das ciências históricas, orientada nas ciências da natureza. Aqui a crítica da ideologia lança mão da reflexão hermenêutica interpretando o caráter de preconceito de toda compreensão como uma crítica da sociedade.(…) Mas a hermenêutica produz reflexão crítica, por exemplo, quando defende a linguagem compreensível contra falsas pretensões da lógica, que busca importar determinados critérios de cálculo enunciativo a textos filosóficos, demonstrando (Carnap ou Tugendhat) que, quando Heidegger ou Hegel falam sobre o nada, essa fala seria absurda por não cumprir certas pré-condições lógicas.

    Rorty, no debate contra Habermas, é mais ácido do que Gadamer. Para ele, Habermas está errado ao defender uma “metanarrativa” universalista da cultura, a metanarrativa da emancipação. Para Habermas, a hermenêutica – com a sua circularidade – e a pragmática – com seu relativismo – põe a perigo a base a-histórica da alavanca política da emiancipação. Neste sentido Habermas está sendo bem Frankfurtiano, apesar de criticar Adorno e Horkheimer de fazerem uma crítica ad hoc à sociedade de massas, abandonando qualquer perspectiva teórica, ou seja, não se preocuparam em construir uma teoria social à altura da sua crítica cultural.

    Acho que Habermas está à procura de um fundamento para a razão humana que não seja a opção sistêmica de Luhmann e vê, tanto em Gadamer quanto em Rorty, fraturas comprometedoras deste fundamento. Embora a crítica a Gadamer não se dê pela via do relativismo, mas pelo abandono de uma perspectiva crítica; enfim, uma incapacidade para a crítica. Gadamer tenta argumentar que as coisas não se dão assim; a crítica hermenêutica não é ideológica, mas é perfeitamente capaz de distinguir essência de aparência num discurso.

  4. 1. Pô, Daniel! Foucault!? Além do que, fiquei pensando. Descartes também filosofou sua vida, não acha?
    2. Derrida não é comentador 😉
    3. 100% d´accord.

  5. Silvio permalink

    “Os filósofos hoje são muito mais acadêmicos (no sentido platônico e aristotélico) do que moralistas. Sua reflexão é um trabalho intelectual e não uma deontologia. Mas a questão ainda é incômoda.” Daniel

    1. É possível que o tipo de “filósofo acadêmico” do qual você fala represente a maioria da comunidade filosófica atual.
    1.1 Há razões suficientes para aceitar que Ser e Tempo (ST) é uma obra tipicamente acadêmica – sabemos, por exemplo, que ST foi publicada, sobretudo, para satisfazer uma exigência acadêmico-institucional do Ministério da Cultura da Alemanha na época de Heidegger (talvez a obscuridade da obra seja consequência da pressão que Heidegger sofreu para terminá-la no prazo). Dizem que os nazistas, ao lerem ST, julgaram-na delirante e incompreensível. Além disso, os correligionários mais intelectualizados de Hitler viram na discussão sobre autenticidade e morte, apresentada na segunda parte da obra, fortes conotações individualistas – o que despertou desconfiança entre os pensadores do Terceiro Reich…

    2. No entanto, no discurso do Reitorado, Heidegger fez uso de alguns elementos de sua filosofia de tal forma que pôde casá-los com o termos do discurso ideologico com o comprometeu-se na época, a saber, o nazismo. Oportunismo? Mau-Caratismo? Não sei.

    3. É possível defender que o pensamento de Heidegger não tenha um vínculo necessário com o nazismo, mas isso não impediu Heidegger, o retórico, de fazer uso de elementos de sua obra para justificar o nazismo.

    4. Heidegger disse que venderia a sua alma para salvar a universidade alemã. O diabo acreditou nele piamente. Na negociação, Heidegger entregou sua alma em uma caixa fechada. O diabo, ingênuo e cheio de fé, aceitou a caixa sem conferir a mercadoria. Posteriormente, quando Heidegger deixou o partido, o diabo sorriu e disse “Você nã pode deixar o partido, sua alma está comigo”. Heidegger virou-se e foi embora. O diabo, surpreso com tal atitude, resolveu ver o que tinha dentro da caixa. Ao abri-la, ele explodiu de raiva e a jogou contra a parede. O que havia dentro da caixa? Só Deus e o diabo sabem…

  6. Giovani Comerlatto permalink

    “Talvez o último filósofo a ter vivido completamente sua filosofia tenha sido Francisco (é, ele mesmo, o santo) e, antes dele, Sócrates.”

    essa tua afirmação já mostra que o que você pensa que é filosofia não pode ser levado a sério. Não há um vivente na face da terra que trabalhe com filosofia que arriscaria em dizer tal coisa sobre francisco. ele foi muito importante, mas não filósofo.

    • Daniel Christino permalink

      Pois é. Houve uma época em que a filosofia era mais do que um discurso “sobre” as coisas. Francisco adotava, como regra de vida, toda a teologia cristã e católica. Seus comentários a respeito dos limites da razão e sua insistência em viver o que pregava o qualificam como filósofo no contexto da Idade Média. Não há absolutamente nada de errado com minha definição de filosofia, aliás há uma pletora de definições nas quais Francisco não caberia, qual é a sua mesmo? Quem adora qualificar na obscuridade é que não tem idéia do que realmente seja pensar filosoficamente.

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