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Michael Jackson 1958 – 2009

26/06/2009

Quando Thriller foi lançado eu tinha 9 anos. Quando o ouvi pela primeira vez, em 1985, tinha 12. Foi numa festa na casa do Robson, um amigo que morava no mesmo quarteirão, duas casas à esquerda da minha. Ele tocou o LP inteiro enquanto varríamos a pista de dança – um quintal de terra batida – arrumando o lugar para mais tarde. Gostei da narração do Vicent Price e da sua risada doentia. Mas foi The Lady in my life que me marcou.

Não porque fosse boa. Absolutamente. Acontece que naquela época as festas eram organizadas de modo a alternar dois momentos fundamentais: música dançante e música lenta. Era a pré-história do DJ. Você montava um set com duas ou três músicas dançantes e uma lenta, para que os casais pudessem se aproximar. Depois engatava mais umas três ou quatro agitadas e outra lenta. Gravava tudo numa fita K7 (Cromo, porque o som era melhor) e botava no três-em-um Polivox do seu pai; quando a fita acabava alguém corria lá e virava o lado – se você fosse rico, seu sistema de som provavelmente teria aquele toca-fica automático e barulhento que toca para os dois lados. Não era o caso do Robson. Toda vez que a fita acabava ele parava o que estava fazendo, corria lá e trocava o lado.

Certo! Havia uma garota…(sempre há uma garota, principalmente aos 12 anos. Pensando bem, aos 12, aos 20, a0s 30, etc. Na verdade, sempre há uma garota, ponto!) cujo nome não me lembro. Sei que era bonita e inalcançável como um acidente geográfico. Ela morava na rua de cima e eu gostava dela já há algum tempo. Enquanto eu tentava arrancar algum ritmo dos meus dois pés esquerdos na pista de dança, ficava rastreando a menina de quando em quando. Assim que rolava uma lenta eu a procurava com o olhar. De repente encontrei-a sozinha. Era minha chance.

Começou a tocar The Lady in my life – “just put your trust in my heart and meet me in paradise, girl” – eu me animei e fui lá. Cheguei perto dela e puxei conversa. “Errr…”. Ela não se entusiasmou muito. Tentei continuar. “Ha…heh…(sorriso amarelo)”. Nada. Precisava tomar coragem, mas só o que eu tinha para beber era Coca-cola. Então os deuses resolveram ter pena de mim e me deram alguma coragem para perguntar: “Quer dançar comigo?” Pô, Michael! Paradise o cacete; ela não quis. Me deu o maior gelo, como se eu fosse uma espécie de zumbi. E a múscia lá “Lay back in my tenderness, let´s make this a night we won´t forget”. Taí, não esqueci. Levar o fora não era o pior. Pior mesmo era a gozação da turma. A situação toda era como o final do primeiro Guerra nas Estrelas: você chega lá na estrela da morte e tem uma chance de acertar o tiro naquela escotilha minúscula…e erra!

Aí estava Michael Jackson, verdadeiro, enraizado na minha cotidianidade. Trilha sonora das minhas (des)venturas pré-adolescentes. Billie Jean com sua batida cool, seus vocais carregados de ginga, chiados e sussurros quase endireitava meus pés tortos na pista. E o video clip dirigido por Martin Scorcese John Landis é simplesmente genial, com seus zumbis cheios de ritmo, blues e soul.

Existe um ponto de tensão para além do qual a matéria de que é feito o ser humano não resiste e arrebenta. Não saberia dizer quando isso aconteceu com o Michael Jackson nem os motivos, mas em algum momento todo o hype em torno dele foi demais. Esta talvez seja a maior bizarrice de todas ou, como querem alguns mais cínicos, a maior performance de todas: pirar em público! Usar o corpo como suporte para cada entalhe enlouquecido. Amplificar seus traumas de infância num imenso parque de diversões privado; na encarnação do mito de Peter Pan; na repetição eterna, neurótica, farsesca da inocência infantil irrecuperável. Atravessado por linhas de força conectadas a diversos interesses, Michael Jackson era a heteronomia pura! Desde os 6 anos no showbiz ele não tinha raízes, era hidropônico, um talento cultivado para o lucro. Beaudrillard dizia que ele havia transcendido o corpóreo.

“Senhoras e senhores, com vocês Michael Jackson! O primeiro dos pós-humanos! ”

Prefiro a imagem do negro talentoso de Thriller e Off the Wall e da minha infância. Não essa fantasmagoria pós-moderna. Espero que o cara, sensível e tímido como era, tenha enfim se libertado do peso do nosso olhar obsessivo.

Descance em paz.

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4 Comentários
  1. Tocante. Nunca tinha pensado em MJ assim, como ‘hidropônico’, ‘pós-humano’. Pobre Michael.

  2. Beeeem Daniel. Mandou bem. Michael é isso. Todos que tiveram essa experiência jamais se esquecerão. Eu ainda lembraria do tempo em que dançar bem não era coisa de viado. Pelo contrário, fazia sucesso com as garotas que viviam querendo dançar as rápidas com você. Nada absolutamente comparável aos bate-estacas de hoje.
    Grande abraço e obrigado pelas imagens vívidas na lembrança…

  3. Oi, Daniel

    Tudo bem?
    Vim retribuir sua visita lá no Bala Mágica, li esse post e não pude deixar de lembrar da minha infância e pré-adolescência (que não foi embalada por Thriller, mas sim por Black or White – mas ainda tinha esse negócio de música dançante e música lenta… quanta expectativa na hora da música lenta !!!).

    Forte abraço,

    Fernanda

    htt//bala-magica.blogspot.cm

  4. Oi, Daniel

    Tudo bem?
    Vim retribuir sua visita lá no Bala Mágica, li esse post e não pude deixar de lembrar da minha infância e pré-adolescência (que não foi embalada por Thriller, mas sim por Black or White – mas ainda tinha esse negócio de música dançante e música lenta… quanta expectativa na hora da música lenta !!!).

    Forte abraço,

    Fernanda

    http://bala-magica.blogspot.com

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