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Sobre alunos e aulas

03/07/2009

O semestre está no fim. Hoje, em minha sala aqui na Universidade, recebi a visita de uma aluna. Veio me agradecer pelas discussões e pelos textos que apresentei no curso. Fiquei lisonjeado, inflado mesmo. Aí me lembrei de uma outra aluna num outro contexto. Transcrevo abaixo um antigo post e depois comento.

Comecei a dar aulas por impulso, obedecendo a um prazer bem próprio e egoísta: eu gostava de conversar com os outros sobre o que eu lia ou estudava, e gostava também de explicar-lhes como eu me sentia ao ler e estudar o que eu lia e estudava. Na verdade eu não me importava muito com o impacto do que eu falava nas outras pessoas. Dava aulas porque me sentia bem fazendo isso. Claro, eu tive alguns professores geniais, dos quais ainda me lembro com muito carinho (Udo, Luis Cláudio, Jordino, Adriano, etc.), mas nunca havia atinado para a intensidade deste tipo especial de relacionamento.

Recebi, ontem, um e-mail de uma ex-aluna. Era uma menina meio sonolenta e ensimesmada. Não se saia muito bem nas avaliações e nem participava ativamente das aulas. Parecia meio deslocada em sala, chegava sempre atrasada e me olhava com um ar entre o desprezo e o enfado, pelo menos do meu ponto de vista. Enfim, era uma aluna mediana.  Lembro-me dela porque fui convidado, como avaliador, para sua banca de TCC (trabalho de conclusão de curso). Sinceramente nem me lembro de qual era o título do trabalho – ela se formou em 2005.

Na carta ela diz coisas como “Na primeira aula que assisti na turma de jornalismo da Faculdade Alfa, no segundo semestre de 2001, um professor de cabelos longos, anelados, falava sobre a responsabilidade do jornalista no que ele chamava de “construção da realidade”. Fiquei maravilhada. Até então, não havia experimentado o prazer de assistir a uma aula, do inicio ao fim, sem “piscar os olhos”.

Ou então “Na verdade, eu não gostava de ser eu. No início, o que eu mais gostava era de assistir as aulas desse professor de cabelos compridos. Ele era tão jovem, tão inteligente, tão brilhante. Eu o admirava. Eu o amava. Queria ser notada por ele. Queria merecer sua admiração. Queria retribuí-lo pelo prazer do conhecimento que despertara em mim“.

Era pra eu ficar envaidecido, não é? Só que no seu TCC eu não lhe dei nota 10 – eu, especificamente, porque sua orientadora queria lhe dar 10. Nem me importei com o significado da nota para a garota. Pois é, ao final do e-mail ela diz: Foi nessa fase, já no final do curso, que vi na monografia a única possibilidade de fazer algo que eu realmente me orgulhasse. Na verdade, eu queria meu estimado professor pra me orientar no trabalho, não deu. Mas, tudo bem, trabalhei duro ao lado de pessoas maravilhosas, que me apoiaram e me ensinaram muito… Eu queria, mais uma vez, movida pela vaidade, provar pra todo mundo, o quanto eu era boa. Não medi esforços pra fazer um trabalho nota 10… Virei noites a fio. Eu sonhava com um 10 pra esfregar na cara do mundo. Pra eu me sentir 10.

Fiquei pasmo! Ela, então, arremata: Professor, hoje eu entendo: a vaidade era minha. Quando percebi (demorou alguns meses), tive uma profunda vergonha do que fiz. Da maneira ridícula como chorei ao telefone, fazendo chantagem emocional… Achei, então, que não era mais digna do seu respeito e decidi esquece-lo para sempre. Não consegui. Agora, não me importa a nota que você dará para este e-mail. Fiz o que tinha de fazer, da forma mais digna e sincera que pude. Sinto-me livre.

Que coisa maravilhosa e perigosa é ser professor! Havia me esquecido completamente. Tão acostumado eu fiquei com as colas e os plágios, com a preguiça intelectual e com essa maldita estupidez amplamente distribuída entre as idades e os sexos, que me esqueci do principal: o vínculo humano do ato de ensinar. Ela realmente havia me ligado chorando, tentando explicar como aquele ponto (ou pontos) significou a mais avassaladora e sombria derrota que ela jamais sofrera. Fiz ouvidos moucos, não me movi.

Sabe, eu fico feliz da garota se ver, finalmente, livre de mim. Também eu devo aprender a me esquecer um pouco.

Pois é. Este semestre recebi elogios e, até agora, nenhum desabafo. Mesmo assim é bom eu me lembrar: devo esquecer-me! Ser exigente na medida certa, compreensivo e, antes de qualquer coisa, humano. Trata-se, enfim, de ensinar pessoas e não corrigir ou transformar o mundo!

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6 Comentários
  1. carolina permalink

    O vínculo humano… Tem alguns professores que passaram pela minha vida que não tem idéia de quão importante foram pra mim. Talvez hoje, se me vissem, nem lembrassem que eu fui sua aluna. Mas eu jamais vou me esquecer deles e do que significaram pra mim. Por isso admiro tanto professores. Mesmo não querendo, mesmo não se importando, mesmo nem sabendo, vocês podem fazer muita diferença na vida dos alunos.

  2. Vanessa M. permalink

    Relações humanas nem sempre é fácil…
    Mas esse é o caminho que quero trilhar!
    Me identifiquei muito com seu blog.

    bjs

  3. Daniel,
    professor passa por muita coisa; mesmo assim ele aprende o tempo todo.
    Parabéns!!

  4. Juliana - Relações Públicas UFG permalink

    Um desabafo:

    Acompanhei por 3 períodos na Universidade as melhores aulas que eu já tive. Eram as segundas ou as sextas, mas eram as melhores. Eram aquelas aulas que me fazia sentir uma pessoa melhor ou mais inteligente, não sei..mas me fazia sentir algo. Não sei se eram os textos de Bourdieu, Wolf ou Habermas… ou se eram as discussões realizadas por um professor excepcional.’Tudo que é bom dura pouco’, e dura mesmo. Pois num dia, chega esse professor dizendo que ia nos abandonar. E eu como fico? E as melhores aulas que eu já tive ? Tudo passou. Hoje estou no 6º período e tenho a certeza de que aquelas foram as melhores. Pelo menos, eu tive esse privilégio.
    Mesmo assim, deixo a minha indignação por esse abandono: e o vínculo humano?

  5. Puxa, teu texto me tocou e me fez pensar – tanto no meu papel como aluna quanto como educadora. Acho que vou enviá-lo a alguns amigos.

    Abraços,

    Fernanda

  6. Renata Soares permalink

    Daniel,

    seu texto chamou muito a minha atenção. Acompanhei essa sua fase de querer discutir o que leu com as pessoas. fazíamos muito isso, lembra? Tínhamos um pouco disso pra tentar explodir para o mundo (tentando transformá-lo qdo possível) nossa ansiedade e infinitas motivações. Mas hoje no papel de docente, aprendo algumas coisas com o Paulo Freire e “passando por muita coisa”. A gente não ensina ninguém, infelizmente. A turma, as pessoas aprendem se quiser, se necessitarem do aprendizado num determinado momento e condições isto é, aprendem a aprender. E nós, educadores, no exercício de “ensinar” alguma coisa, aprendemos a lidar com as dificuldades individuais de cada um (quando se tem turmas pequenas, conforme o MEC preconiza), respeitando cada caso.
    No início da carreira docente, tive um perfil falso criado no Orkut por acadêmicos de Medicina da UCG, que pagam mais de 3 mil reais por mês para lidarem com as maiorres dificuldades das pessoas durante o curso e depois de 6 anos, após a formatura (leia-se doenças, carências, etc). Na época, eu tinha 2 semestres de docência, recém-chegada do doutorado no exterior e a cabeça a mil por hora. Isso me abalou bastante, pois era um perfil calunioso, difamatório e desagradável. Depois de pensar bastante, fui até a polícia registrar um BO contra 22 estudantes de medicina. Me senti um lixo fazendo aquilo em uma sala de delegado de polícia que ficava num canto imundo ao lado de celas com pessoas sendo tratadas como porcos. Em 30 minutos após o registro do BO a página saiu do ar. O clima ficou sombrio por vários meses no departamento, mas as turmas subsequentes, que sempre sabiam da história, passaram a respeitar melhor os professores e entendiam melhor a questão da hierarquia. Aprendi MUITO com esse episódio. Mas logo depois me estabeleci muito bem como pesquisadora e agora eles correm atrás de mim feito loucos por bolsas do CNPq e oportunidades na carreira. My life is moving on. E a deles também. Mas a lição de “se esquecer” foi dada para os dois lados.

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