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Sarney, o tóxico

13/08/2009

Quanto mais eu leio sobre a crise do Senado mais me pergunto o que faria se, algum dia, cruzasse com o José Sarney num saguão de aeroporto qualquer. Mostraria minha indignação desviando ostensivamente o olhar, como fazem os desafetos amorosos? Acenaria educadamente com a cabeça em reconhecimento a sua imagem pública? Fixaria um olhar dardejante na esperança de arrancar-lhe um naco de vergonha? Passaria altivo ignorando sua presença?

Nestas horas lembro-me da personagem de Notas do Subsolo de Dostoiéviski e sua obsessão em não ceder espaço ao Major (ou seria Capitão) com quem sempre cruzava na Perspectiva Nevsky. A coisa ali tinha uma forte conotação política, uma vez que ceder ou não o lugar envolvia a consciência  exata da hierarquia política de São Petersburgo na época. Como é próprio aos personagens de Dostoiévski o dilema é todo construído na consciência da personagem, como um grande solilóquio.

Eis o problema com o José Sarney – e os políticos corruptos em geral: eles sempre me fazem sentir como se eu fosse alguém do subsolo, do subterrâneo. Sinto-me diminuído e começo a fantasiar uma situação  na qual, de alguma forma, esteja em pé de igualdade com ele. No caso do Homem do Subterrâneo esse local é a rua, mas a personagem já se impregnou tão profundamente de sua pequenez que nem lá, no locus democrático por excelência, alcança essa igualdade. Mesmo substituindo a Nevsky pelos lobbies dos aeroportos, se cruzasse com ele provavelmente o deixaria passar ileso, deixando escapar um comentário espantado e submisso: “olha lá, é o José Sarney!”.

Sarney é tóxico. Ele contamina tudo com impotência. Ele me deprime e enfraquece, como um veneno. Basta olhar seu bigode a emoldurar o discurso crédulo das próprias virtudes que me vem uma tremenda fraqueza de vontade. É  preciso ser resiliente e obstinado em proporções absurdas para continuar tendo esperança.

Epílogo: meu filho vem correndo me mostrar a tarefa de história. No livro há uma foto do Sarney com a faixa presidencial. Que merda!

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One Comment
  1. Daniel,
    Sarney representa a velha oligarquia. Enquanto as elites culturas e econômicas mudaram um bocado dos anos 70 para cá, a velha oligarquia política continua querendo ter os mesmo privilégios de outrora.

    As coisas nã mudam muito no mundo, mas mudam alguma coisa sempre.

    E vem aí Marina Silva…

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