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Conta outra, Dirceu.

23/08/2009

E o Zé Dirceu escreveu um artigo na FSP sobre a saída da Marina Silva. Ele meio que oficializou a versão de que a senadora foi cooptada pelo eixo PSDB-DEM através do seu braço verde, o PV. Enche a Marina de elogios, mas avalia a decisão como um equívoco.

O centro do texto é a diferenciação entre os projetos políticos do PT e do PSDB-DEM. Cito:

O PSDB fez uma opção, há quase 15 anos, por ser o partido das elites financeiras, quando a transição conservadora entrou em colapso após o impeachment de Collor.

A velha direita, desgastada pela longa ditadura militar, não era mais capaz de protagonizar a engenharia do Estado neoliberal.  Esse foi o vácuo preenchido pelos tucanos, que se aliaram às velhas oligarquias do PFL-DEM para levar a cabo um programa de privatizações e desregulamentações que desmontou a economia do país e colocou em xeque a soberania nacional. Esse foi o papel exercido por FHC, cujo custo social o levou à derrocada em 2002.

O PT foi a vanguarda da mobilização contra esse programa. Quando o presidente Lula assumiu, mesmo em condições políticas precárias, pois minoritário no Congresso e às voltas com uma herança maldita, travou o programa tucano-liberal, interrompeu as privatizações e deu início à reconstrução do Estado como condutor de uma economia baseada na produção, no mercado interno e na distribuição de renda.

O texto foi talhado para criar uma identificação por oposição e, neste sentido, foi escrito para ser lido pela militância petista. O recado é o de que não há “crise” e, principalmente, os princípios deontológicos não estão se evaporando na chapa quente da realpolitik. Há uma clivagem fundamental entre estas duas forças políticas e se você não está de um lado, está de outro. Mas e o Sarney? Convenientemente não está incluído entre as forças da “velha direita”. Ele deve ter remoçado com o uso da linha PT Renew Rejuvenate. Tratamento intensivo.

O que o Dirceu quer esconder é o alcance da desagregação ética do PT. Eu não consigo pensar num exemplo mais didático do que o caso Mercadante, gentilmente forçado por Lula a retroceder quando não mais poderia, ao custo da sua imagem pública – o partido saberá recompensá-lo, espero. Esta desagregação é o preço do poder. Há um dilema moral entre os utilitaristas que vale bastante para o PT de agora: se você tem um projeto ou um ideal e nas pequenas ações cotidianas abre mão dele, em função de um racioncínio estratégico, você pode terminar, lá no final, quando suas ações forem somadas, num passivo ético meio vergonhoso. A soma de más ações não resulta numa boa ação. Os utilitaristas resolvem esta questão abandonando a idéia de um princípio moral universal e fundamentando a validade das máximas individuais em objetivos circunstanciais e, no limite, quantificáveis.

É o que está acontecendo com o PT. O projeto de poder está engolindo o partido porque, em nome deste projeto, abandona-se os princípios que determinaram a existência do próprio partido. Gabeira, Babá, Heloísa Helena, Marina, Flávio Arns dão testemunho deste dilema optando por manter sua fidelidade pessoal a estes princípios. Eles preferem o PT fora do poder. Não querem ser obrigados a dançar a ciranda da governabilidade com Sarney, Collor, Calheiros e Salgado.

O que emerge daí é um novo PT. Seu traço mais característico, até agora, é o centralismo decisório (o lulismo) e o pragmatismo político. Embora programaticamente ele se atenha a uma pauta trabalhista de esquerda, deontologicamente ele é um bicho totalmente diferente. É esta metamorfose que faz da fala do Zé Dirceu uma legítima historinha para boi dormir. A única coisa realmente certa é que o PT não pretende se mover em direção ao PSDB em nenhum momento futuro. Se isso acontecer quem sai é o Zé Dirceu. Quem sabe ele não vai para o PMDB?

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2 Comentários
  1. Daniel,
    Grande artigo e concordo com vc. Mas, a jogada da Marina não é a mesma do PT, de lançar o maximo de candidatos a esquerda do PSDB e depois reunir todo mundo no segundo turno?
    Acho dificil pensar que isso não foi armado, que há dilemas éticos ou morais…Será mesmo?
    abraço
    fantini

  2. Ótimo texto, brilhante, brilhante, amigo.

    Assinaria embaixo de cada letra!

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