Skip to content

Sobre mercados, supermercados e hipermercados

12/10/2009

Quando eu nasci o Supermercado Marcos era apenas uma frutaria. Logo tornou-se pouco mais do que um mercadinho de Secos e Molhados, como se dizia na época; frequentado, antes do almoço, por mães apressadas e, depois, por meninos viciados em açucar e pipas.

Quando eu estava com 10 anos – e de vez em quando ouvia Michael Jackson -, embora ainda não houvesse se expandido numa rede de lojas como hoje, já era considerado o Supermercado do bairro; uma referência para as pessoas explicarem seus endereços residenciais. “Olha, fica ali nos fundos do Marcos”.

Para mim o Marcos era simplesmente parte da paisagem. Um lugar que minha mãe me obrigava a ir “comprar pão” para o lanche. Onde comprávamos nossas Havaianas e algumas camisetas Hering para o dia-a-dia, além do sempre indispensável “massodetomate”. O Marcos, como todo mercado, era um lugar sempre frequentado mas quase nunca relevante, como a rua, por exemplo, ou a Igreja, ou mesmo a praça. Nele as pessoas se encontravam e se reconheciam, mas nunca conviviam verdadeiramente. Era um lugar de passagem, no qual todos andavam apressados com alguma responsabilidade maior a lhes cutucar pelas costas, forçando-os a ir mais depressa. Bastava que fosse conveniente, ou seja, estivesse aberto e disponível quando necessário.

Mas isso mudou (pelo menos para mim e meus amigos) quando eles inventaram a Pérola Negra . O que era isso? Um brigadeiro do tamanho de uma bola de tênis, feito com tudo quanto é tipo de sobra de bolo do dia anterior, misturado com quantidades generosas de Toddy ou Nescau e coberto com chocolate granulado. Néctar dos deuses para crianças hiperativas com 12 ou 13 anos. Alguns amigos iam até a sorveteria Triângulo, pegavam um carrinho de picolé, vendiam durante o dia e, com o lucro, compravam a Pérola Negra. Depois sentávamos no meio-fio – imundos, loquazes e felizes – para saborear o doce, tal qual papagaios no pé de jerivá.

A partir de então o Supermercado tornou-se um ponto de encontro. Ficávamos na porta esperando os atrasados chegarem para entrarmos todos juntos, galopar em direção à padaria, e dar de cara com o sorriso maroto da atendente, resposta mais do que adquada à transparência do nosso desejo. Que bom que o Marcos existia!

Não muito mais tarde parte dessa meninada arrumou emprego lá. Eram, em sua maioria, empacotadores, mas alguns fizeram carreira e rapidamente alcançaram cargos de superintendência. O Marcos crescia, ficava mais super. Com isso também adotaram uma política de recursos humanos mais moderna e construíram uma área de lazer sobre a loja, com piscina e quadra de futebol de salão. Que bom que o Marcos existia! Todo fim-de-semana nos reuníamos para jogar bola, o acesso ao “clube” franqueado pelo amigo superintendente. O melhor dia foi quando choveu e a quadra, sem um bom sistema de escoamento, começou a parecer uma segunda piscina. Não demorou para o futebol virar uma espécie de rugbi, quase pólo aquático.

E o Marcos rapidamente deixou de ser super e começou a ser hiper, embora a loja da Fama continuasse pequena. Mas aí meus interesses não estavam mais no meu bairro e sim em coisas maiores, universais. Só notei o crescimento quando fizeram uma enorme reforma, destruindo os últimos resquícios arquitetônicos da minha infância supermercadológica. Mas o Marcos crescia e eu considerava isso bom.

Este ano um grande investimento do grupo foi tragado pela crise mundial e a rede ficou sem dinheiro para manter a operação. Os produtos foram sumindo das prateleiras, a reposição não acontecia por conta das dívidas crescentes com os fornecedores (mais de 200) e os refrigeradores foram sendo progressivamente desligados. Há alguns dias uma equipe do Carrefour foi inspecionar a loja, estudando a possibilidade de aquisição. A boataria disparou na região. Semana passada uma matéria de página inteira no Popular informou que o grupo já vendeu 4 lojas e demitiu quase 500 funcionários.

Anteontem fui lá tentar comprar alguma coisa. Muitas prateleiras foram retiradas, a padaria está desativada – assim como o açougue, a peixaria e a seção de hortifruti – e há espaço demais para tão pouco macarrão. Não estão vendendo nenhum tipo de cerveja ou refrigerante e há apenas um caixa funcionando. Tentei colar sobre a loja minhas recordações de como era o Marcos na década de 80. Andei como um caduco medindo passos e olhando cantos, tentando lembrar onde ficava a escada para a quadra de futebol ou o bazar. Mas o mercado não cabe mais no hipermercado, quero dizer, o Marcos de antes ficou grande demais para os espaços vazios de hoje. Assim como o próprio bairro vai se impessoalizando em confecções (para quem conhece a região eu diria: vai se campinizando!), o Marcos se impessoalizou em sua hipermercadologização. Ele voltou, por força do próprio movimento de expansão, inevitável e natural, a ser meramente conveniente. Não é essa conveniência que eu reclamo perder se o lugar fechar definitivamente, mas o lugar das minhas memórias, a Pérola Negra e o futebol. Na verdade o que me dói é que eu também me impessoalizei quando cresci. Minha alma ganhou a amplitude necessária ao custo deste mundo íntimo que sempre foi meu estar no mundo. Ou por outras, não me reconheço mais no bairro onde eu nasci e vivo até hoje. E isso não é bom porque as memórias habitam certos espaços e precisam deles para durar.

Quando eu tinha 13 anos subi no telhado de casa e tirei uma foto do horizonte. Era meu horizonte de menino. Embora o horizonte ainda se encontre exatamente no mesmo lugar já não o reconheço.

Não me agrada nem um pouco esse tipo especial e necessário de Alzheimer.

Anúncios
4 Comentários
  1. lisandro permalink

    Um texto sobre a memória. Significa: o autor está ficando velho e saudoso; segundo: compreende cada vez mais que a memória é quase tudo.

    Belo texto!!!

  2. aroncoiote permalink

    “o autor está ficando velho e saudoso” (2)

  3. Gláucia permalink

    O interessante é que, é um texto sobre lembranças pessoais que é capaz de fazer com que eu acompanhe o autor até o final, imaginando as cenas junto com ele.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: