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Maritain e o humanismo

19/10/2009

Fui ao cinema com um amigo e, depois do filme, no restaurante japonês do Flamboyant (“caro pra dedéu”, como diz meu filho), conversamos um pouco sobre a relevância de certas amizades e, no limite, sobre as pessoas que cruzam nosso caminho durante a vida. Falei da minha admiração pelo Velho. Na verdade não dou nome aos bois porque o Velho detestaria ver-se associado com qualquer coisa pública. Ainda mais com um blog.

Eu e o Velho conversamos muito sobre o homem e sobre Deus. Só converso essas coisas com ele e outros poucos. Em primeiro lugar porque, além de velho, ele é sábio. Ao contrário de uns amigos que tenho, cuja religião é um bicho todo próprio, feito sob encomenda para esconder – e não revelar – a verdade mais profunda sobre si mesmos; ele ouve com atenção e destrói minhas teses com humor que me faz rir da minha própria ignorância.

Foi ele quem me sugeriu a leitura de Jacques Maritain. A direita bisonha adora elogiar um Mário Ferreira dos Santos ou um Olavo de Carvalho. Pfiu!!! Leiam Maritain. Em 1936 publicou Humanismo Integral a partir de um curso dado em 1934 na Universidade de verão de Santander, na Espanha. Sua obra foi citada por Paulo VI como referência na discussão sobre o humanismo católico. É, talvez, o principal nome da neo-escolástica (corrente na qual surgiram inúmeras idéias hoje esposadas pela direita, sem que ela saiba muito bem o motivo). Uma delas – entre tantas – é a divisão do humanismo entre antropocêntrico e teocêntrico e a hermenêutica histórica que acompanha tal divisão. Estão aí os temas da “tragédia do humano”, “reabilitação entropocêntrica da criatura”, “humanismos totalitários”, etc. Um exemplo:

A catástrofe da Idade Média abre assim o tempo do humanismo moderno. A dissolução irradiante da Idade Média e de suas formas sacrais é a germinação de uma civilização profana, – não somente profana, mas que se separa progressivamente da Incarnação. É sempre, se  se quiser, a era do Filho do homem: mas em que o homem passa do culto do Homem-Deus, do Verbo feito homem, ao culto da Humanidade, do Homem puro.

Ele está certo, embora eu discorde da visada – um tanto catastrófica. Mas o erro dele é profícuo e não estéril, como é o caso com o Olavo de Carvalho. Porque a argumentação de Maritain atrai o intelecto, estando você a favor ou contra a tese. É racional, profunda e bela. Como quando ele fala da relação entre graça e liberdade.  Além disso, não há intelectual melhor para nos ajudar a compreender o pensamento cristão (ou a “filosofia cristã” como gostava de chamá-la Lima Vaz).

Para o pensamento medieval, o homem era também uma pessoa; e se deve notar que esta noção, se eu posso dizer, de índice cristão, que se desembaraçou e precisou graças à teologia. Uma pessoa é um universo de natureza espiritual dotado de liberdade de escolha e constituindo, portanto, um todo independente em face do mundo, não podendo nem a natureza nem o Estado tocar este universo sem a sua permissão. E Deus mesmo, que está e age no seu íntimo, age de um modo particular e com uma delicadeza particularmente preciosa, que patenteia a importância que lhe dá: respeita sua liberdade, no coração da qual habita entretanto; solicita-a, e jamais a obriga.

E ademais, em sua existência concreta e histórica, o homem, para o pensamento medieval, não era um ser simplesmente natural. É um ser deslocado, ferido, – pelo diabo que o toca de concupiscência, por Deus que o marca de amor. De um lado, carrega a herança do pecado original, nasce despojado dos dons da graça, e, se bem que não sem dúvida substancialmente corrompido, é ferido em sua natureza. Doutro lado, é ferido para um fim sobrenatural: ver a Deus como Deus se vê; é feito para atingir à vida mesma de Deus; é atravessado pelas solicitações da graça atual, e se não opõe a Deus seu poder de recusa, é portador, desde a terra, da vida propriamente divina da graça santificante e de seus dons.

A esquerda que despreza a herança intelectual do cristianismo em nome de um materialismo dogmático deve ser confinada na mesma cela manicomial da direita bisonha. A definição de pessoa no trecho acima completa perfeitamente a noção de ação racional da economia, dando-lhe um lastro humanista muito claro. Ademais, a idéia de que Deus nos “fere” com seu amor – tanto quanto o diabo com a concupiscência – é luminosa, principalmente porque não coloca Deus e o diabo no mesmo patamar, apenas nos deixa entrever a essência da nossa confusão: sentimos o apelo de ambos de modo parecido. Mesmo sendo ateu ou agnóstico, você há de convir que o tema da dor é universalmente humano e esta elaboração, no mínimo, ajuda-nos a compreender como o fenômeno foi trabalho na Idade Média. Acima de tudo é preciso saber contra quem lutamos, se queremos algum dia ir além da própria luta.

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2 Comentários
  1. lisandro permalink

    O velho é sábio. O velho sabe das coisas e é discreto; o velho não é velho: o velho não é jovem; o velho não é novo e nem é velho. É Velho!!!

    TB. aprendo milhares de coisas que jamais saberia. A companhia é extremamente instigante, agradável e sempre aprofundada pelo humor. O Velho é gente boa demais.

    É um privilégio conviver com O Velho!!!

  2. aroncoiote permalink

    ando puto demais com religiosos pra me deixar pensar sobre seu ponto de vista. queria topar um dia com um desse tipo ai.

    mas há muitos deles insistindo em fazer merdas grandes demais (ex mais recente: o DM veio com a “carta psicografada” da minha amiga que morreu em maio).

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