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As nanomáquinas públicas

21/12/2009

Uma das coisas mais interessantes que eu já li do Olavo de Carvalho foi sua definição de funcionário público: um cara que, assim que assume o emprego, começa a contar os dias para a aposentadoria!

Claro que é um exagero. Claro que não corresponde aos fatos. Mas qualifica aquela porção do serviço público usada como moeda de troca política (o Olavo de Carvalho é sempre melhor quando interpretado fora de contexto do que por si mesmo).

Há menos destes na Universidade Federal, dá para notar. A maioria esmagadora dos professores que conheço tem uma vocação genuína ou para a pesquisa ou para o ensino ou para a extensão e alguns, poucos é verdade, para a administração pública. A verdade é que as universidades nunca foram moeda de troca política quando o assunto são os cargos e isso se dá por conta da autonomia universitária e pelo papel pouco relevante que elas têm no jogo do poder. O concurso público é a única maneira de entrar para o quadro permanente da instituição e, embora o modelo permita interferência e viés, ele ainda assim é um dos mais honestos que há por aí.

Já a administração pública estadual está mais vulnerável à ingerência política. Aqui na província boa parte do poder político está associada à capacidade de empregar, ao cargo. Por isso, quando um figurão da política quer ampliar seu poder ele amplia o número de cargos e distribui entre os aliados. A Assembléia, tributária da mesma lógica, aprova a expansão. O judiciário, quando não simplesmente efetiva os temporários sem concurso, aquiesce. Diminuir cargos significa diminuir poder, no sentido de que um emprego concedido entra no cálculo da economia simbólica: cria um vínculo de afetividade no sujeito agraciado com a prenda. Ele não irá, por certo, se encurralado, colocar a lealdade antes da sobrevivência. Mas este vínculo é poderoso e efetivo, principalmente num Estado tão provinciano como o nosso, no qual ainda não se consolidou a separação entre o público e o privado que garante maturidade aos sistemas políticos.

Por conta disso não surpreende a situação de Goiás na pesquisa do Ipea/IBGE sobre funcionalismo público: um servidor para cada 19 habitantes. Isso num Estado praticamente quebrado, incapaz de gerenciar com competência um monopólio de distribuição de energia elétrica (a Celg). O número é tão absurdo que chega a ser mais ou menos igual à relação professor/aluno aqui na Universidade. Onde está toda essa gente?

Não estão na educação e não estão na saúde. Talvez estejam dispersos pelos gabinetes e assessorias, uma legião de espectros movendo-se aparentemente ao acaso, mas, na realidade, obedecendo  à lógica de ferro do apadrinhamento político. O objetivo do seu trabalho não é o contribuinte, o cidadão, mas o interesse direto do padrinho que lhe permitiu, neste natal, uma ceia mais gorda, e, no ano que vem, uma escola melhor para o filho. É em nome do seu padrinho que ele age, que percorre diligentemente as veias dos órgãos públicos em missão discreta, uma nanomáquina alienígena no dantesco sistema da administração pública. Enquanto essa for a lógica da política goiana, seremos um estado cheio de funcionários, mas com pouca coisa funcionando.

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2 Comentários
  1. aroncoiote permalink

    ou! estão caindo pixels brancos do seu blogue.

    • Daniel Christino permalink

      É um efeito de natal do wordpress. Parece que funciona, além de desviar a atenção do post…

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