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A luta intelectual

07/02/2010

Excelente artigo no Guardian sobre a experiência da leitura e o modo como o desenvolvimento tecnológico pode nos privar de uma experiência essencial. A relação entre indivíduo e tecnologia ecoa uma distinção ainda mais atinga entre homem e sociedade. Em certo sentido, e pensando mais formalmente, é uma reedição do ainda mais antigo problema parte vs todo. A parte que cada indivíduo é daquilo que lhe transcende e lhe dá sentido: a cultura. O que me interessa no artigo, e no tema da tecnologia em geral, é exatamento o modo como ela transforma a experiência individual e os desafios que lhe impõe. Cito um trecho.

Culture changed quickly and permanently in the last decade. That pregnant, mental pause of reading has come under threat like never before. “Writing is a form of personal freedom,” said Don DeLillo in a letter to Jonathan Franzen, who had appealed to him about this very issue long before the arrival of the internet. “It frees us from the mass identity we see in the making all around us. In the end, writers will write not to be outlaw heroes of some underculture, but mainly to save themselves, to survive as individuals.” Exactly the same statement, I think, describes the condition of serious readers.

O que está em jogo no ato da leitura é a relação direta da consciência consigo própria. Uma relação que, naturalmente, passa pelo mundo que todos nós somos. Explico. A consciência jamais é algo “em si mesmo”, uma realidade objetiva e autônoma, cuja existência precede o mundo no qual todos estamos. O que nós somos não pode ser separado do “como” nós somos. Nossa consciência aparece para nós no ato da leitura (e da escritura) porque ela é uma derivação deste ato. Aliás, esta é uma das lições da fenomenologia: toda consciência é, na verdade, um ato. O ato de ler, o ato de escrever, o ato de compreender e assim por diante.

Nada disso nega a idéia de individualidade. O ato pelo qual, na leitura, aparecemos para nós mesmos é uma das experiências definidoras da noção de indivíduo. Quando encadeamos uma série de leituras e optamos, ao final, por esposar esta ou aquela tese, não fazemos outra coisa senão aprender. A isso chamamos formação (Bildung). Seguindo Hegel, pode-se entender o processo formativo como um desaborchar-se naquilo que se estuda. O indivíduo emerge, enquanto fenômeno, inclusive para si mesmo, através da formação.

Para isso é necessário solidão.

Nossa época, por outro lado, quer eliminar a solidão, torná-la uma doença ou a causa principal de uma doença. “Ele está deprimido por causa da solidão”. Toda a atividade intelectual é, em grande parte, solitária. A reflexão exige especulação e esta, por sua vez, exige tempo. Garantir este tempo de maturação da atividade de ler e compreender o mundo – e, por extensão, nós próprios – é a luta intelectual que vale a pena hoje em dia. Escapar ao falatório, ao impessoal, ao trivial é um imperativo ético. E, no meu caso, uma guerra particular.

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One Comment
  1. aroncoiote permalink

    escapar do falatório é definitivamente uma guerra.

    acho que nosso tempo quer, antes de eliminar a solidão, eliminar a demora. o estar por “muito” tempo. a mira anda sob os prazeres efêmeros. o “engrandecimento” de uma formação, junto de tantos outros prazeres que só se atinge com insistência e possivelmente sofrimento são, hoje, geralmente mal vistos.

    e quem encara uma Bildung também tem que aprender a se calar, porque ele não só está sozinho no processo de especulação/reflexão, está sozinho fora do processo também – quase não há com quem se possa compartilhar as experiências (no meu caso, só consigo conversar sobre certos “temas” com você mais um ou dois no máximo). é simplesmente muito chato conversar, discutir, chegar ao consenso; pensaar dói.

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