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Eutanásia

16/02/2010

Será que vale a pena falar isso em público? Acho que não tem problema: eu já pensei em me matar. Sério. Quando era adolescente e a vida era muito difícil. Não precisava trabalhar, não tinha filhos e nem responsabilidades. Vivia lendo, jogando videogame e namorando. Vida difícil, tediosa e bruta! Não estou brincando. Sou, ao que parece, um daqueles tipos sobre os quais a morte sempre exerceu certo fascínio. Já me peguei várias vezes imaginando como seria simplesmente desaparecer, deitar a cabeça no travesseiro e imaginar minha consciência aos poucos se dissolvendo no vazio. Vai dizer que você nunca fez isso? Nunca imaginou como seria sua morte?

Morte é tabu. Isso quer dizer: envolvemos a morte num colchão de impacto simbólico para dimunir a pancada existencial de se estar consciente da própria finitude. A morte é horrível porque é sempre nossa, mesmo quando pertence a outro. Mas enquanto a morte do outro é real, apesar de nos parecer quase sempre um ausentar-se, como se a pessoa tivesse ido ao banheiro e esquecido de voltar para pegar seu corpo; a nossa própria morte é experimentada através do ritual funerário. A morte de cada um que é sempre nossa, é uma morte simbólica, rigidamente articulada (uma espécie de algoritmo ou script cultural). Isso nos dá a ilusão confortadora de saber o que acontece quando se morre: dor, enterro (ou cremação), luto.

Por isso é tão estranho pensar em eutanásia. É estranho imaginar a racionalidade pura e simples como substituto para os procedimentos altamente ritualizados da cultura. Na eutanásia a morte é vista com luz direta e chapada, sem sombras ou nuances. Algo um tanto pornográfico. Um calafrio de horror corre espinha acima quando imaginamos que alguém compra uma passagem de avião e reserva um hotem em Zurique com a única intenção de morrer. Imagine-se entrando num quarto de hotel, deitando-se numa cama do tipo hospitalar e sendo levado, enquanto conversa displicentemente com o enfermeiro, para uma sala na qual lhe meterão uma agulha no braço e uma enxurrada de sodium pentobarbital dará cabo da sua vida. Do ponto de vista de quem se mata deve ser realmente um alívio ver-se finalmente livre da dor provocada por aquele tumor maldito no pâncreas ou sei lá onde, pode escolher aí. Mas do ponto de vista de quem fica a falta do rito de passagem retira o colchão simbólico, e o impacto é seco e brutal. Já é difícil entender porque alguém se mataria quando o natural parece ser agarrar-se à vida tanto quanto possível, quanto mais a possibilidade de uma sociedade inteira tratar a morte sem a intermediação simbólica tão própria da cultura humana. É o que faz Ludwig Minelli, dono da Blue Oasis, segundo matéria da Atlantic (referida pelo João Pereira Coutinho, na Folha de hoje).

Não tenho problema com o suicídio. Quem resolve suicidar provavelmente não está nem um pouco interessado na mecânica cultural envolvida no processo de morrer. Mesmo assim a ausência de toda a ritualística própria ao acontecimento me deixa incomodado. Desconfio que seja por conta disso que as imagens de milhares de cadáveres da peste negra ou do holocausto nos impressiona tanto. Assim como as profissões diretamente associadas com a cotidianidade da morte: coveiros, médicos legistas, funcionários do IML.

Aliás, quando trabalhava no Diário da Manhã fiz um perfil-reportagem com um auxiliar médico do IML de Goiânia. O fotógrafo do jornal sugeriu, para ilustrar a matéria, uma foto do funcionário lidando com os cadáveres. O funcionário, todo solícito, se pôs a pensar, olhando as gavetar de aço inoxidável do necrotério. “Acho que este aqui dará uma boa foto”, disse, abrindo a gaveta e puxando a maca com o defunto. “Opa!” disse. “Esse aqui não vai dar, esta vazando”. Eu nem olhei para saber por onde ou o quê estava vazando do cadáver, mas acredito que fosse formol. “Vamos tentar esse aqui, que chegou hoje”. Fizemos a foto. Mas eu estava incomodado. Sugeri então uma outra foto com ele entranto no necrotério, os braços abertos empurrando as portas. Ele estaria de costas e as gavetas, algumas abertas mas sem corpos à vista, estariam ao fundo, desfocadas. Quando a matéria foi impressa, a foto ficou como eu queria: o funcionário de costas, os braços abertos empurrando as portas, lembrando uma cruz.

P.s.: A foto acima é da exposição Life before Death do alemão Walter Schels via The Guardian. Schels fotografou 22 imagens de pacientes terminais antes e depois da morte. O resultado é, ao mesmo tempo, belo e sinistro. Como a morte.

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From → Cotidiano

2 Comentários
  1. aroncoiote permalink

    o texto me relembrou da Albertiza (aquele perfil da senhora com Alzheimer).

    e o Pasmo é mais elegante quando não trata de política. sério (também).

  2. O suicídio racional é o nó górdio da Psiquiatria:

    http://stoa.usp.br/danielmbarros/weblog/48381.html

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