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Deus e finitude em Bergman

21/03/2010

O texto abaixo foi publicado dia 19 de março no jornal O Popular. No mesmo dia participei de um debate sobre a obra de Bergman com meus amigos Leon Rabelo e Carlos Afonso Rabelo. Depois ainda estiquei a noite com uma cervejinha com meus irmãos e com mais dois amigos, o Salvio Juliano e a Rute Guedes. Cinema, amizades e temas relevantes. É a vida.

Deus e finitude em Bergman
(começou a mostra de filmes no Cine-UFG)

Em mais de uma oportunidade, Bergman deixou claro que seu processo criativo derivava de suas experiências mais pessoais. Sua obra é quase sempre um desdobramento de sua interioridade. Quando Através do Espelho ganhou a Palma de Ouro em Cannes, Bergman ganhou completa autonomia criativa na Svensk Filmindustri. No excelente documentário de Marie Nyreröd, A Ilha de Bergman, ele relata a sensação de solidão que tal autonomia provocara. Ele não mais precisava prestar contas a ninguém, porém, ao mesmo tempo, não recebia críticas ou era obrigado a justificar posições estéticas. A solidão era uma elemento essencial de sua arte.

Dentre os temas absolutamente pessoais que atravessam a filmografia do diretor sueco, a tensão entre fé e razão, entre Deus e a finitude, ocupa um lugar bastante pronunciado. Bergman era filho de pastor luterano e foi criado à luz de um ethos bastante rígido e disciplinador. Deste conflito pessoal que mistura tão intensamente a figura de Deus à autoridade paterna, surgiram os três filmes que a fortuna crítica apelidou de trilogia da fé: Através do Espelho, Luz de Inverno e O Silêncio. Em muitos aspectos a trilogia se apresenta como um percurso íntimo que vai desde a crença no amor cristão até o vislumbre de um mundo condenado à liberdade absoluta.

Em Através do Espelho uma família acompanha, às vezes com curiosidade, às vezes com verdadeiro horror, a progressão inexorável da doença mental de um de seus membros. Bergman, cuja formação acadêmica em teatro transparece em todos os seus filmes, principalmente na cuidadosa mise-en-scène e no denso trabalho de atuação, compõe um quadro de progressiva desolação existencial. O desespero se avoluma, aos poucos, a medida em que a personagem principal vai desaparecendo em seus delírios. Aqui aparece, pela primeira vez na trilogia, uma imagem recorrente de Deus como uma horrenda aranha. Em meio à devastação existencial, numa bela cena final entre pai e filho, a noção do amor cristão retorna como possível solução, embora não seja abraçada com alegria. Isso, na verdade, é significativo: quando fala em Deus, Bergman muito dificilmente apela para a alegria. A grande exceção, claro, é O Sétimo Selo, de 1957, ou seja, alguns anos antes da trilogia.

Se Através do Espelho caminha para um ceticismo resignado, em Luz de Inverno já não resta esperança. Novamente a figura do pai é espelhada num pastor luterano em plena crise de fé. Sua congregação, antes cheia de fiéis, resume-se a uns poucos e bravos remanescentes. Crianças cochilam durante a celebração. Bergman filma o culto como se estivesse filmando um teatro, deixando propositadamente transparecer o elemento ficcional da comunhão e a ação do pastor é a mesma de um autômato cumprindo rotinas pré-determinadas.

Também aqui a noção de um Deus aracnídeo aparece para caracterizar a relação do pastor com Deus. Nem o amor, representado pela figura de uma professora primária, consegue atravessar o desespero de um mundo abandonado por Deus. A cena na qual o pastor nega seu amor pela professora é absurdamente cruel. Contra a paisagem gélida e branca, a solidão é algo que se pode quase pegar com as mãos.

Já em O Silêncio, Bergman procura retratar um mundo no qual a ideia de Deus já não vigora. O foco narrativo concentra-se nas figuras de duas irmãs e um menino, perdidos num imenso hotel virtualmente deserto. Ao contrário dos outros dois filmes, nos quais há uma estrutura narrativa bastante clara, O Silêncio parece mais uma colagem de situações relativas, principalmente, à sexualidade. Bergman parece dizer que uma vez livre de Deus, a humanidade desloca seu centro de gravidade para o corpo e, nele, especificamente para o sexo. O tema de homossexualidade é bastante explorado, principalmente na relação entre as duas irmãs, embora de maneira graficamente discreta. Em certo sentido, tanto no que se refere ao tema quanto no que se refere ao modo de filmar, O Silêncio se aproxima bastante de Persona.

Mas Bergman não é um diretor proselitista, ou seja, ele não faz propaganda de suas certezas. Seu modo de filmar a tensão entre fé e descrença vê sua própria história pessoal com certa beleza e acídia. Embora na trilogia ele se afaste da visão benévola da existência contida em O Sétimo Selo – até mesmo da existência mediada pela arte – ainda assim a superação do Deus aracnídeo, que concebe suas teias para que o homem se debata sem esperança, nos abre o horizonte da existência humana como a única e possível morada do belo. Uma beleza acessível apenas na solidão. Em outras palavras, o mundo destituído de Deus ainda pode ser belo. Belo e solitário.

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From → Arte, Cinema, Cotidiano

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