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Tirando fumaça

08/07/2010

Um amigo voltou de Cuba e me trouxe cerca de 25 charutos. Deliciosos. Acabei de fumar um Montecristo nº 5 ouvindo Monteverdi – “Pianto della Madonna”. Esta gravação aqui. Debaixo de um céu cintilante, nesta noite sem lua. Cheguei mesmo a surpreender uma estrela cadente em seu mergulho. Fiquei lá, no quintal, tirando fumaça e deixando o pensamento correr solto, como um gato num terreno baldio. Pura vagabundagem intelectual. Especulação e devaneio acompanhavam as revoluções diáfanas da fumaça.

A fumaça contém toda uma estética do efêmero, como as bolhas de sabão, embora aquela, ao contrário destas, excite também o paladar. Temo que, ao fim e ao cabo, tudo vá acabar em câncer; mas é um medo longínquo ainda, mera possibilidade. Não importa. Sem querer ser perverso, a própria idéia de que embrulhado neste prazer há um impulso de morte, de finitude, apenas o acentua mais, dá-lhe profundidade e textura. Se morri um pouco agora à noite, foi uma boa morte. Bela.

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One Comment
  1. aron permalink

    A morte guarde-se. E lá do fundo da nossa carne, mantém parentesco com o silêncio – não o incômodo, mas o puro; aquele do pasmo essencial.

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