Skip to content

Petrarca e a retórica do vitupério

20/09/2010

Dando continuidade a minha pesquisa sobre retórica, comunicação e tecnologia comecei a ler alguma coisa de Petrarca. Não comecei, porém, pelos poemas ou por seus estudos filológicos, mas pelas invectivas. A edição é da Harvard University Press e, caso alguém se interesse, pode ser adquirida aqui. Neste volume estão incluídas as invectivas Contra um médico, Contra um homem de alta patente sem conhecimento ou virtude, Contra um detrator da Itália e um opúsculo Sobre a própria ignorância e de muitos outros.

De todos eles o último que citei é o melhor porque oferece uma visão panorâmica da biografia intelectual de Petrarca, obviamente um tanto floreada pela beleza austera da humildade, se me permitem aí uma destrambelhada tentativa de oxímoro. Nas outras aparece um humanista muito diferente. O que mais chama a atenção é o tom abertamente vulgar e raivoso das injúrias dirigidas aos seus desafetos. Já é fato estabelecido que a retórica renascentista lançou mão pesadamente da ironia contra a escolástica medieval. Parte da “novidade” estava, também, na vulgaridade. Enquanto as disputatios medievais procuravam manter certa consciência aristocrática nos modos e nos termos, os renascentistas usavam analogias chulas sem o menor pudor. Isto se dava porque seu objetivo era desconstruir uma tradição de racionalidade estabelecida há séculos, engessada pelo rigor excessivo e respeito à divindade. Nisto reside também algo da genialidade dos humanistas: mais próximos da cotidianidade da vida e dos negócios, inseridos num contexto socio-econômico em emergência, no qual a vida citadina tornava-se paulatinamente tão relevante quanto as revoluções da corte e do clero; sua retórica apelava também a uma racionalidade mais mundana e menos divina ou aristocrática.

Petrarca costumava insultar seus desafetos a partir de três tópicos: a estupidez humana e a loucura; as características e comportamentos animais e as substâncias repugnantes, tais como urina, vômito, etc. Nada daquele cândido poeta apaixonado por sua Laura. Eis um trecho do livro I de Contra um médico.

Even though I am no physician and lack dialetic, I shall show you the cause of your pallor. Even agaist your will, you shall realize that this is true. You move in dark, livid, fetid, and pallid places. You rummage around in sloshing chamber-pots. You exame the urine of the sick. You think about gold. Is it any wonder if in the midst of pallid, dark, and shallow places you yourself become pallid, dark and shallow? If the wisest partiarch´s flock changed color when it was exposed to mottled branches, is it strange that the same thing happens to you? You´re waiting for me to say that your color comes from gold. No, it comes from what you are exposed to.

I have spoken at great length, and would rather have been silent. But the subject demands its true name which may be tolerated here a single time – a name which is often found in the Holy Scriptures. I say that your color, smell and taste come from the stuff to which you are exposed – shit.

Quem imaginaria, antes de Petrarca, poder associar num mesmo parágrafo as Sagradas Escrituras e a palavra merda de modo tão, como direi, orgânico, numa discussão por escrito? Ainda mais, como era o caso, dirigida a um dos médicos do Papa Clemente IV? A medida em que a racionalidade escolástica entra em declínio, uma nova noção de retórica emerge nos combates humanistas. Esta noção será duramente criticada pelos iluministas, que verão nela apenas um conjunto de estratégias de convencimento, o que provocará seu declínio juntamente com a dialética própria à escolástica.

Tudo isso é muito interessante e coisa e tal. Porém o que me chamou imediatamente a atenção nas invectivas de Petrarca foi a semelhança da sua retórica do vitupério com o texto de alguns articulistas, jornalistas e, porque não?, filósofos por aí. Infelizmente eles aprenderam apenas o mais superficial da querela entre escolásticos e humanistas, se é que leram alguma coisa. E não estão lutando contra uma tradição de pensamento altamente sofisticada, o que justificaria lançar mão de um expediente tão arriscado. Ao contrário de Petrarca, sua baixaria é alimentada pelo ressentimento e pela ignorância.  Dito de outro modo, para eles este não é apenas um tropo retórico, uma estratégia discursiva: é a tonalidade afetiva que lhes define a alma. Eles são aquilo ao qual estão expostos diariamente, seja nas redações ou na Internet…

Anúncios
5 Comentários
  1. L.M. permalink

    D.C.,

    comentários rápidos:

    1) “Isto se dava porque seu objetivo era desconstruir uma tradição de racionalidade estabelecida há séculos, engessada pelo rigor excessivo e respeito à divindade.”

    A verdade é que, para Petrarca (e demais humanistas), o erro dos escolásticos era ter mais respeito a Aristóteles do que às coisas divinas. Eles se perdiam em discussões pagãs, no mínimo irrelevantes, no máximo enganosas, e isso os afastaria da religião. É por isso que Petrarca retoma Agostinho e, com ele, as fontes clássicas que o influenciaram, notadamente Cícero.

    2) “Quem imaginaria, antes de Petrarca, poder associar num mesmo parágrafo as Sagradas Escrituras e a palavra merda de modo tão, como direi, orgânico, numa discussão por escrito?”

    Hã… as próprias escrituras? Afinal, é isso que Petrarca está dizendo – que ele vai usar uma palavra que pode ser *tolerada* aqui *uma única vez* porque as Sagradas Escrituras empregam esta palavra. Não há nada de mundano aqui, nem há menos respeito à religião.

    Minha impressão, de um modo geral, é que você está assimilando estes humanistas renascentistas a figuras como a do Marquês de Sade, e isso é um erro. Eles não estavam interessados em falar palavrões para atacar a moral vigente, e eles não tinham uma agenda anti-Cristã.

    3) “uma nova noção de retórica emerge nos combates humanistas. Esta noção será duramente criticada pelos iluministas”

    Em quem você está pensando? Eu imaginaria que as obras dos humanistas já tivessem perdido completamente seu valor filosófico quando autores comprometidos com algum ideal de iluminismo começam a escrever.

    • Daniel Christino permalink

      Olá L.M., obrigado pelo comentário.

      1) Há um erro no trecho: onde se lê “e” deveria se ler “a”. Vou corrigir. Petrarca era um católico de alta estirpe e levava a religião a sério. Sua discordância com a escolástica estava não apenas na autoridade incontestável de Aristóteles, mas na futilidade dos temas e no engessamento dos raciocínios. Além disso, os humanistas eram resistentes às intricadas teorizações escolásticas tanto a respeito de Deus quanto do conhecimento dos universais – quem melhor explorou esse tema foi Salutati. Mas também criticavam a canonização hermenêutica das escrituras, especialmente quando associadas à autoridade clerical. Pico della Mirambola, por exemplo, misturava astrologia, cabala, alquimia, teologia e mais algumas coisas em suas elocubrações filosóficas sem, contudo, ter desenvolvido um sistema – talvez por falta de tempo, talvez pela citada resistência à teoria. Sua obra mais conhecida – a Oração sobre a dignidade do homem – era um resposta a Inocêncio VIII. Assim, meu ponto aqui é o de que a retórica renascentista significava, bem ao modo da época, uma tentativa de repensar a razão humana e, neste sentido, foi uma precursora da razão iluminista.

      2) O que estou querendo dizer é que, do ponto de vista estritamente escolástico, não se poderia usar a linguagem que ele utiliza. As ressalvas que ele faz têm o objetivo de gerar um efeito bem particular – impacto! Na verdade, todo a citação é um belo exemplo de vitupério. Petrarca se propõe explicar porque seu desafeto é tão pálido (“pallor“), um pálido tendente ao amarelo. Não há uma única conexão lógica possível – silogística, se melhor servir ao tempo – entre a compleição física do seu oponente com a solidez dos argumentos. Ele usa “merda” como contraponto a ouro. Há outras passagens.

      Não estou pensando em Sade, absolutamente! O que me interessa nos debates renascentistas é a concepção de racionalidade. Mais do que nos poemas ou tratados filológicos, foi nos embates retóricos que o anti-escolasticismo dos humanistas brilhou mais. Como era o caso na época, tal concepção aparece na forma da retórica e da dialética, já que não havia ainda uma reflexão sobre o método, como haverá com Descartes (que conhecia os humanistas). A vulgaridade – independentemente de Sade – era um traço marcante desta retórica, pelo menos em Petrarca.

      3) Para entender o caminho é necessário passar pela pedagogia humanista e por Vico. Vergerio, Bruni, Guarino e outros criaram um sistema pedagógico que foi talvez o maior legado dos humanistas. Os studia humanitatis diferiam do Trivium e Quatrivium medieval ao mesmo tempo em que incorporavam alguns de seus elementos, entre eles a retórica. Meu exemplo de como esta concepção de retórica – que vai muito além, claro, do vitupério, mas certamente o inclui – chegou aos iluministas está na oposição entre Descartes e Vico. Os iluministas – como Hume, Kant, Voltaire, e cia. – são apenas a ponta de um movimento histórico que começou lá com os humanistas e seu ataque à retórica compreende tanto o modelo escolástico quanto o renascentista (cf. Gadamer); mas, para mim, o mais interessante está mesmo no interregno. O Ciência Nova de Vico se contrapõe diretamente às Meditações de Descartes exatamente por considerar a possibilidade de um conhecimento derivado da retórica e da história em oposição ao more geometri cartesiano. Claro, nada disso está ainda provado, é só uma intuição de pesquisa e pode dar completamente com os burros n´água. Mas eu acho que vale a pena investigar.

      Obrigado pelo comentário.

  2. L.M. permalink

    Oi Daniel,

    obrigado pela ponta resposta! Alguns contrapontos:

    1) Não entendi bem qual erro você disse que ia corrigir, ou como ele afeta a leitura da frase, mas talvez, afinal, concordemos sobre Petrarca. Eu só insistiria que suas críticas à “futilidade dos temas e [ao] engessamento dos raciocínios” dos escolásticos têm a ver com o fato de estas discussões não encaminharem seus leitores à religião, e quiçá os afastar delas (por serem falsas, ou indecidíveis, ou pagãs…). Não se pode perder de vista o contexto mais amplo – as pessoas achavam, em maior ou menor grau, que a igreja precisava ser reformada, e Petrarca não era exceção. Algumas teses averroístas já tinham sido condenadas previamente, e Petrarca muitas vezes assimila averroísmo e aristotelismo, como explicação para a deterioração moral da teologia cristã.

    2) É um erro assimilar Giovanni Pico della Mirandola a Petrarca; o correto, aqui, teria sido recorrer a Gianfrancesco Pico della Mirandola – este sim é humanista nos moldes de Petrarca. Giovanni Pico, ao contrário, pertence ao campo dos neoplatônicos renascentistas, junto com Ficino; ele, aliás, defende a filosofia dos ataques da (nova) retórica.

    3) Não há dúvidas que a os modos de expressão dos escolásticos e humanistas diferem; e é verdade que uma das críticas dos humanistas é que os escolásticos não têm eloquência (que, aparentemente, seria necessária para exortar as pessoas ao cristianismo). O que eu não entendo é por que a vulgaridade seria parte importante desta eloquência, e, como eu disse antes, não acho que o trecho que você cita seja uma evidência de vulgaridade (porque Petrarca pede licença, porque a palavra está na Bíblia, etc.). Enfim, será que você pode falar mais sobre a importância da vulgaridade para Petrarca?

    4) Não entendi bem qual é a concepção de racionalidade que você acha que surge (ressurge?) nesta época, nem por que ela te interessa. Se não for abuso, pediria que você elaborasse isso também.

    5) Não entendi bem ao que você se refere quando fala nas críticas dos iluministas (Kant, Hume, Voltaire, etc.) à retórica, e confesso que sua referência a Gadamer me passou batido (é o quê? Verdade e Método?); também não entendi por que você diz que os iluministas assimilam a retórica renascentista à filosofia escolástica.

    6) Finalmente, sua pesquisa parece muito interessante; gostarei de ver os frutos dela.

  3. Queridos, vocês poderiam continuar discutindo mais umas três ou quatro réplicas cada um? Por favor? Daniel, fiquei bem entusiasmado com essa linha de pesquisa proposta, gostei da reforma do PE e fiquei feliz de saber que está escrevendo em grande forma.

Trackbacks & Pingbacks

  1. Tweets that mention Petrarca e a retórica do vitupério | Pasmo Essencial -- Topsy.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: