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Ciência, astrologia e o problema do conhecimento

28/01/2011

Muita discussão na Inglaterra sobre o factóide acerca de Ophiucus – e da astrologia ser, em geral, uma bobagem. Não tenho nada a dizer sobre a mecânica do relógio zodiacal, mas gostaria de usar a questão para discutir um pouco a natureza do conhecimento científico e de que modo ele desloca e destrói a credibilidade de outros discursos.

Na minha opinião o grande problema da ciência com a astrologia é não considerar o que os astrólogos dizem ou fazem um saber. É também o grande problema da ciência com a religião. Diante destes discursos, a ciência sempre se pergunta pelas condições de possibilidade da verdade dos enunciados, ou seja, o que torna verdadeiro o que eu digo. Enunciados científicos são, via de regra, enunciados sobre o mundo ou, como gosta a filosofia analítica da linguagem, proposições a respeito de estados de coisas no mundo. Desta forma, se eu enuncio “o sol gira em torno da terra” preciso obedecer certos princípios se quiser que tal afirmação não seja apenas uma opinião ou um desejo. Estes princípios são três: simplicidade – ou elegância -, universalidade e verificabilidade.

Trocando em miúdos, uma afirmação só poderá, de acordo com a ciência, ser entendida como verdadeira se e somente se ela não for contraditória, tiver um caráter universalizante e for verificável. A estes princípios soma-se uma espécie de ethos científico, para o qual não há conhecimento oculto ou hermético – isto é, as coisas acontecem por motivos que podem ser explicados em linguagem científica, mesmo que, a princípio, seja preciso negar as aparências –  e toda teoria pode e deve ser criticada à exaustão. Popper considerava este ethos o coração de uma “sociedade aberta” na qual os princípios científicos poderiam determinar valores éticos.

É isto que coloca a ciência em rota de colisão com a astrologia: enquanto a astrologia toma o céu como visto da terra, em sua configuração aparente, para derivar daí um conhecimento oculto baseado num jogo arquetípico de representações de princípios obscuros; a ciência nega tais aparências em nome de uma linguagem com critérios claros e objetivos sobre a validade dos seus enunciados. Para a ciência se há um saber por trás dos astros ele pode ser dito em linguagem natural. Para a astrologia se há um saber nos astros ele deve ser mediado por uma linguagem simbólica e indireta, capaz apenas de evocar as relações entre princípios que não podem ser conhecidos em si mesmos.

Você pode até argumentar que o jogo astrológico é bem mais interessante ou mesmo que ele se adapta melhor à representação da complexidade da alma humana, mas você não pode dizer que seus enunciados sobre o mundo são verdadeiros, a não ser que sua noção de verdade rivalize com a científica, o que ainda está para acontecer. Se, por hipótese, concordarmos que o discurso astrológico não quer afirmar ou negar nada sobre o mundo, para quê então ele serve? Um mapa da alma humana? Prefiro Shakespeare.

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One Comment
  1. Talvez isso tenha alguma relação com o fato de Feyerabend ser tão pouco explorado nos cursos de filosofia da ciência. Aliás, isso aconteceu, por exemplo, na fundação dos cursos de economia e ciências sociais em SP: a ideia de substituir um conhecimento “literário”, puramente retórico, por um conhecimento voltado à realidade, pragmático.

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