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Comunicação e Filosofia

31/05/2012

A manutenção de um blog é um negócio meio chato e disciplinado, exige atenção e carinho. Como nunca fui muito bom jardineiro, logicamente tenho sido um péssimo blogueiro. Mas troquei uns e-mails com o Erick Felinto pela lista da Compós e, lendo seu blog e também o do Graham Harman – cujo livro Guerrilla Metaphysics eu achei muito interessante – resolvi reativar o Pasmo (pela milésima vez, eu sei).

Harman, assim como Jens Soentgen e Fredrik Svenaeus, tem sólida formação fenomenológica sem, contudo, se deixar engessar por ela (coisa rara nos departamentos de filosofia). Sua reflexão é filosoficamente sólida e, ao mesmo tempo, criativa e imensamente relevante para a comunicação.

Aliás, este era o ponto de debate na lista da Compós: a formação interdisciplinar de alguns pesquisadores os têm deixado em dificuldade na hora de prestar concurso para os departamentos de comunicação no Brasil. Coisa no mínimo espantosa, já que não existe área mais interdisciplinar (ou multidisciplinar) do que a comunicação. Pode-se perfeitamente argumentar que um pesquisador formado em filosofia ou sociologia é suficientemente capaz de elaborar e ministrar um curso de teoria da comunicação sem ter jamais sentado num banco de graduação em cinema, publicidade, relações públicas ou jornalismo. Na pós-graduação a situação é menos grave. No mestrado da UFG, por exemplo, já tivemos alunos da pedagogia, educação física e até da química.

No meu caso, venho da filosofia; especialmente da linha fenomenológica tendo estudado Heidegger no mestrado e a relação entre Heidegger e Gadamer no doutorado. Por conta disso estou sempre procurando pontes e encontrando ravinas; raras vezes acontece o contrário. Na verdade, o fenômeno – como nós procuramos entendê-lo na área da comunicação – é absolutamente secundário para a filosofia (algumas exceções, entretanto, existem: além dos citados acima, lembro-me deste cara aqui e sua interpretação cognitiva da semântica e da interação). E aqui está a questão: como nós, da área, entendemos “comunicação”? O Erick disse algo muito feliz naqueles e-mails: o termo “ciência social aplicada” é muito ruim. E é mesmo. A expressão implica um pertencimento epistemológico fundamental ao campo das ciência sociais – junto com direito, administração e outras áreas. Mais ainda, ela implica adesão a uma certa epistemologia de derivação cartesiana, a uma separação metodológica radical entre coisa extensa e coisa pensante, entre sujeito e objeto. Tal separação joga o pensamento produzido no “campo” numa corrida pela descrição/explicação/controle do objeto. Força o estabelecimento de metodologias alinhadas com essa perspectiva, principalmente da sociologia do século XIX, que compõem o grosso do que podemos chamar de “teorias clássicas” da comunicação.

Este modelo já não é mais aceito na maioria dos programas de pós-graduação atuais. Junto com ele, entretanto, também se perdeu o eixo epistemológico de simetria do campo. E consolida-se a impressão de que tal eixo não deve mesmo existir e, como afirma o próprio Felinto num texto enviado à Compós, talvez a comunicação seja um objeto superestimado. Seria interessante, argumenta ele, pensar numa teoria da mídia. Talvez.

Já eu acredito que se houver alguma chance de classificação epistemológica para a comunicação, ela deveria ser rotulada como “humanidades”. Posso estar apegado demais ao termo? Claro. Mas a leitura de Heidegger e Gadamer deixou-me a impressão que a comunicação – situada por eles dentro do caráter instrumental da linguagem – tem um enraizamento existencial (em oposição ao existenciário, cf. Heidegger) mais profundo do que pode parecer à primeira vista. Neste sentido discordo um pouco do uso que o Felinto faz do termo “humanismo” no seu artigo. E realmente não sei dizer até que ponto deslocar a reflexão para os objetos midiáticos – ou, por outro lado, para o processo de mediação – poderia redimensionar o problema do sentido (Sinn), tão central, ao meu ver, para o campo.

Mas esta é uma discussão a qual chego tardiamente e precisando me atualizar em leituras e debates. O que eu queria com este post, na verdade, era mostrar como a reflexão sobre a comunicação pode acontecer desde uma perspectiva filosófica sem, contudo, deixar de ser uma reflexão comunicacional. Não é necessário passar pelos bancos de uma graduação em comunicação para fazer esta discussão, basta ter, em sentido bem fenomenológico, o pasmo essencial.

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