Fake News

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As fake news tem um componente muito fortemente enraizado nas justificativas que criamos para decidir sobre nossas crenças. Este mecanismo, ao mesmo tempo subjetivo e circunstancial, tem sido objeto de debate ao longo da história da filosofia. Descartes, por exemplo, inicia suas meditações se perguntando sobre como ter certeza da verdade daquilo que conhecemos. Husserl, partindo de atitude semelhante, se pergunta sempre pelo sentido que os objetos e fenômenos têm para nós. Em ambos a atitude mais correta é sempre refletir sobre a questão antes de assumir qualquer posição.

Esta reflexão não precisa ser filosófica. Ela pode ser política, ética ou pragmática (entre outras). Mas a deliberação deve anteceder a decisão de acreditar. Só que refletir exige tempo e sabedoria prática. Um tempo que a tecnologia das redes sociais não admite.

Não é só o tempo que nos falta. Também nos falta alguma predisposição cognitiva para a racionalidade. Segundo Dan Sperbe e Hugo Mercier os seres humanos simplesmente não foram feitos para pensar; ao contrário, fomos feitos para reagir ao ambiente imediatamente. Aprendemos muito cedo que o medo é mais importante para a nossa sobrevivência individual do que a capacidade de ponderar o tamanho da ameaça e qual a resposta mais adequada.

Pensar, portanto, é um ganho civilizatório com alcance muito limitado na mecânica das nossas decisões. Exige, essencialmente, que o sujeito “saia de si” e encare a exigência que a realidade ou outro sujeito impõe aos seus juízos e decisões. É aqui que as fake news encontram seu adubo. Na inversão emocional de justificação das nossas crenças. Dentre os vários possíveis componentes desta inversão gostaria de destacar dois: a dissonância cognitiva e a fachada virtuosa.

O conceito de dissonância cognitiva é relativamente simples: sofremos quando nossas ideias não correspondem aos fatos. Ao investirmos tempo e energia em certas ideias ou crenças tendemos a negar os fatos que as contradizem ao invés de simplesmente abandonar nossa posição. Somos apegados às nossas crenças na proporção exata do investimento que fazemos nelas. Por exemplo, num relacionamento de muitos anos tendemos a ignorar — ativamente — evidências sobre traições ou, pelo menos, diminuir sua relevância. Fazemos isso porque investimos no casamento. Acontece o mesmo quando estamos diante de uma figura pública que desafia nossas concepções políticas — aquelas que cimentam nossa relação com os amigos ou igrejas, por exemplo. Tendemos a demolir o caráter desta figura ou relativizar sua importância.

Já o que eu chamo fachada virtuosa pode ser explicado apelando ao conceito de ethos retórico. Cada enunciação de alguma sentença projeta juntamente com seu significado a imagem de quem faz tal enunciação, seu “daemon”. Assim, nossos gostos, por exemplo, projetam um aspecto da nossa personalidade que se junta a outros para formar nossa imagem pública. Neste sentido, emocionar-se com a morte de alguém e demonstrar publicamente esta emoção, nos ajuda a projetar uma imagem de nós mesmos que, na maioria das vezes, queremos que seja virtuosa. Como a qualidade aqui é quase sempre moral, sinalizamos nossas virtudes para os outros saberem que estamos do lado do bem.

O paradoxo é que sempre haverá disputas entre os que se creem e aparecem, para si mesmos, como “pessoas do bem”, mas são caracterizados por seus adversários como “gente do mal”. Ao mesmo tempo, a energia investida na construção das crenças pode impedir estas mesmas pessoas de relativizarem sua posição — colocarem-se no lugar uns dos outros -; e, dado que não somos seres programados para refletir, a tendência é quase sempre a radicalização irracional das posições. Neste contexto informação não é conhecimento, é munição. Ela é impotente para mudar o debate porque o “frame” de interpretação dos fatos já está estabelecido seja preventivamente, contra a dissonância cognitiva, ou ativamente, para sinalizar virtude.

E as redes sociais não serão o lugar de onde uma posição mais equilibrada e neutra surgirá. Estamos mais para barbárie do que para civilização aqui; apesar dos avanços tecnológicos.

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