Adeus, professor Heck

0403Heck

Quando eu estava na graduação em jornalismo gostava de estudar I Ching. Herdei essa veia mística da minha Tia Zenaide, que lia tarô e praticava quiromancia. Mais intuitiva do que propriamente uma estudiosa ela não guardava muitos livros sobre ocultismo, mas aqueles que estavam disponíveis eu folheava e me impressionavam muito. Até ganhei um Tarô de Marselha de uma amiga que guardo comigo até hoje.

O I Ching é também conhecido como o livro das mutações. Mas é hermético. Isso significa que seu conhecimento não está à mão de quem lê, é necessária uma fórmula de acesso que pode ser mais simples ou sofisticada dependendo do método. Há o sistema das moedas e o das varetas. Eu jogava com as moedas.

Certa vez perguntei se deveria seguir a carreira acadêmica (obviamente eu já sabia a resposta, apenas precisava que a sorte a jogasse de volta na minha cara, como se fosse um destino, como se não fosse uma decisão realmente minha, para só então ser verdadeiramente minha, go figure!). Ele me respondeu, como é sempre o caso com o I Ching, com uma imagem: uma árvore na montanha (pra quem gosta: 669 699).

Sempre acreditei que ser professor é como ser uma árvore na montanha. Mais precisamente uma espécie de marco no desenvolvimento intelectual de alguém. Referência. Mas não no sentido pedante e vaidoso de sempre acompanhar, tal qual um superego freudiano, o destino dos alunos. Um professor-árvore (o hoher baum im ohr!!) deve ficar pelo caminho. E caso algum dia seus alunos precisem dar conta das suas trajetórias, eles possam dizer, com certa melancolia: “foi ali que eu virei à direita para chegar cá onde estou”; ou “foi ali que eu me perdi e depois me encontrei”.

Tenho a minha floresta, claro. E hoje eu fiquei sem uma de suas árvores mais frondosas. Meu primeiro professor de filosofia na UFG, José Nicolau Heck. Ele me ensinou muita coisa. Meu jeito de dar aulas é claramente influenciado por ele. Foi meu primeiro orientador na iniciação científica – um trabalho sobre Freud que me levou a comprar a edição completa da Imago. Acima de tudo, foi meu amigo. Foi ali que mudei de caminho em direção a Filosofia. Foi ali que descansei meu espírito jovem e confuso, sob a sombra das suas metáforas engraçadas e reveladoras, de sua prosa fechada e difícil, de sua paciência jovial e engravatada. Fui convidado para o seu casamento (o único dos alunos de graduação!) e fui com um cachimbo que fiquei com vergonha de fumar na frente dele.

Ainda não sou a árvore que gostaria de ser. Se eu algum dia conseguir, tentarei o quanto for possível armar uma copa tão ampla e acolhedora quanto a do Prof. Heck.

Adeus Professor!

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