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"The essence of what is called spirit lies in the ability to move within the horizon of an open future and an unrepeatable past".

H.-G. Gadamer

Ciência, astrologia e o problema do conhecimento

Muita discussão na Inglaterra sobre o factóide acerca de Ophiucus – e da astrologia ser, em geral, uma bobagem. Não tenho nada a dizer sobre a mecânica do relógio zodiacal, mas gostaria de usar a questão para discutir um pouco a natureza do conhecimento científico e de que modo ele desloca e destrói a credibilidade de outros discursos.

Na minha opinião o grande problema da ciência com a astrologia é não considerar o que os astrólogos dizem ou fazem um saber. É também o grande problema da ciência com a religião. Diante destes discursos, a ciência sempre se pergunta pelas condições de possibilidade da verdade dos enunciados, ou seja, o que torna verdadeiro o que eu digo. Enunciados científicos são, via de regra, enunciados sobre o mundo ou, como gosta a filosofia analítica da linguagem, proposições a respeito de estados de coisas no mundo. Desta forma, se eu enuncio “o sol gira em torno da terra” preciso obedecer certos princípios se quiser que tal afirmação não seja apenas uma opinião ou um desejo. Estes princípios são três: simplicidade – ou elegância -, universalidade e verificabilidade.

Trocando em miúdos, uma afirmação só poderá, de acordo com a ciência, ser entendida como verdadeira se e somente se ela não for contraditória, tiver um caráter universalizante e for verificável. A estes princípios soma-se uma espécie de ethos científico, para o qual não há conhecimento oculto ou hermético – isto é, as coisas acontecem por motivos que podem ser explicados em linguagem científica, mesmo que, a princípio, seja preciso negar as aparências –  e toda teoria pode e deve ser criticada à exaustão. Popper considerava este ethos o coração de uma “sociedade aberta” na qual os princípios científicos poderiam determinar valores éticos.

É isto que coloca a ciência em rota de colisão com a astrologia: enquanto a astrologia toma o céu como visto da terra, em sua configuração aparente, para derivar daí um conhecimento oculto baseado num jogo arquetípico de representações de princípios obscuros; a ciência nega tais aparências em nome de uma linguagem com critérios claros e objetivos sobre a validade dos seus enunciados. Para a ciência se há um saber por trás dos astros ele pode ser dito em linguagem natural. Para a astrologia se há um saber nos astros ele deve ser mediado por uma linguagem simbólica e indireta, capaz apenas de evocar as relações entre princípios que não podem ser conhecidos em si mesmos.

Você pode até argumentar que o jogo astrológico é bem mais interessante ou mesmo que ele se adapta melhor à representação da complexidade da alma humana, mas você não pode dizer que seus enunciados sobre o mundo são verdadeiros, a não ser que sua noção de verdade rivalize com a científica, o que ainda está para acontecer. Se, por hipótese, concordarmos que o discurso astrológico não quer afirmar ou negar nada sobre o mundo, para quê então ele serve? Um mapa da alma humana? Prefiro Shakespeare.

Rápidas vespertinas

– Estou um tanto ocupado com a organização de uma mostra sobre o cinema de terror e fantástico aqui na UFG. Em breve publico a programação.

– Ao mesmo tempo comecei a dar aulas no mestrado. É bom poder aprofundar alguns temas importantes para a moçada da pós, sem querer diminuir os passeios teóricos cheios de alegria da graduação. Ir fundo tem suas vantagens.

– E olha o que eu encontrei num texto do Eagleton sobre cultura:

Elevar a cultura acima da política – ser homens primeiro e cidadãos depois – significa que a política deve se mover para uma dimensão ética mais profunda, valendo-se dos recursos da Bildung e transformando indivíduos em cidadãos apropriadamente responsáveis e de boa índole. Essa é, embora em um nível um pouco mais alto, a retórica das aulas de Educação Cívica. No entanto, uma vez que “humanidade”, aqui, significa uma comunidade livre de conflitos, o que está em jogo não é apenas a prioridade da cultura sobre a política, mas sobre um tipo particular de política. A cultura, ou o Estado, são uma espécie de utopia prematura, abolindo a luta em um nível imaginário a fim de não precisar resolvê-la em um nível político. Nada poderia ser menos politicamente inocente do que um denegrecimento da política em nome do humano. Aqueles que proclamam a necessidade de um período de incubação ética para preparar os homens e mulheres para a cidadania política são também aqueles que negam a povos colonizados o direito de autogovernar-se até que sejam “civilizados” o suficiente para exercê-lo responsavelmente. Eles desprezam o fato de que, de longe, a melhor preparação para a independência política é a independência política.

Boa votação no domingo!

Petrarca e a retórica do vitupério

Dando continuidade a minha pesquisa sobre retórica, comunicação e tecnologia comecei a ler alguma coisa de Petrarca. Não comecei, porém, pelos poemas ou por seus estudos filológicos, mas pelas invectivas. A edição é da Harvard University Press e, caso alguém se interesse, pode ser adquirida aqui. Neste volume estão incluídas as invectivas Contra um médico, Contra um homem de alta patente sem conhecimento ou virtude, Contra um detrator da Itália e um opúsculo Sobre a própria ignorância e de muitos outros.

De todos eles o último que citei é o melhor porque oferece uma visão panorâmica da biografia intelectual de Petrarca, obviamente um tanto floreada pela beleza austera da humildade, se me permitem aí uma destrambelhada tentativa de oxímoro. Nas outras aparece um humanista muito diferente. O que mais chama a atenção é o tom abertamente vulgar e raivoso das injúrias dirigidas aos seus desafetos. Já é fato estabelecido que a retórica renascentista lançou mão pesadamente da ironia contra a escolástica medieval. Parte da “novidade” estava, também, na vulgaridade. Enquanto as disputatios medievais procuravam manter certa consciência aristocrática nos modos e nos termos, os renascentistas usavam analogias chulas sem o menor pudor. Isto se dava porque seu objetivo era desconstruir uma tradição de racionalidade estabelecida há séculos, engessada pelo rigor excessivo e respeito à divindade. Nisto reside também algo da genialidade dos humanistas: mais próximos da cotidianidade da vida e dos negócios, inseridos num contexto socio-econômico em emergência, no qual a vida citadina tornava-se paulatinamente tão relevante quanto as revoluções da corte e do clero; sua retórica apelava também a uma racionalidade mais mundana e menos divina ou aristocrática.

Petrarca costumava insultar seus desafetos a partir de três tópicos: a estupidez humana e a loucura; as características e comportamentos animais e as substâncias repugnantes, tais como urina, vômito, etc. Nada daquele cândido poeta apaixonado por sua Laura. Eis um trecho do livro I de Contra um médico.

Even though I am no physician and lack dialetic, I shall show you the cause of your pallor. Even agaist your will, you shall realize that this is true. You move in dark, livid, fetid, and pallid places. You rummage around in sloshing chamber-pots. You exame the urine of the sick. You think about gold. Is it any wonder if in the midst of pallid, dark, and shallow places you yourself become pallid, dark and shallow? If the wisest partiarch´s flock changed color when it was exposed to mottled branches, is it strange that the same thing happens to you? You´re waiting for me to say that your color comes from gold. No, it comes from what you are exposed to.

I have spoken at great length, and would rather have been silent. But the subject demands its true name which may be tolerated here a single time – a name which is often found in the Holy Scriptures. I say that your color, smell and taste come from the stuff to which you are exposed – shit.

Quem imaginaria, antes de Petrarca, poder associar num mesmo parágrafo as Sagradas Escrituras e a palavra merda de modo tão, como direi, orgânico, numa discussão por escrito? Ainda mais, como era o caso, dirigida a um dos médicos do Papa Clemente IV? A medida em que a racionalidade escolástica entra em declínio, uma nova noção de retórica emerge nos combates humanistas. Esta noção será duramente criticada pelos iluministas, que verão nela apenas um conjunto de estratégias de convencimento, o que provocará seu declínio juntamente com a dialética própria à escolástica.

Tudo isso é muito interessante e coisa e tal. Porém o que me chamou imediatamente a atenção nas invectivas de Petrarca foi a semelhança da sua retórica do vitupério com o texto de alguns articulistas, jornalistas e, porque não?, filósofos por aí. Infelizmente eles aprenderam apenas o mais superficial da querela entre escolásticos e humanistas, se é que leram alguma coisa. E não estão lutando contra uma tradição de pensamento altamente sofisticada, o que justificaria lançar mão de um expediente tão arriscado. Ao contrário de Petrarca, sua baixaria é alimentada pelo ressentimento e pela ignorância.  Dito de outro modo, para eles este não é apenas um tropo retórico, uma estratégia discursiva: é a tonalidade afetiva que lhes define a alma. Eles são aquilo ao qual estão expostos diariamente, seja nas redações ou na Internet…

Ainda sobre o “sacrifício do intelecto”

Se tivesse atentado para este trecho de A ciência como vocação antes, teria sido mais claro com um amigo e o teria feito ver seu erro. É exatamente como diz o trecho abaixo.

Só o discípulo faz legitimamente o “sacrifício do intelecto” em favor do profeta, como só o crente o faz em favor da Igreja. Nunca, porém, se viu nascer uma nova profecia (repito deliberadamente essa metáfora que terá talvez chocado alguns) em razão de certos intelectuais modernos experimentarem a necessidade de mobiliar a alma com objetos antigos e portadores, por assim dizer, de garantia de autenticidade, aos quais acrescentem a religião, que aliás não praticam, simplesmente pelo fato de recordarem que ela faz parte daquelas antiguidades. Dessa maneira, substituem a religião por um sucedâneo com que enfeitam a alma como se enfeita uma capela privada, ornamentando-a com ídolos trazidos de todas as partes do mundo. Ou criam sucedâneos de todas as possíveis formas de experiência, aos quais atribuem a dignidade de santidade mística, para traficá-los no mercado de livros. Ora, tudo isso não passa de uma forma de charlatanismo, de maneira de se iludir a si mesmo.

É isso que acontece quando se quer dar à experiência religiosa um verniz de intelectualidade: falsificação. Ou bem se assume que a labuta intelectual impõe condições para o pensamento, ou corre-se o risco de tornar-se um charlatão intelectual, um mistificador de si mesmo. Como diz o post anterior, quando se usa a cátedra universitária – ou quando se usa a catédra, mesmo não estando ela na universidade – em favor de uma “visão política”, como a da tal guerra cultural, o pensamento se perde de sua vocação. Eu vi isso acontecer com alguns amigos ao ponto da comunicação tornar-se impossível. E sem volta. Uma pena.

Weber e o sacrifício do intelecto

O destino da nossa época, com a sua racionalização, intelectualização e, sobretudo, desencantamento do mundo, consiste justamente em que os valores últimos e mais sublimes desapareceram da vida pública e imergiram ou no reino trasmundano da vida mística, ou na fraternidade das relações imediatas dos indivíduos entre si. Não é um acaso que a nossa arte mais elevada seja, hoje, uma arte íntima e não monumental, ou que só no seio dos mais restritos círculos comunitários,de homem a homem, no pianissimo , pulse algo que corresponde ao que, noutro tempo, irrompia como pneuma profético, em fogo tempestuoso, no meio de grandes comunidades, fundindo-as. Se tentarmos forçar e “inventar” uma intenção artística monumental, surgirá então esse lamentável espantalho que assedia muitos monumentos dos últimos vinte anos. Se tentarmos excogitar novas formações religiosas, sem novas e autênticas profecias, despontará, no sentido interno, algo de semelhante, com consequências ainda piores. E a profecia de cátedra criará apenas seitas fanáticas, mas nunca uma autêntica comunidade. A quem não conseguir suportar virilmente o destino da nossa época há que dizer: Regresse, em silêncio, lhana e simplesmente, sem a habitual e pública propaganda dos renegados, aos amplos e compassivos braços das velhas Igrejas. Estas não lhe levantarão dificuldades. Seja como for, terá, desta ou de outra maneira, de fazer – é inevitável – o “sacrifício do intelecto”. Não o condenaremos, se tal efectivamente conseguir. Pois esse sacrifício do intelecto em prol da dedicação religiosa sem condições é eticamente muito diferente daquele rodeio do puro dever de probidade intelectual, que emerge quando alguém já não tem a coragem de se clarificar a si mesmo acerca da sua postrema tomada de posição, mas aligeira esse dever pelo recurso débil da relativização. Para mim, aquela dedicação é mais elevada do que a profecia de cátedra que não está interessada em saber que, no espaço de um auditório universitário, só deve existir uma virtude: a simples probidade intelectual. Mas ela obriga-nos a constatar que a situação de todos os que hoje esperam novos profetas e salvadores é a mesma que ressoa nessa bela canção da sentinela edomita, da época do exílio, recolhida nas profecias de Isaías:Uma voz me chega de Seir, em Edom:

“Sentinela, quanto durará ainda a noite?”

Responde a sentinela:

“Há-de chegar a manhã, mas ainda é noite. Se queres perguntar, volta de novo.”

O povo a quem isto foi dito perguntou e esperou durante mais de dois mil anos, e todos conhecemos o seu impressionante destino. Queremos daqui tirar uma lição: que não basta ficar à espera e almejar. Importa fazer algo mais. é necessário lançar-se ao trabalho e responder – como homem e de um modo profissional – à “exigência de cada dia”. Mas isto é simples e singelo, se cada qual encontrar o demónio que segura os cordelinhos da sua vida e lhe prestar obediência.

Tirando fumaça

Um amigo voltou de Cuba e me trouxe cerca de 25 charutos. Deliciosos. Acabei de fumar um Montecristo nº 5 ouvindo Monteverdi – “Pianto della Madonna”. Esta gravação aqui. Debaixo de um céu cintilante, nesta noite sem lua. Cheguei mesmo a surpreender uma estrela cadente em seu mergulho. Fiquei lá, no quintal, tirando fumaça e deixando o pensamento correr solto, como um gato num terreno baldio. Pura vagabundagem intelectual. Especulação e devaneio acompanhavam as revoluções diáfanas da fumaça.

A fumaça contém toda uma estética do efêmero, como as bolhas de sabão, embora aquela, ao contrário destas, excite também o paladar. Temo que, ao fim e ao cabo, tudo vá acabar em câncer; mas é um medo longínquo ainda, mera possibilidade. Não importa. Sem querer ser perverso, a própria idéia de que embrulhado neste prazer há um impulso de morte, de finitude, apenas o acentua mais, dá-lhe profundidade e textura. Se morri um pouco agora à noite, foi uma boa morte. Bela.

Desabafo

Leiam isso:

Pois o meu pai foi preso pelo seu regime, general. E você não ouse chamá-lo de criminoso, porque você não tem moral para isso. Ele tinha apenas 17 anos, e o seu crime foi escrever uma coluna sobre sindicatos no jornal. Foi preso por pessoas como você, sub-humanos que não merecem ser chamados de gente escondidos sob fardas militares, pessoas cujas mentiras só podem ser ouvidas hoje em dia porque a gente acaba tendo que compactuar com uma mídia ruim como essa; é o preço que pagamos pela democracia que vocês tentaram destruir e que, graças ao sacrifício desses que você hoje chama de criminosos, conseguimos recuperar.

O meu consolo, e o consolo de todos aqueles que vêm Leônidas Pires falar as besteiras que quer — talvez com a condescendência de que apenas velhos senis podem usufruir, mas que não é devida a nenhum integrante da ditadura militar –, é que no fim das contas nós ganhamos a guerra. Entendeu, general? Vocês perderam. Resta ao general de pijama Leônidas o peso de saber que foi a sua geração que destruiu o Exército Brasileiro, que o colocou em um patamar imoral e abaixo do papel histórico que ainda poderia cumprir. Foram vocês que transformaram soldados em torturadores e desgraçaram por muito tempo uma instituição nacional importante.

E por isso, senhor general, o senhor é apenas um derrotado com as mãos sujas. Morra com isso na sua consciência.

Esse desabafo é do Rafael Galvão. Ele comenta a entrevista do General Leônidas Pires Gonçalves ao jornalista Geneton Moraes Neto no programa Dossiê Globo News comemorativo aos 25 anos do golpe militar. Um pedaço da entrevista pode ser visto no próprio site do programa.

O que o Rafael diz é definitivo. A geração do General Leônidas destruiu a credibilidade do exército ao patrocinar um golpe de Estado e instalar uma ditadura militar no País. No vídeo o general diz se orgulhar do “faro” dos militares e justifica suas ações com o argumento de que elas impediram uma provável ditadura comunista no Brasil. O General não sabe, obviamente, a diferença entre lógica e uma ficção qualquer criada para apaziguar a consciência. É simplesmente impossível fundamentar o que é naquilo que poderia ter sido. Essa história vale apenas como apresentação de motivos (assim como o comunista russo pode argumentar que estava tentando criar um mundo melhor). Ela não torna mais razoável o que os militares fizeram, sua truculência, estupidez e incompetência. Ao final. entregaram um país pior do que aquele que encontraram. Isso é fato. Neste particular a esquerda, agora no poder, está dando um banho de competência e dentro de um regime democrático no qual até pessoas como o General podem falar o que quizerem, expondo-se ao ridículo sem qualquer censura. E disso eles, os militares daquela geração, foram incapazes. Triste.

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