Rápidas vespertinas

– Estou um tanto ocupado com a organização de uma mostra sobre o cinema de terror e fantástico aqui na UFG. Em breve publico a programação.

– Ao mesmo tempo comecei a dar aulas no mestrado. É bom poder aprofundar alguns temas importantes para a moçada da pós, sem querer diminuir os passeios teóricos cheios de alegria da graduação. Ir fundo tem suas vantagens.

– E olha o que eu encontrei num texto do Eagleton sobre cultura:

Elevar a cultura acima da política – ser homens primeiro e cidadãos depois – significa que a política deve se mover para uma dimensão ética mais profunda, valendo-se dos recursos da Bildung e transformando indivíduos em cidadãos apropriadamente responsáveis e de boa índole. Essa é, embora em um nível um pouco mais alto, a retórica das aulas de Educação Cívica. No entanto, uma vez que “humanidade”, aqui, significa uma comunidade livre de conflitos, o que está em jogo não é apenas a prioridade da cultura sobre a política, mas sobre um tipo particular de política. A cultura, ou o Estado, são uma espécie de utopia prematura, abolindo a luta em um nível imaginário a fim de não precisar resolvê-la em um nível político. Nada poderia ser menos politicamente inocente do que um denegrecimento da política em nome do humano. Aqueles que proclamam a necessidade de um período de incubação ética para preparar os homens e mulheres para a cidadania política são também aqueles que negam a povos colonizados o direito de autogovernar-se até que sejam “civilizados” o suficiente para exercê-lo responsavelmente. Eles desprezam o fato de que, de longe, a melhor preparação para a independência política é a independência política.

Boa votação no domingo!

Petrarca e a retórica do vitupério

Dando continuidade a minha pesquisa sobre retórica, comunicação e tecnologia comecei a ler alguma coisa de Petrarca. Não comecei, porém, pelos poemas ou por seus estudos filológicos, mas pelas invectivas. A edição é da Harvard University Press e, caso alguém se interesse, pode ser adquirida aqui. Neste volume estão incluídas as invectivas Contra um médico, Contra um homem de alta patente sem conhecimento ou virtude, Contra um detrator da Itália e um opúsculo Sobre a própria ignorância e de muitos outros.

De todos eles o último que citei é o melhor porque oferece uma visão panorâmica da biografia intelectual de Petrarca, obviamente um tanto floreada pela beleza austera da humildade, se me permitem aí uma destrambelhada tentativa de oxímoro. Nas outras aparece um humanista muito diferente. O que mais chama a atenção é o tom abertamente vulgar e raivoso das injúrias dirigidas aos seus desafetos. Já é fato estabelecido que a retórica renascentista lançou mão pesadamente da ironia contra a escolástica medieval. Parte da “novidade” estava, também, na vulgaridade. Enquanto as disputatios medievais procuravam manter certa consciência aristocrática nos modos e nos termos, os renascentistas usavam analogias chulas sem o menor pudor. Isto se dava porque seu objetivo era desconstruir uma tradição de racionalidade estabelecida há séculos, engessada pelo rigor excessivo e respeito à divindade. Nisto reside também algo da genialidade dos humanistas: mais próximos da cotidianidade da vida e dos negócios, inseridos num contexto socio-econômico em emergência, no qual a vida citadina tornava-se paulatinamente tão relevante quanto as revoluções da corte e do clero; sua retórica apelava também a uma racionalidade mais mundana e menos divina ou aristocrática.

Petrarca costumava insultar seus desafetos a partir de três tópicos: a estupidez humana e a loucura; as características e comportamentos animais e as substâncias repugnantes, tais como urina, vômito, etc. Nada daquele cândido poeta apaixonado por sua Laura. Eis um trecho do livro I de Contra um médico.

Even though I am no physician and lack dialetic, I shall show you the cause of your pallor. Even agaist your will, you shall realize that this is true. You move in dark, livid, fetid, and pallid places. You rummage around in sloshing chamber-pots. You exame the urine of the sick. You think about gold. Is it any wonder if in the midst of pallid, dark, and shallow places you yourself become pallid, dark and shallow? If the wisest partiarch´s flock changed color when it was exposed to mottled branches, is it strange that the same thing happens to you? You´re waiting for me to say that your color comes from gold. No, it comes from what you are exposed to.

I have spoken at great length, and would rather have been silent. But the subject demands its true name which may be tolerated here a single time – a name which is often found in the Holy Scriptures. I say that your color, smell and taste come from the stuff to which you are exposed – shit.

Quem imaginaria, antes de Petrarca, poder associar num mesmo parágrafo as Sagradas Escrituras e a palavra merda de modo tão, como direi, orgânico, numa discussão por escrito? Ainda mais, como era o caso, dirigida a um dos médicos do Papa Clemente IV? A medida em que a racionalidade escolástica entra em declínio, uma nova noção de retórica emerge nos combates humanistas. Esta noção será duramente criticada pelos iluministas, que verão nela apenas um conjunto de estratégias de convencimento, o que provocará seu declínio juntamente com a dialética própria à escolástica.

Tudo isso é muito interessante e coisa e tal. Porém o que me chamou imediatamente a atenção nas invectivas de Petrarca foi a semelhança da sua retórica do vitupério com o texto de alguns articulistas, jornalistas e, porque não?, filósofos por aí. Infelizmente eles aprenderam apenas o mais superficial da querela entre escolásticos e humanistas, se é que leram alguma coisa. E não estão lutando contra uma tradição de pensamento altamente sofisticada, o que justificaria lançar mão de um expediente tão arriscado. Ao contrário de Petrarca, sua baixaria é alimentada pelo ressentimento e pela ignorância.  Dito de outro modo, para eles este não é apenas um tropo retórico, uma estratégia discursiva: é a tonalidade afetiva que lhes define a alma. Eles são aquilo ao qual estão expostos diariamente, seja nas redações ou na Internet…

Ainda sobre o “sacrifício do intelecto”

Se tivesse atentado para este trecho de A ciência como vocação antes, teria sido mais claro com um amigo e o teria feito ver seu erro. É exatamente como diz o trecho abaixo.

Só o discípulo faz legitimamente o “sacrifício do intelecto” em favor do profeta, como só o crente o faz em favor da Igreja. Nunca, porém, se viu nascer uma nova profecia (repito deliberadamente essa metáfora que terá talvez chocado alguns) em razão de certos intelectuais modernos experimentarem a necessidade de mobiliar a alma com objetos antigos e portadores, por assim dizer, de garantia de autenticidade, aos quais acrescentem a religião, que aliás não praticam, simplesmente pelo fato de recordarem que ela faz parte daquelas antiguidades. Dessa maneira, substituem a religião por um sucedâneo com que enfeitam a alma como se enfeita uma capela privada, ornamentando-a com ídolos trazidos de todas as partes do mundo. Ou criam sucedâneos de todas as possíveis formas de experiência, aos quais atribuem a dignidade de santidade mística, para traficá-los no mercado de livros. Ora, tudo isso não passa de uma forma de charlatanismo, de maneira de se iludir a si mesmo.

É isso que acontece quando se quer dar à experiência religiosa um verniz de intelectualidade: falsificação. Ou bem se assume que a labuta intelectual impõe condições para o pensamento, ou corre-se o risco de tornar-se um charlatão intelectual, um mistificador de si mesmo. Como diz o post anterior, quando se usa a cátedra universitária – ou quando se usa a catédra, mesmo não estando ela na universidade – em favor de uma “visão política”, como a da tal guerra cultural, o pensamento se perde de sua vocação. Eu vi isso acontecer com alguns amigos ao ponto da comunicação tornar-se impossível. E sem volta. Uma pena.

Weber e o sacrifício do intelecto

O destino da nossa época, com a sua racionalização, intelectualização e, sobretudo, desencantamento do mundo, consiste justamente em que os valores últimos e mais sublimes desapareceram da vida pública e imergiram ou no reino trasmundano da vida mística, ou na fraternidade das relações imediatas dos indivíduos entre si. Não é um acaso que a nossa arte mais elevada seja, hoje, uma arte íntima e não monumental, ou que só no seio dos mais restritos círculos comunitários,de homem a homem, no pianissimo , pulse algo que corresponde ao que, noutro tempo, irrompia como pneuma profético, em fogo tempestuoso, no meio de grandes comunidades, fundindo-as. Se tentarmos forçar e “inventar” uma intenção artística monumental, surgirá então esse lamentável espantalho que assedia muitos monumentos dos últimos vinte anos. Se tentarmos excogitar novas formações religiosas, sem novas e autênticas profecias, despontará, no sentido interno, algo de semelhante, com consequências ainda piores. E a profecia de cátedra criará apenas seitas fanáticas, mas nunca uma autêntica comunidade. A quem não conseguir suportar virilmente o destino da nossa época há que dizer: Regresse, em silêncio, lhana e simplesmente, sem a habitual e pública propaganda dos renegados, aos amplos e compassivos braços das velhas Igrejas. Estas não lhe levantarão dificuldades. Seja como for, terá, desta ou de outra maneira, de fazer – é inevitável – o “sacrifício do intelecto”. Não o condenaremos, se tal efectivamente conseguir. Pois esse sacrifício do intelecto em prol da dedicação religiosa sem condições é eticamente muito diferente daquele rodeio do puro dever de probidade intelectual, que emerge quando alguém já não tem a coragem de se clarificar a si mesmo acerca da sua postrema tomada de posição, mas aligeira esse dever pelo recurso débil da relativização. Para mim, aquela dedicação é mais elevada do que a profecia de cátedra que não está interessada em saber que, no espaço de um auditório universitário, só deve existir uma virtude: a simples probidade intelectual. Mas ela obriga-nos a constatar que a situação de todos os que hoje esperam novos profetas e salvadores é a mesma que ressoa nessa bela canção da sentinela edomita, da época do exílio, recolhida nas profecias de Isaías:Uma voz me chega de Seir, em Edom:

“Sentinela, quanto durará ainda a noite?”

Responde a sentinela:

“Há-de chegar a manhã, mas ainda é noite. Se queres perguntar, volta de novo.”

O povo a quem isto foi dito perguntou e esperou durante mais de dois mil anos, e todos conhecemos o seu impressionante destino. Queremos daqui tirar uma lição: que não basta ficar à espera e almejar. Importa fazer algo mais. é necessário lançar-se ao trabalho e responder – como homem e de um modo profissional – à “exigência de cada dia”. Mas isto é simples e singelo, se cada qual encontrar o demónio que segura os cordelinhos da sua vida e lhe prestar obediência.

Tirando fumaça

Um amigo voltou de Cuba e me trouxe cerca de 25 charutos. Deliciosos. Acabei de fumar um Montecristo nº 5 ouvindo Monteverdi – “Pianto della Madonna”. Esta gravação aqui. Debaixo de um céu cintilante, nesta noite sem lua. Cheguei mesmo a surpreender uma estrela cadente em seu mergulho. Fiquei lá, no quintal, tirando fumaça e deixando o pensamento correr solto, como um gato num terreno baldio. Pura vagabundagem intelectual. Especulação e devaneio acompanhavam as revoluções diáfanas da fumaça.

A fumaça contém toda uma estética do efêmero, como as bolhas de sabão, embora aquela, ao contrário destas, excite também o paladar. Temo que, ao fim e ao cabo, tudo vá acabar em câncer; mas é um medo longínquo ainda, mera possibilidade. Não importa. Sem querer ser perverso, a própria idéia de que embrulhado neste prazer há um impulso de morte, de finitude, apenas o acentua mais, dá-lhe profundidade e textura. Se morri um pouco agora à noite, foi uma boa morte. Bela.

Desabafo

Leiam isso:

Pois o meu pai foi preso pelo seu regime, general. E você não ouse chamá-lo de criminoso, porque você não tem moral para isso. Ele tinha apenas 17 anos, e o seu crime foi escrever uma coluna sobre sindicatos no jornal. Foi preso por pessoas como você, sub-humanos que não merecem ser chamados de gente escondidos sob fardas militares, pessoas cujas mentiras só podem ser ouvidas hoje em dia porque a gente acaba tendo que compactuar com uma mídia ruim como essa; é o preço que pagamos pela democracia que vocês tentaram destruir e que, graças ao sacrifício desses que você hoje chama de criminosos, conseguimos recuperar.

O meu consolo, e o consolo de todos aqueles que vêm Leônidas Pires falar as besteiras que quer — talvez com a condescendência de que apenas velhos senis podem usufruir, mas que não é devida a nenhum integrante da ditadura militar –, é que no fim das contas nós ganhamos a guerra. Entendeu, general? Vocês perderam. Resta ao general de pijama Leônidas o peso de saber que foi a sua geração que destruiu o Exército Brasileiro, que o colocou em um patamar imoral e abaixo do papel histórico que ainda poderia cumprir. Foram vocês que transformaram soldados em torturadores e desgraçaram por muito tempo uma instituição nacional importante.

E por isso, senhor general, o senhor é apenas um derrotado com as mãos sujas. Morra com isso na sua consciência.

Esse desabafo é do Rafael Galvão. Ele comenta a entrevista do General Leônidas Pires Gonçalves ao jornalista Geneton Moraes Neto no programa Dossiê Globo News comemorativo aos 25 anos do golpe militar. Um pedaço da entrevista pode ser visto no próprio site do programa.

O que o Rafael diz é definitivo. A geração do General Leônidas destruiu a credibilidade do exército ao patrocinar um golpe de Estado e instalar uma ditadura militar no País. No vídeo o general diz se orgulhar do “faro” dos militares e justifica suas ações com o argumento de que elas impediram uma provável ditadura comunista no Brasil. O General não sabe, obviamente, a diferença entre lógica e uma ficção qualquer criada para apaziguar a consciência. É simplesmente impossível fundamentar o que é naquilo que poderia ter sido. Essa história vale apenas como apresentação de motivos (assim como o comunista russo pode argumentar que estava tentando criar um mundo melhor). Ela não torna mais razoável o que os militares fizeram, sua truculência, estupidez e incompetência. Ao final. entregaram um país pior do que aquele que encontraram. Isso é fato. Neste particular a esquerda, agora no poder, está dando um banho de competência e dentro de um regime democrático no qual até pessoas como o General podem falar o que quizerem, expondo-se ao ridículo sem qualquer censura. E disso eles, os militares daquela geração, foram incapazes. Triste.

Deus e finitude em Bergman

O texto abaixo foi publicado dia 19 de março no jornal O Popular. No mesmo dia participei de um debate sobre a obra de Bergman com meus amigos Leon Rabelo e Carlos Afonso Rabelo. Depois ainda estiquei a noite com uma cervejinha com meus irmãos e com mais dois amigos, o Salvio Juliano e a Rute Guedes. Cinema, amizades e temas relevantes. É a vida.

Deus e finitude em Bergman
(começou a mostra de filmes no Cine-UFG)

Em mais de uma oportunidade, Bergman deixou claro que seu processo criativo derivava de suas experiências mais pessoais. Sua obra é quase sempre um desdobramento de sua interioridade. Quando Através do Espelho ganhou a Palma de Ouro em Cannes, Bergman ganhou completa autonomia criativa na Svensk Filmindustri. No excelente documentário de Marie Nyreröd, A Ilha de Bergman, ele relata a sensação de solidão que tal autonomia provocara. Ele não mais precisava prestar contas a ninguém, porém, ao mesmo tempo, não recebia críticas ou era obrigado a justificar posições estéticas. A solidão era uma elemento essencial de sua arte.

Dentre os temas absolutamente pessoais que atravessam a filmografia do diretor sueco, a tensão entre fé e razão, entre Deus e a finitude, ocupa um lugar bastante pronunciado. Bergman era filho de pastor luterano e foi criado à luz de um ethos bastante rígido e disciplinador. Deste conflito pessoal que mistura tão intensamente a figura de Deus à autoridade paterna, surgiram os três filmes que a fortuna crítica apelidou de trilogia da fé: Através do Espelho, Luz de Inverno e O Silêncio. Em muitos aspectos a trilogia se apresenta como um percurso íntimo que vai desde a crença no amor cristão até o vislumbre de um mundo condenado à liberdade absoluta.

Em Através do Espelho uma família acompanha, às vezes com curiosidade, às vezes com verdadeiro horror, a progressão inexorável da doença mental de um de seus membros. Bergman, cuja formação acadêmica em teatro transparece em todos os seus filmes, principalmente na cuidadosa mise-en-scène e no denso trabalho de atuação, compõe um quadro de progressiva desolação existencial. O desespero se avoluma, aos poucos, a medida em que a personagem principal vai desaparecendo em seus delírios. Aqui aparece, pela primeira vez na trilogia, uma imagem recorrente de Deus como uma horrenda aranha. Em meio à devastação existencial, numa bela cena final entre pai e filho, a noção do amor cristão retorna como possível solução, embora não seja abraçada com alegria. Isso, na verdade, é significativo: quando fala em Deus, Bergman muito dificilmente apela para a alegria. A grande exceção, claro, é O Sétimo Selo, de 1957, ou seja, alguns anos antes da trilogia.

Se Através do Espelho caminha para um ceticismo resignado, em Luz de Inverno já não resta esperança. Novamente a figura do pai é espelhada num pastor luterano em plena crise de fé. Sua congregação, antes cheia de fiéis, resume-se a uns poucos e bravos remanescentes. Crianças cochilam durante a celebração. Bergman filma o culto como se estivesse filmando um teatro, deixando propositadamente transparecer o elemento ficcional da comunhão e a ação do pastor é a mesma de um autômato cumprindo rotinas pré-determinadas.

Também aqui a noção de um Deus aracnídeo aparece para caracterizar a relação do pastor com Deus. Nem o amor, representado pela figura de uma professora primária, consegue atravessar o desespero de um mundo abandonado por Deus. A cena na qual o pastor nega seu amor pela professora é absurdamente cruel. Contra a paisagem gélida e branca, a solidão é algo que se pode quase pegar com as mãos.

Já em O Silêncio, Bergman procura retratar um mundo no qual a ideia de Deus já não vigora. O foco narrativo concentra-se nas figuras de duas irmãs e um menino, perdidos num imenso hotel virtualmente deserto. Ao contrário dos outros dois filmes, nos quais há uma estrutura narrativa bastante clara, O Silêncio parece mais uma colagem de situações relativas, principalmente, à sexualidade. Bergman parece dizer que uma vez livre de Deus, a humanidade desloca seu centro de gravidade para o corpo e, nele, especificamente para o sexo. O tema de homossexualidade é bastante explorado, principalmente na relação entre as duas irmãs, embora de maneira graficamente discreta. Em certo sentido, tanto no que se refere ao tema quanto no que se refere ao modo de filmar, O Silêncio se aproxima bastante de Persona.

Mas Bergman não é um diretor proselitista, ou seja, ele não faz propaganda de suas certezas. Seu modo de filmar a tensão entre fé e descrença vê sua própria história pessoal com certa beleza e acídia. Embora na trilogia ele se afaste da visão benévola da existência contida em O Sétimo Selo – até mesmo da existência mediada pela arte – ainda assim a superação do Deus aracnídeo, que concebe suas teias para que o homem se debata sem esperança, nos abre o horizonte da existência humana como a única e possível morada do belo. Uma beleza acessível apenas na solidão. Em outras palavras, o mundo destituído de Deus ainda pode ser belo. Belo e solitário.

O Papa pede desculpas

E se diz envergonhado. Eu diria: é o mínimo. Mas na verdade interessa pouco o que o Papa fala, porque fala apenas para os católicos, que deveriam envergonhar-se de sua Igreja. O que interessa, de verdade, é a punição secular dos criminosos. São bandidos ou doentes mentais. Devem ir para a cadeia, na Irlanda ou aqui. Felizmente a maioria dos religiosos que conheço não é assim. Muito pelo contrário, são exemplos, gente do melhor caráter. Neste particular são como os esquerdistas que eu conheço. Honestos, divertidos, responsáveis. É por isso – por conta das pessoas que eu conheço de verdade – que eu nunca caí no conto do vigário dos vagabundos apocalípticos da direita rastaquera: a tal guerra cultural pela "alma" da civilização ocidental. Defender esse negócio na Internet é coisa de desocupado.

Rápidas da madrugada

  • A coisa está pegando fogo no blog do Sakamoto em virtude de um post comentando o infeliz discurso do senador Demóstenes Torres sobre as cotas. Rapidamente a caixa de comentários virou um ping-pong entre comentadores acusando-se mutuamente de racismo. O que deu para entender é que tanto quem defende quanto quem critica o sistema de cotas é racista. Mas nem todos são atormentados pelo bom senso.
  • O Cine UFG exibirá uma série de filmes do Ingmar Bergman – na minha opinião um dos poucos cineastas que melhor entenderam o conflito religioso contemporâneo. Eu, meu amigo Leon e seu irmão Carlos Afonso faremos um debate dia 19/03 às 17:30, após a exibição de "Depois do ensaio". Apareça.
  • Este semestre estou dando aulas de filosofia novamente. É sempre bom rever velhos temas açodados pelas leituras mais urgentes em Comunicação. Na verdade, é um alívio depois do doutorado.
  • Estou jogando Bioshock 2 no Xbox 360. Belos cenários, bela ambientação – a cidade de Rapture é simplesmente fantástica – e algumas mudanças na jogabilidade. O modo como a introdução dos scripts (Half-Life) ajuda a contar uma história num ambiente interativo revolucionou os jogos em primeira pessoa. A sensação de imersão é bem palpável, particularmente nos "efeitos-espelho". Os estudos sobre videogames são uma área de pesquisa que vale a pena investigar mais a fundo. Há experiências igualmente interessantes na literatura, cf. O jogo da amarelinha do Cortázar.

Um belo texto sobre como fazer bons trabalhos acadêmicos

O Henry Farrell, do Crooked Timber, escreveu um pequeno manual sobre como redigir bons trabalhos em ciência política. Subscrevo totalmente o texto do cara. Nós, professores, perdemos um tempo dos diabos corrigindo trabalhos mulambos. Se eu, ou qualquer outro professor, pedimos um paper sobre determinado assunto para ser entregue até o final do semestre e valendo nota, não queremos apenas que você nos mostre sua capacidade de utilizar o Google adequadamente. Queremos saber, de verdade, se você tem ou não capacidade para organizar o pensamento num nível intelectual um pouco acima do convencional para meninos de 12 anos. Sério. Você pode não acreditar, querido gafanhoto, mas esta habilidade cognitiva será essencial na sua vida profissional – começando pelo fato de que, sem ela, você não consegue o diploma e, daí, nem vida profissional você terá.

O par perfeito para o artigo do Farrell é este post do John Macready, do sempre instigante The Relative Absolute. Nele o John se esforça para ensinar a moçada a produzir um paper filosófico digno desta velha senhora. Neste início de semestre, sugiro ler atentament os textos. Junho não está tão longe assim, viu moçada?!?!