Maritain e o humanismo
Fui ao cinema com um amigo e, depois do filme, no restaurante japonês do Flamboyant (“caro pra dedéu”, como diz meu filho), conversamos um pouco sobre a relevância de certas amizades e, no limite, sobre as pessoas que cruzam nosso caminho durante a vida. Falei da minha admiração pelo Velho. Na verdade não dou nome aos bois porque o Velho detestaria ver-se associado com qualquer coisa pública. Ainda mais com um blog.
Eu e o Velho conversamos muito sobre o homem e sobre Deus. Só converso essas coisas com ele e outros poucos. Em primeiro lugar porque, além de velho, ele é sábio. Ao contrário de uns amigos que tenho, cuja religião é um bicho todo próprio, feito sob encomenda para esconder – e não revelar – a verdade mais profunda sobre si mesmos; ele ouve com atenção e destrói minhas teses com humor que me faz rir da minha própria ignorância.
Foi ele quem me sugeriu a leitura de Jacques Maritain. A direita bisonha adora elogiar um Mário Ferreira dos Santos ou um Olavo de Carvalho. Pfiu!!! Leiam Maritain. Em 1936 publicou Humanismo Integral a partir de um curso dado em 1934 na Universidade de verão de Santander, na Espanha. Sua obra foi citada por Paulo VI como referência na discussão sobre o humanismo católico. É, talvez, o principal nome da neo-escolástica (corrente na qual surgiram inúmeras idéias hoje esposadas pela direita, sem que ela saiba muito bem o motivo). Uma delas – entre tantas – é a divisão do humanismo entre antropocêntrico e teocêntrico e a hermenêutica histórica que acompanha tal divisão. Estão aí os temas da “tragédia do humano”, “reabilitação entropocêntrica da criatura”, “humanismos totalitários”, etc. Um exemplo:
A catástrofe da Idade Média abre assim o tempo do humanismo moderno. A dissolução irradiante da Idade Média e de suas formas sacrais é a germinação de uma civilização profana, – não somente profana, mas que se separa progressivamente da Incarnação. É sempre, se se quiser, a era do Filho do homem: mas em que o homem passa do culto do Homem-Deus, do Verbo feito homem, ao culto da Humanidade, do Homem puro.
Ele está certo, embora eu discorde da visada – um tanto catastrófica. Mas o erro dele é profícuo e não estéril, como é o caso com o Olavo de Carvalho. Porque a argumentação de Maritain atrai o intelecto, estando você a favor ou contra a tese. É racional, profunda e bela. Como quando ele fala da relação entre graça e liberdade. Além disso, não há intelectual melhor para nos ajudar a compreender o pensamento cristão (ou a “filosofia cristã” como gostava de chamá-la Lima Vaz).
Para o pensamento medieval, o homem era também uma pessoa; e se deve notar que esta noção, se eu posso dizer, de índice cristão, que se desembaraçou e precisou graças à teologia. Uma pessoa é um universo de natureza espiritual dotado de liberdade de escolha e constituindo, portanto, um todo independente em face do mundo, não podendo nem a natureza nem o Estado tocar este universo sem a sua permissão. E Deus mesmo, que está e age no seu íntimo, age de um modo particular e com uma delicadeza particularmente preciosa, que patenteia a importância que lhe dá: respeita sua liberdade, no coração da qual habita entretanto; solicita-a, e jamais a obriga.
E ademais, em sua existência concreta e histórica, o homem, para o pensamento medieval, não era um ser simplesmente natural. É um ser deslocado, ferido, – pelo diabo que o toca de concupiscência, por Deus que o marca de amor. De um lado, carrega a herança do pecado original, nasce despojado dos dons da graça, e, se bem que não sem dúvida substancialmente corrompido, é ferido em sua natureza. Doutro lado, é ferido para um fim sobrenatural: ver a Deus como Deus se vê; é feito para atingir à vida mesma de Deus; é atravessado pelas solicitações da graça atual, e se não opõe a Deus seu poder de recusa, é portador, desde a terra, da vida propriamente divina da graça santificante e de seus dons.
A esquerda que despreza a herança intelectual do cristianismo em nome de um materialismo dogmático deve ser confinada na mesma cela manicomial da direita bisonha. A definição de pessoa no trecho acima completa perfeitamente a noção de ação racional da economia, dando-lhe um lastro humanista muito claro. Ademais, a idéia de que Deus nos “fere” com seu amor – tanto quanto o diabo com a concupiscência – é luminosa, principalmente porque não coloca Deus e o diabo no mesmo patamar, apenas nos deixa entrever a essência da nossa confusão: sentimos o apelo de ambos de modo parecido. Mesmo sendo ateu ou agnóstico, você há de convir que o tema da dor é universalmente humano e esta elaboração, no mínimo, ajuda-nos a compreender como o fenômeno foi trabalho na Idade Média. Acima de tudo é preciso saber contra quem lutamos, se queremos algum dia ir além da própria luta.
Sobre mercados, supermercados e hipermercados
Quando eu nasci o Supermercado Marcos era apenas uma frutaria. Logo tornou-se pouco mais do que um mercadinho de Secos e Molhados, como se dizia na época; frequentado, antes do almoço, por mães apressadas e, depois, por meninos viciados em açucar e pipas.
Quando eu estava com 10 anos – e de vez em quando ouvia Michael Jackson -, embora ainda não houvesse se expandido numa rede de lojas como hoje, já era considerado o Supermercado do bairro; uma referência para as pessoas explicarem seus endereços residenciais. “Olha, fica ali nos fundos do Marcos”.
Para mim o Marcos era simplesmente parte da paisagem. Um lugar que minha mãe me obrigava a ir “comprar pão” para o lanche. Onde comprávamos nossas Havaianas e algumas camisetas Hering para o dia-a-dia, além do sempre indispensável “massodetomate”. O Marcos, como todo mercado, era um lugar sempre frequentado mas quase nunca relevante, como a rua, por exemplo, ou a Igreja, ou mesmo a praça. Nele as pessoas se encontravam e se reconheciam, mas nunca conviviam verdadeiramente. Era um lugar de passagem, no qual todos andavam apressados com alguma responsabilidade maior a lhes cutucar pelas costas, forçando-os a ir mais depressa. Bastava que fosse conveniente, ou seja, estivesse aberto e disponível quando necessário.
Mas isso mudou (pelo menos para mim e meus amigos) quando eles inventaram a Pérola Negra . O que era isso? Um brigadeiro do tamanho de uma bola de tênis, feito com tudo quanto é tipo de sobra de bolo do dia anterior, misturado com quantidades generosas de Toddy ou Nescau e coberto com chocolate granulado. Néctar dos deuses para crianças hiperativas com 12 ou 13 anos. Alguns amigos iam até a sorveteria Triângulo, pegavam um carrinho de picolé, vendiam durante o dia e, com o lucro, compravam a Pérola Negra. Depois sentávamos no meio-fio – imundos, loquazes e felizes – para saborear o doce, tal qual papagaios no pé de jerivá.
A partir de então o Supermercado tornou-se um ponto de encontro. Ficávamos na porta esperando os atrasados chegarem para entrarmos todos juntos, galopar em direção à padaria, e dar de cara com o sorriso maroto da atendente, resposta mais do que adquada à transparência do nosso desejo. Que bom que o Marcos existia!
Não muito mais tarde parte dessa meninada arrumou emprego lá. Eram, em sua maioria, empacotadores, mas alguns fizeram carreira e rapidamente alcançaram cargos de superintendência. O Marcos crescia, ficava mais super. Com isso também adotaram uma política de recursos humanos mais moderna e construíram uma área de lazer sobre a loja, com piscina e quadra de futebol de salão. Que bom que o Marcos existia! Todo fim-de-semana nos reuníamos para jogar bola, o acesso ao “clube” franqueado pelo amigo superintendente. O melhor dia foi quando choveu e a quadra, sem um bom sistema de escoamento, começou a parecer uma segunda piscina. Não demorou para o futebol virar uma espécie de rugbi, quase pólo aquático.
E o Marcos rapidamente deixou de ser super e começou a ser hiper, embora a loja da Fama continuasse pequena. Mas aí meus interesses não estavam mais no meu bairro e sim em coisas maiores, universais. Só notei o crescimento quando fizeram uma enorme reforma, destruindo os últimos resquícios arquitetônicos da minha infância supermercadológica. Mas o Marcos crescia e eu considerava isso bom.
Este ano um grande investimento do grupo foi tragado pela crise mundial e a rede ficou sem dinheiro para manter a operação. Os produtos foram sumindo das prateleiras, a reposição não acontecia por conta das dívidas crescentes com os fornecedores (mais de 200) e os refrigeradores foram sendo progressivamente desligados. Há alguns dias uma equipe do Carrefour foi inspecionar a loja, estudando a possibilidade de aquisição. A boataria disparou na região. Semana passada uma matéria de página inteira no Popular informou que o grupo já vendeu 4 lojas e demitiu quase 500 funcionários.
Anteontem fui lá tentar comprar alguma coisa. Muitas prateleiras foram retiradas, a padaria está desativada – assim como o açougue, a peixaria e a seção de hortifruti – e há espaço demais para tão pouco macarrão. Não estão vendendo nenhum tipo de cerveja ou refrigerante e há apenas um caixa funcionando. Tentei colar sobre a loja minhas recordações de como era o Marcos na década de 80. Andei como um caduco medindo passos e olhando cantos, tentando lembrar onde ficava a escada para a quadra de futebol ou o bazar. Mas o mercado não cabe mais no hipermercado, quero dizer, o Marcos de antes ficou grande demais para os espaços vazios de hoje. Assim como o próprio bairro vai se impessoalizando em confecções (para quem conhece a região eu diria: vai se campinizando!), o Marcos se impessoalizou em sua hipermercadologização. Ele voltou, por força do próprio movimento de expansão, inevitável e natural, a ser meramente conveniente. Não é essa conveniência que eu reclamo perder se o lugar fechar definitivamente, mas o lugar das minhas memórias, a Pérola Negra e o futebol. Na verdade o que me dói é que eu também me impessoalizei quando cresci. Minha alma ganhou a amplitude necessária ao custo deste mundo íntimo que sempre foi meu estar no mundo. Ou por outras, não me reconheço mais no bairro onde eu nasci e vivo até hoje. E isso não é bom porque as memórias habitam certos espaços e precisam deles para durar.
Quando eu tinha 13 anos subi no telhado de casa e tirei uma foto do horizonte. Era meu horizonte de menino. Embora o horizonte ainda se encontre exatamente no mesmo lugar já não o reconheço.
Não me agrada nem um pouco esse tipo especial e necessário de Alzheimer.
Armadilhas do comentário político
É…Tio Rei finalmente pisou na bola e esposou a tese do governo mundial. É o modo como eu meço a sanidade dos intelectuais de imprensa – aquele pessoal com envergadura teórica suficiente para umas 30 linhas de texto. Acusou o complô mundial, é hora de checar se todos os parafusos estão no lugar.
A tese é um resquício da guerra fria. Supõe-se que a criação de fóruns internacionais poderia minar a soberania constitucional de um país ou região. Como se a ONU – império das ongs – tivesse força maior do que a soma de seus integrantes para impor decisões sobre países. Honduras entra na dança como exemplo sulamericano: Brasil, Venezuela, OEA estariam decidindo os rumos políticos do país, interferindo em sua soberania como manda o manual da internacional comunista.
Claro, tudo isso só faz sentido se imaginarmos que o golpe não foi golpe. Caso haja uma ditadura – como em Cuba – os organismos internacionais estão moralmente obrigados a se posicionar, mesmo que apenas discursivamente. E a crítica, lógico, é de que não fazem. Daí vem o corolário: eles querem nos dominar!
E foi golpe em Honduras? Aí a coisa fica nebulosa – principalmente para a direita anaeróbica. Digo isso porque a defesa da Constituição – qualquer uma – está baseada em valores aos quais esta constituição adere. Tais valores são o critério até mesmo para julgá-la. Quando se defende a Constituição por si mesma, independentemente dela abraçar ou não tais valores, apela-se ao cinismo mais deslavado, porque flexibiliza-se as convicções. A deposição de um presidente eleito passa a ser justificável, porque a constituição o permite, mesmo que os valores fundamentais que deveriam ser o objeto da própria constituição sejam negados ao se fazer valer a constituição. Uma constituição, como mostra o próprio Tio Rei, que exclui qualquer mecanismo de modificação. Ninguém que use o termo lógica conhecendo seu significado pode defender tal posição.
O que está em jogo é o nós contra eles. Basta ver quem se alinha com Zelaya para se entender porque é tão horrível pensar na volta do presidente deposto ao poder. O que irrita é a petulância de se passar por paladino da racionalidade. E o cara gostou tanto da brincadeira – ou, sei lá, seus leitores mais sibilantes o convencenram de que estava certo – que já pediu a cabeça do Celso Amorim recorrendo a uma falácia parecida. Onde está a falácia? No fato de que ele não é capaz de provar que a regra geral se aplica ao caso específico. Simples assim.
Eu, O Popular e alguns ajustes
O jornal O Popular sai hoje com uma matéria sobre as eleições na Internet na qual fui uma das principais fontes. A gente nunca sabe como vai ficar, depois de filtrada pelo jornalista, uma entrevista longa concedida por telefone. A repórter Núbia Lobo – que trabalhou comigo no Diário da Manhã – fez um bom trabalho, mas se confundiu em algumas partes que eu gostaria de esclarecer.
Em primeiro lugar a linguagem. Uma conversa por telefone é sempre eivada de termos coloquiais, expressivos e até, quando é o caso, alguns palavrões. Mas a transcrição destes termos, no contexto do assunto, deixa entrever certa informalidade um tanto inadequada. Parece que o entrevistado não tratou do tema com muito cuidado nem refletiu bastante sobre a questão. Não é o meu caso. A Internet é um tema relevante para mim há algum tempo. Na verdade, não apenas a Internet, mas toda a relação entre o homem e a tecnologia. Nota mental: cuidado com a linguagem quando falar a um jornalista por telefone!
Em segundo lugar, o conteúdo. Este trecho foi o que mais me preocupou, porque reuniu muita coisa ao mesmo tempo.
O problema está justamente na característica de liberdade de expressão da rede, onde não é possível o controle no fluxo de informações. “Um gráfico de dispersão de informações sobre a gripe suína e a morte do cantor Michael Jackson mostra que muitos posts começaram em páginas eletrônicas pessoais e, quando pegaram nódulos de entrocamento com grandes portais (como o Goiasnet, por exemplo), eles se dispersaram em uma velocidade muito maior”, informa Daniel. Ele lembra que já existem muitos publicitários que lidam com marketing pela internet. “Isso está assustando quem desconhece o assunto”.
O mapeamento ao qual eu me referia era algo assim.
Ele mapeia as conexões entre os indivíduos numa rede social a partir de um ponto central (Ego), gerando um gráfico espacial das relações. Esse gráfico tem nódulos e entrocamentos – o Ego é claramente um entroncamento. Agora veja o gráfico de dispersão da SARS – poderia ser gripe suína, como eu sugeri – modelado com os mesmo princípios metodológicos.
Minha analogia era a de que a dispersão de informação numa rede social obedece a um padrão muito parecido com a dispersão de um vírus transmissível pelo ar, como a gripe suína. Como exemplo eu citei a morte do Michael Jackson – porque achei que seria mais fácil para o leitor sacar a comparação – cujo padrão de dispersão no Tweeter apresentaria um desenho similar a este da SARS. O objetivo era ilustrar a tese de que a informação, assim como a gripe, espalha-se por contágio sendo impossível prever que rumo ela via tomar, principalmente nas redes sociais. Por isso é bobagem querer policiar a Internet. Em momento algum eu disse que a notícia da morte do Michael Jackson começou em páginas de blogs para depois ganhar a mídia. Embora a maneira como uma informação vai de blog a blog não seja realmente tão diferente, eu achei que o modo como a Núbia fraseou o raciocínio ficou meio confuso.
Outra parte diz respeito aos grandes portais de mídia, como o Globo, Terra, Uol, etc. Eles são o que chamei de nódulos de entrocamento – e com fluxo denso -, ou seja, muita gente acessa o tempo todo. Quando uma informação migra dessas tracks vicinais para um nódulo deste tipo a dispersão dispara. Só o Uol, em agosto passado, obteve mais de 1,5 milhões de unique visitors. Ele seria o equivalente daqueles nódulos na imagem acima de onde saem uma penca de vetores com pontas verdes. Ou seja, se a informação chegar num destes portais sua dispersão cresce exponencialmente.
Outra coisa foi a idéia de que a legislação quer “agarrar” ou “atacar” os portais de notícias. A expressão é muito infeliz, embora eu a tenha usado, porque denota certo tom de desobediência civil. A lei quer normatizar e não “atacar” fulano ou sicrano. Leis não fulanizam, nem mesmo as piores. Eis o trecho:
”É um avanço no sentido de que os congressistas entenderam que as páginas eletrônicas pessoais não podem ser controladas, assim como as redes sociais. O que estão querendo agarrar são os grandes portais de informação na internet, embora o Parlamento ainda não saiba exatamente como fazê-lo. Mas, atacando os grandes conglomerados, que têm empresas reais e um braço na internet, o controle se torna possível já que a responsabilidade (por supostos abusos ou privilégios a determinado candidato) será do grupo proprietário daquele portal”, avalia Daniel Christino, mestre em Filosofia Política e professor da UFG.
A conversa se deu no contexto da efetivação da lei. A possibilidade de punição aos blogs individuais é muito pequena porque, caso a pessoa esteja empenhada no dolo, pode hospedar sua página num servidor da croácia ou mais longe. Na verdade não é difícil blogar anonimamente, como mostra este site. Essa estratégia simplesmente não está disponível para os portais de notícias porque eles são obrigados – por questõe técnicas, até – a manterem seus serividores no Brasil. Estes veículos já adotam, desde sempre, a mesma política de outros meios para a Internet, como é o caso do G1, da Globo, porque não podem e não querem privilegiar nenhum candidato, pelo menos não abertamente.
Para terminar estes dois trechos aqui:
Entretanto, Daniel não vê problemas em um portal ou jornal on-line assumir que apóia uma determinada candidatura. “Acho que não devia ter lei alguma para cobertura jornalística na internet. O veículo virtual poderia ser processado por publicar uma informação falsa, mas não por privilegiar algum candidato. O problema é que querem controlar a rede com uma noção estranha de igualdade de espaço. Não tem como medir isso na internet”, diz.
Para Daniel, é provável que os blogs e redes sociais – livres para dizerem o que quiserem – vão contaminar os grandes portais e jornais on-line. “Se um internauta fizer uma denúncia verídica contra um candidato no seu orkut ou twitter, isso pode tomar uma dimensão que obrigue até mesmo os veículos impressos a falarem sobre o assunto”.
Realmente, acho que os veículos de informação podem, como nos EUA, apoiar um ou outro candidato abertamente, assim como podem apoiar uma plataforma política ou ideológica ( o Wall Street Journal é de direita e o Guardian de esquerda). A coisa tem que ser honesta e o jornalismo deve manter a pluralidade. Mas quando digo que não deve haver lei nenhuma estou me referindo a uma lei que proíba a expressão e não que puna excessos. O problema com o projeto de lei do senador Azeredo, mesmo corrigido, é que ele não pretende apenas punir, mas determinar o que pode ser dito ou não. Esse é o problema. Quem melhor colocou a questão foi o Träsel.
Por fim a questão da contaminação. Bem, no contexto da conversa discutíamos o impacto das redes sociais e da Internet nas campanhas políticas. Eu disse que o impacto ainda seria pequeno, em parte por conta da amplitude da rede de blogs na Internet. Mas disse também que os políticos “morrem de medo” de perder o controle sobre a própria imagem e que este controle simplesmente não é possível na Internet. Assim, boa parte do caráter repressivo da lei espelhava essa angústia. Há casos bem documentados do uso de redes sociais em campanhas publicitárias que aumentaram a visibilidade de um produto antes restrito a um círculo pequeno de consumidores. Há mesmo um nome para isso Buzz Marketing ou o mais conhecido marketing viral. O caso mais recente é do filme District 9. Não vi estudos, mas a título de comparação, o falecido Audiogalaxy simplesmente ressucitou o gênero rock progressivo dos porões das gravadoras. E a campanha do Obama provou ser possível usar a Internet de modo inteligente numa eleição.
Como a lei irá operar é algo que nem mesmo a Justiça Eleitoral sabe direito. Será necessário ver o modo como os tribunais irão estabelecer uma jurisprudência para o assunto. Este ajuste fino acontecerá durante a eleição e pode, depois, complicar bastante a vida dos políticos.
É isso.
Conta outra, Dirceu.
E o Zé Dirceu escreveu um artigo na FSP sobre a saída da Marina Silva. Ele meio que oficializou a versão de que a senadora foi cooptada pelo eixo PSDB-DEM através do seu braço verde, o PV. Enche a Marina de elogios, mas avalia a decisão como um equívoco.
O centro do texto é a diferenciação entre os projetos políticos do PT e do PSDB-DEM. Cito:
O PSDB fez uma opção, há quase 15 anos, por ser o partido das elites financeiras, quando a transição conservadora entrou em colapso após o impeachment de Collor.
A velha direita, desgastada pela longa ditadura militar, não era mais capaz de protagonizar a engenharia do Estado neoliberal. Esse foi o vácuo preenchido pelos tucanos, que se aliaram às velhas oligarquias do PFL-DEM para levar a cabo um programa de privatizações e desregulamentações que desmontou a economia do país e colocou em xeque a soberania nacional. Esse foi o papel exercido por FHC, cujo custo social o levou à derrocada em 2002.
O PT foi a vanguarda da mobilização contra esse programa. Quando o presidente Lula assumiu, mesmo em condições políticas precárias, pois minoritário no Congresso e às voltas com uma herança maldita, travou o programa tucano-liberal, interrompeu as privatizações e deu início à reconstrução do Estado como condutor de uma economia baseada na produção, no mercado interno e na distribuição de renda.
O texto foi talhado para criar uma identificação por oposição e, neste sentido, foi escrito para ser lido pela militância petista. O recado é o de que não há “crise” e, principalmente, os princípios deontológicos não estão se evaporando na chapa quente da realpolitik. Há uma clivagem fundamental entre estas duas forças políticas e se você não está de um lado, está de outro. Mas e o Sarney? Convenientemente não está incluído entre as forças da “velha direita”. Ele deve ter remoçado com o uso da linha PT Renew Rejuvenate. Tratamento intensivo.
O que o Dirceu quer esconder é o alcance da desagregação ética do PT. Eu não consigo pensar num exemplo mais didático do que o caso Mercadante, gentilmente forçado por Lula a retroceder quando não mais poderia, ao custo da sua imagem pública – o partido saberá recompensá-lo, espero. Esta desagregação é o preço do poder. Há um dilema moral entre os utilitaristas que vale bastante para o PT de agora: se você tem um projeto ou um ideal e nas pequenas ações cotidianas abre mão dele, em função de um racioncínio estratégico, você pode terminar, lá no final, quando suas ações forem somadas, num passivo ético meio vergonhoso. A soma de más ações não resulta numa boa ação. Os utilitaristas resolvem esta questão abandonando a idéia de um princípio moral universal e fundamentando a validade das máximas individuais em objetivos circunstanciais e, no limite, quantificáveis.
É o que está acontecendo com o PT. O projeto de poder está engolindo o partido porque, em nome deste projeto, abandona-se os princípios que determinaram a existência do próprio partido. Gabeira, Babá, Heloísa Helena, Marina, Flávio Arns dão testemunho deste dilema optando por manter sua fidelidade pessoal a estes princípios. Eles preferem o PT fora do poder. Não querem ser obrigados a dançar a ciranda da governabilidade com Sarney, Collor, Calheiros e Salgado.
O que emerge daí é um novo PT. Seu traço mais característico, até agora, é o centralismo decisório (o lulismo) e o pragmatismo político. Embora programaticamente ele se atenha a uma pauta trabalhista de esquerda, deontologicamente ele é um bicho totalmente diferente. É esta metamorfose que faz da fala do Zé Dirceu uma legítima historinha para boi dormir. A única coisa realmente certa é que o PT não pretende se mover em direção ao PSDB em nenhum momento futuro. Se isso acontecer quem sai é o Zé Dirceu. Quem sabe ele não vai para o PMDB?
Rápidas da madrugada
- Muita gente abandonando os blogs em função de atividades mais importantes. Natural. Blogs vão e vem, ativam-se e hibernam. Quando uns saem da arena, outros hão de aparecer. É a vida.
- O PT fez um papelão no conselho de Ética que envergonhou até seus próprios senadores. Ouvi na Globo News que Ideli Salvatti quase não conseguiu pronunciar seu voto em voz alta. Fico feliz de ter vivido para ver Ricardo Berzoini defender, por pura estratégia, que NÃO se investigue Sarney. A nota do partido é vergonhosa, maquiavélica. Em 91 eu estive em Brasília e vi as lideranças petistas discursarem em frente ao Congresso Nacional pedindo o impeachment do Collor. As convicções de então, tão sólidas e luminosas na boca destes senhores, hoje não valem nada. Não valem nem um José Sarney. Bom saber.
- Mas isso ainda não é o pior. O pior é gente defender o pragmatismo do PT mal disfarçando a lógica da “nossa patotinha” contra a deles. Gente inteligente não faz isso. Gente inteligente que faz isso colocou sua inteligência de lado para poder seguir atrás dos seus interesses.
- Marina Silva abandonou o barco. Não sei se votarei nela. Se o fizer será um voto anti-lula. Não dá para votar em Serra porque, sinceramente, os tempos do FHC foram negros para a Universidade Pública. A idéia de ter Paulo Renato novamente dando palpites sobre educação é horripilante. Eu acho que o rompimento diz muito mais sobre o PT do que sobre a Marina. Parece claro que ela saiu por convicção, mas os petistas estão analizando pelo viés estratégico. Quando ela diz que não dá para manter uma plataforma ambiental coerente dentro do partido isso tem que ser olhado com atenção.
- Enfim o poder está cobrando a conta do PT. Como dizia Weber, nem todo mundo consegue dançar com o diabo sem errar o passo.
Sarney, o tóxico
Quanto mais eu leio sobre a crise do Senado mais me pergunto o que faria se, algum dia, cruzasse com o José Sarney num saguão de aeroporto qualquer. Mostraria minha indignação desviando ostensivamente o olhar, como fazem os desafetos amorosos? Acenaria educadamente com a cabeça em reconhecimento a sua imagem pública? Fixaria um olhar dardejante na esperança de arrancar-lhe um naco de vergonha? Passaria altivo ignorando sua presença?
Nestas horas lembro-me da personagem de Notas do Subsolo de Dostoiéviski e sua obsessão em não ceder espaço ao Major (ou seria Capitão) com quem sempre cruzava na Perspectiva Nevsky. A coisa ali tinha uma forte conotação política, uma vez que ceder ou não o lugar envolvia a consciência exata da hierarquia política de São Petersburgo na época. Como é próprio aos personagens de Dostoiévski o dilema é todo construído na consciência da personagem, como um grande solilóquio.
Eis o problema com o José Sarney – e os políticos corruptos em geral: eles sempre me fazem sentir como se eu fosse alguém do subsolo, do subterrâneo. Sinto-me diminuído e começo a fantasiar uma situação na qual, de alguma forma, esteja em pé de igualdade com ele. No caso do Homem do Subterrâneo esse local é a rua, mas a personagem já se impregnou tão profundamente de sua pequenez que nem lá, no locus democrático por excelência, alcança essa igualdade. Mesmo substituindo a Nevsky pelos lobbies dos aeroportos, se cruzasse com ele provavelmente o deixaria passar ileso, deixando escapar um comentário espantado e submisso: “olha lá, é o José Sarney!”.
Sarney é tóxico. Ele contamina tudo com impotência. Ele me deprime e enfraquece, como um veneno. Basta olhar seu bigode a emoldurar o discurso crédulo das próprias virtudes que me vem uma tremenda fraqueza de vontade. É preciso ser resiliente e obstinado em proporções absurdas para continuar tendo esperança.
Epílogo: meu filho vem correndo me mostrar a tarefa de história. No livro há uma foto do Sarney com a faixa presidencial. Que merda!
O cofre e a alma
Quando meu tio morreu encontramos em seu quarto um cofre do qual não tínhamos conhecimento. Bem, meu pai tinha, mas nunca havia comentado nada. Meu tio era um recluso. Excetuando sua certidão de nascimento não possuía nenhum outro documento (nem carteira de identidade, nem CPF, nem título de eleitor). No que diz respeito ao Estado, meu tio não existia. Também não conversava muito. Arredio, não se sentia confortável perto de muita gente. Possuía uma inteligência singular. Aprendeu sozinho a tocar clarineta e banbolim; também aprendeu a pintar (naïf) e consertar televisões por conta própria. Entre outras coisas encontradas no seu barracão havia um livro de química muito antigo, escrito em francês, com receitas para coisas como pólvora e fogos de artifício. Não me lembro de vê-lo entabulando alguma discussão política ou econômica ou estética. Quando queria demonstrar carinho, nos convidava para passar a tarde com ele no trabalho e nos levava ao bar da esquina. “Peça o que quiser”, dizia. E eu: “Coca-Cola e pão de queijo”. Ficávamos sentados comendo em silêncio. Não foi surpresa, portanto, descobrir que nenhum de nós possuía o segredo daquele cofre.
Nos reunimos eu, meu pai e meus irmãos para discutir o que fazer. “Mande vir alguém com um maçarico e vamos abrir essa porra!” disse meu irmão, com a delicadeza costumeira. “Não, assim estragamos o cofre e ele ainda pode ser útil”, retrucou meu pai, pragmático como sempre. “Porque não enterramos ele bem fundo no quintal e deixamos para que alguém descubra depois”, disse eu. Não vou ofender o leitor reproduzindo o que meu irmão disse, mas meu pai pegou o telefone e ligou para um amigo que conhecia um amigo que trabalhava com cofres.
Não acho que o pessoal lá em casa entendeu, mas o indevassável cofre verde era, para mim, um pouco como o meu tio. E não gostava muito da idéia de alcançar seus segredos através da força. Meu tio construiu sua solidão cuidadosamente, conscientemente. Era mais um traço de personalidade do que um problema psicossocial. Minha tia, mais velha, hoje com 90 anos, disse-me no enterro que meu tio sempre fora especial – com isso era queria dizer: solitário, ensimesmado. Certa vez, no Rio, foram visitar um parente que tinha um piano em casa. Embora tocasse bandolim, meu tio nunca havia mexido num piano. Perguntou se poderia tentar. Sentou-se e, depois de experimentar a sonoridade por alguns minutos, tocou, de uma vez e sem grandes erros, Brejeiro de Ernesto Nazareth. Espantou todo mundo. Minha tia chorou. “Seu tio foi um talento desperdiçado no interior do Brasil”, disse. “Perdeu-se na brutalidade do mundo”. Será? Assim como o cofre, é impossível saber o que ficou trancado dentro do meu tio. Deixou-me como herança um segredo sobre o quê, quem e como somos o que somos. Meu tio é, para mim, a principal justificativa para qualquer humanismo: somos indecifráveis. Um enigma envolto em mistério. Meu tio Nardim.
Sobre alunos e aulas
O semestre está no fim. Hoje, em minha sala aqui na Universidade, recebi a visita de uma aluna. Veio me agradecer pelas discussões e pelos textos que apresentei no curso. Fiquei lisonjeado, inflado mesmo. Aí me lembrei de uma outra aluna num outro contexto. Transcrevo abaixo um antigo post e depois comento.
Comecei a dar aulas por impulso, obedecendo a um prazer bem próprio e egoísta: eu gostava de conversar com os outros sobre o que eu lia ou estudava, e gostava também de explicar-lhes como eu me sentia ao ler e estudar o que eu lia e estudava. Na verdade eu não me importava muito com o impacto do que eu falava nas outras pessoas. Dava aulas porque me sentia bem fazendo isso. Claro, eu tive alguns professores geniais, dos quais ainda me lembro com muito carinho (Udo, Luis Cláudio, Jordino, Adriano, etc.), mas nunca havia atinado para a intensidade deste tipo especial de relacionamento.
Recebi, ontem, um e-mail de uma ex-aluna. Era uma menina meio sonolenta e ensimesmada. Não se saia muito bem nas avaliações e nem participava ativamente das aulas. Parecia meio deslocada em sala, chegava sempre atrasada e me olhava com um ar entre o desprezo e o enfado, pelo menos do meu ponto de vista. Enfim, era uma aluna mediana. Lembro-me dela porque fui convidado, como avaliador, para sua banca de TCC (trabalho de conclusão de curso). Sinceramente nem me lembro de qual era o título do trabalho – ela se formou em 2005.
Na carta ela diz coisas como “Na primeira aula que assisti na turma de jornalismo da Faculdade Alfa, no segundo semestre de 2001, um professor de cabelos longos, anelados, falava sobre a responsabilidade do jornalista no que ele chamava de “construção da realidade”. Fiquei maravilhada. Até então, não havia experimentado o prazer de assistir a uma aula, do inicio ao fim, sem “piscar os olhos”.
Ou então “Na verdade, eu não gostava de ser eu. No início, o que eu mais gostava era de assistir as aulas desse professor de cabelos compridos. Ele era tão jovem, tão inteligente, tão brilhante. Eu o admirava. Eu o amava. Queria ser notada por ele. Queria merecer sua admiração. Queria retribuí-lo pelo prazer do conhecimento que despertara em mim“.
Era pra eu ficar envaidecido, não é? Só que no seu TCC eu não lhe dei nota 10 – eu, especificamente, porque sua orientadora queria lhe dar 10. Nem me importei com o significado da nota para a garota. Pois é, ao final do e-mail ela diz: Foi nessa fase, já no final do curso, que vi na monografia a única possibilidade de fazer algo que eu realmente me orgulhasse. Na verdade, eu queria meu estimado professor pra me orientar no trabalho, não deu. Mas, tudo bem, trabalhei duro ao lado de pessoas maravilhosas, que me apoiaram e me ensinaram muito… Eu queria, mais uma vez, movida pela vaidade, provar pra todo mundo, o quanto eu era boa. Não medi esforços pra fazer um trabalho nota 10… Virei noites a fio. Eu sonhava com um 10 pra esfregar na cara do mundo. Pra eu me sentir 10.
Fiquei pasmo! Ela, então, arremata: Professor, hoje eu entendo: a vaidade era minha. Quando percebi (demorou alguns meses), tive uma profunda vergonha do que fiz. Da maneira ridícula como chorei ao telefone, fazendo chantagem emocional… Achei, então, que não era mais digna do seu respeito e decidi esquece-lo para sempre. Não consegui. Agora, não me importa a nota que você dará para este e-mail. Fiz o que tinha de fazer, da forma mais digna e sincera que pude. Sinto-me livre.
Que coisa maravilhosa e perigosa é ser professor! Havia me esquecido completamente. Tão acostumado eu fiquei com as colas e os plágios, com a preguiça intelectual e com essa maldita estupidez amplamente distribuída entre as idades e os sexos, que me esqueci do principal: o vínculo humano do ato de ensinar. Ela realmente havia me ligado chorando, tentando explicar como aquele ponto (ou pontos) significou a mais avassaladora e sombria derrota que ela jamais sofrera. Fiz ouvidos moucos, não me movi.
Sabe, eu fico feliz da garota se ver, finalmente, livre de mim. Também eu devo aprender a me esquecer um pouco.
Pois é. Este semestre recebi elogios e, até agora, nenhum desabafo. Mesmo assim é bom eu me lembrar: devo esquecer-me! Ser exigente na medida certa, compreensivo e, antes de qualquer coisa, humano. Trata-se, enfim, de ensinar pessoas e não corrigir ou transformar o mundo!




